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Publicada em 26 de Outubro de 2026 às 00:25

As palavras íntimas de Erico Verissimo e Jorge Amado

Obra que será apresentada na Feira do Livro de Porto Alegre traz 40 anos de troca de cartas entre Erico Verissimo (foto) e Jorge Amado, e revela lado pessoal dos ícones da literatura

Obra que será apresentada na Feira do Livro de Porto Alegre traz 40 anos de troca de cartas entre Erico Verissimo (foto) e Jorge Amado, e revela lado pessoal dos ícones da literatura

/Acervo Literário Erico Verissimo/DIVULGAÇÃO/JC
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Andressa Pufal
Andressa Pufal Repórter de Cultura
Quem nunca quis saber o que fazem os grandes nomes da nossa arte em sua intimidade? Sobre o que falam, o que pensam? Como são, por trás da grandeza do sobrenome? É um pouco desta vida oculta que podemos vislumbrar através do livro Cartas: Erico Verissimo e Jorge Amado. A obra reúne correspondências trocadas pelos autores durante 40 anos.

Os hoje renomados escritores mostram nos textos as inseguranças de dois jovens iniciantes no mundo da literatura. Trocam dicas, elogios, críticas construtivas. Além de conversas profissionais, as palavras também revelam dois grandes amigos que, com muito carinho, compartilham as experiências de serem pais, avôs e maridos apaixonados. Ao passar dos anos, vão se tornando o que são hoje: mestres. E tudo isso a gente espia como que através de um buraco de fechadura, tornando-nos cúmplices dessas histórias.

A obra, organizada por Paloma Jorge Amado, filha de Jorge, e Bete Capinan, está à venda nas principais livrarias do país, pelo preço de capa de R$ 89,90. Com 160 páginas, o livro tem prefácio de Paloma, um texto recuperado de Luis Fernando Verissimo e orelha assinada por Fernanda Verissimo, neta de Erico, mostrando que a amizade entre as famílias segue através das gerações. A coletânea ainda será apresentada na Feira do Livro de Porto Alegre, em roda de conversa com Fernanda e Paloma, no dia 15 de novembro.

“Não me queixo da literatura por causa dos amigos que me deu”, disse em uma das cartas o escritor Jorge Amado. O gaúcho e o baiano começaram a se corresponder a partir da publicação de Clarissa, primeiro romance de Verissimo, publicado em 1933. Desde esta data, os autores nutriram uma relação de companheirismo, diálogo e visitas à casa um do outro. “Já em 1935 você esteve no Rio, em casa, e em 1937, eu em vossa casa em Porto Alegre”, escreve Jorge Amado em carta de 1970, relembrando o início da amizade. “Felizmente continuamos os mesmos, não mudamos no fundamental.”

Além da literatura, os autores também compartilham notas sobre ofícios mais aconchegantes: os de serem pais e avós corujas. A amizade era tanta que, quando nasce Luis Fernando, Jorge Amado, ao ver o bebê, batiza-o com outro nome: “nós o apelidamos de João, parecia João e não Luis Fernando”. E pegou.

Durante as quatro décadas de trocas de correspondências, são inúmeras as menções ao “Joãosinho”: “está um boto de tão gordo e grande”, diz o pai em carta de 1952. Em dezembro de 1971, rasga-lhe elogios: “está escrevendo cada vez melhor. Saiu-nos o ‘Joãosinho’ um notável humorista”. Em outro registro, de 1972, Jorge Amado celebra o sucesso do cronista: “acompanho com a afeição de quem o viu menino de colo”.

“Parabéns a você pelo neto ou neta que aí vem. Esses bichinhos são a melhor coisa da vida. Ser avô [...] deve ser desfibrar fibra por fibra… a fibra da gente, pois os netos fazem conosco o que querem”, delicia-se Erico em 1972. “Sou um avô alucinado”, completa em outra passagem. E quanto ao papel no matrimônio, só gratidão: “Mafalda, como o vinho, melhora à medida que o tempo passa. O mesmo deve acontecer com Zélia, e será que as merecemos?”, diz o escritor gaúcho em 1961.

Além das intimidades desta conexão Salvador - Porto Alegre, o livro se consagra como um retrato de quatro décadas da história do Brasil – com comentários sobre os governos Vargas, Dutra e da Ditadura Militar, com receios à ascensão do autoritarismo. “Seu Jorge, é o fim do mundo!”, exclama Erico em fevereiro de 1970, temendo a implantação da censura prévia de livros que foi estabelecida naquele ano.

“Que podemos fazer?”, questiona. “As nossas associações de escritores vão ficar caladas engolindo esta sinistra portaria?” Ao que Jorge Amado responde: “Não sujeitarei livro meu à censura. Prefiro deixar de publicar no Brasil.”

“Acho que o mais interessante do livro é que ele consegue misturar esse afeto, essa coisa cotidiana, pessoal, familiar, com uma história da literatura brasileira e com a História do Brasil, porque, mesmo que seja por pinceladas, eles passam por 40 anos de história”, resume Fernanda Verissimo.

Em outras passagens, os autores conversam sobre suas produções literárias. A respeito de Incidente em Antares, de 1971, diz Jorge: “ao lê-lo não senti apenas o Rio Grande do Sul, a cidadezinha gaúcha, senti o Brasil inteiro porque se a paisagem é rio-grandense, o sentimento é brasileiro”. Ao que Erico responde: “Uma opinião tua tem para mim um valor extraordinário. Saber que gostaste para mim vale por dez críticas favoráveis”.

E mais elogios afetuosos aparecem em cartas dos anos 1960. Erico Verissimo diz ao amigo: “Chegastes ao ponto mais alto de tua carreira de contador de histórias. E não podes calcular como me alegra a ideia de que permaneceste fiel a este tipo de história (ou estória) que os críticos sofisticados chamam de linear, mas que para o leitor que sou é ainda o grande caminho da literatura”.

“Para nós, foi uma agradável surpresa, porque a gente nunca tinha visto as cartas todas assim reunidas”, comenta Fernanda Verissimo. “É sempre bom ver duas pessoas que não necessariamente concordavam em tudo, mas que tinham esse afeto natural um pelo outro. Tinham tolerância e disposição de achar os pontos em comum entre eles, para se juntarem quando absolutamente necessário.”

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