Criar em meio às tarefas do dia a dia talvez exija “uma força estranha ou extraordinária”, conta Vera Chaves Barcellos, artista de 88 anos e diretora-presidente da Fundação Vera Chaves Barcellos (FVCB). A frase dá nome à exposição Uma Força Estranha, inspirada na canção de mesmo nome de Caetano Veloso, de 1978, eternizada na voz de Gal Costa. A mostra, dedicada à produção de mulheres, reúne 53 obras de 36 artistas brasileiras e internacionais na Sala dos Pomares da instituição (Tapir Rocha, 8480, Viamão). Aberta desde 29 de agosto, fica em cartaz até 5 de dezembro, de terça a sábado, das 9h30min às 17h, exceto em feriados, com entrada gratuita.
O projeto dá continuidade à programação de 2026 e vem depois de Há pouco?, que esteve em cartaz de 21 de março a 11 de julho, com curadoria de Bruna Fetter e 95 trabalhos de 94 artistas – a maior exposição da Fundação em número de peças e de artistas. Há pouco? buscou mostrar de forma abrangente a variedade e a quantidade da produção feminina; nesta, a seleção ficou a cargo de Vera, que escolheu entre as mais de 4.000 peças do acervo, produzidas desde a década de 1960, trabalhos com, em sua maioria, "uma tônica mais visceral". A coleção antecede a própria Fundação, em atividade desde 2005: começou nos anos 1960, conta Vera, com trocas entre artistas, e já reunia obras, incluindo as dela, bem antes de a instituição existir. Depois veio um processo "gradativo e lento" de aquisições, hoje reforçado por inúmeras propostas de doação.
Dentro do recorte de Vera, há núcleos que dialogam com a água, trabalhos não figurativos, mas igualmente expressivos, e peças poéticas, críticas e documentais que manifestam traumas e dores, além de vídeos sobre tarefas e histórias femininas. O ensaio do catálogo, assinado pela historiadora da arte e professora da UFRGS Ana Albani de Carvalho, propõe natureza, corpo e geometrias instáveis como chaves de leitura e aponta a água como elemento recorrente. Desde a abertura, a artista avalia a recepção como "muito boa" e relata que a mostra recebe visitantes de outros estados e até de fora do país.
Ao longo da exposição, o Programa Educativo da FVCB oferece oficinas e uma roda de conversa gratuitas, sempre aos sábados, com inscrição prévia pelo site da Fundação e vagas limitadas. Em 7 de novembro, Mariana Wartchow conduz uma oficina de impressões botânicas com plantas coletadas no jardim; em 14 de novembro, Ananda Kuhn parte da série Abissais para uma oficina que explora as águas e suas profundezas por meio de desenho, pintura, fotografia e colagem; e, em 28 de novembro, a jornalista Nereida Vergara coordena uma oficina de escrita criativa. O encerramento, em 5 de dezembro, reúne visita mediada e roda de conversa com artistas e inclui ônibus de Porto Alegre até Viamão, ida e volta.
A mostra, segundo Vera, apresenta "a diversidade da produção artística de um grupo de mulheres de diversas formações, origens e faixas etárias", sem pretensão de ser feminista. A artista reconhece que "a representatividade das obras de qualidade feitas por mulheres ainda carece do reconhecimento que merece".