A primeira guitarra de Gabo Islaz estava danificada no depósito da escola onde a avó dava aula, até ela levá-la para consertar e acabar deixando o instrumento com o neto, que tinha 12 anos. Aos 16, ganhou outra, também de segunda mão, que ainda usa. Hoje, aos 29, o músico de Porto Alegre divulga seu disco de estreia, Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração, lançado em maio, e faz uma turnê que passa pelo Tacuanoise, festival alternativo de Tacuarembó, no Uruguai, em 26 de dezembro. Antes, toca nesta sexta-feira (23) em São Leopoldo, no Afronte Cultural (São Caetano, 173).
O violão chegou um ano antes, aos 11, na casa dos avós, onde o tio Gustavo e o avô, André Gonçalves, o Dé, ensinaram os acordes iniciais. Até ali, crescia com o rock brasileiro das rádios nos ouvidos, além da influência do filme Escola de Rock e bandas estrangeiras como Ramones, Nirvana e Offspring. Na sexta série, quando montou a primeira banda, os ensaios sem microfones consistiam em gritar suas referências, entre elas, Banana Split, dos Cascavelletes.
Na mesma época, passou a gravar o que tocava com o gravador cassete do avô e, mais tarde, com o programa do Windows, que limitava cada captação a um minuto. A cultura do faça-você-mesmo (DIY) o seguiu até a faculdade, onde chegou após um curso de extensão da UFRGS para alunos de escolas públicas, feito por conselho da mãe, que dizia que, se queria ser músico, teria que estudar. Na graduação em música popular, demorou a se encontrar e achou que precisava de um estúdio grande; entretanto, no fim, as conversas dos professores sobre identidade artística o levaram de volta à produção caseira. “O que eu era já estava ali”, reconhece.
Dessa volta saiu seu TCC e, com ele, o EP Bicicleta Sem Rodinha, de 2021, que gravou sozinho, com instrumentos emprestados de amigos. Na pandemia, o envio de diversos e-mails a selos fonográficos chamou a atenção da Living Waters Records, de Nova York. O selo o lançou em digital e em vinil, e o EP ganhou destaque no Bandcamp Daily e na rádio WFMU.
Em 2023, depois de uma fase difícil em Porto Alegre, Gabo passou seis meses em Santa Fe, na Argentina, com bolsa de estudos, temporada que rendeu amizades registradas no álbum. A cantora basca Karmele Gurbindo canta em Solzinho, e o colombiano Sergio Escuch-andante, parceiro das peladas semanais, faz o spoken word da faixa que fecha o disco. O período, resume, foi “uma mudança de ares que me fez voltar a ter fé na vida”.
Com pré-produção de Viridiana Saboya e Bernard Simon, o trabalho combina as duas linhas de composição do artista, uma mais tradicional, com o violão e frases anotadas no celular, e outra mais digital, criando a canção direto no computador em softwares de edição de som. Nesse processo entram os samples que coleciona, como os sons do jogo Futebol Brasileiro '96, usados em Dente de Leite.
Colorado desde antes de aprender a ler, o músico leva o futebol para além do videogame, com a melodia de um canto de torcida que aprendeu no estádio em Olá, Meu Amigo e, na capa, uma foto de acervo do time juvenil IPE Juniors, treinado pelo avô Dé.
O nome do disco é uma frase de O Livro dos Abraços, do uruguaio Eduardo Galeano e, para Gabo, reúne memória, afeto e latinidade. Na cena local, identifica-se com as bandas dos amigos, mas se sente “meio deslocado” no geral e mais próximo das latino-americanas. Fã do Él Mató a un Policía Motorizado, abriu o show dos argentinos em 10 de outubro, no Opinião, após jogar bola com os integrantes na véspera: “tanto pessoalmente, quanto artisticamente, foi uma experiência incrível”, conta.
Com cerca de dez músicas para o próximo álbum, almeja gravá-lo em 2027 ao lado de Marcelo Henkin, Hebert Moah, Felipe Brandão, Bruno Fonini e Vitor Brandão, que o acompanham ao vivo, diferentemente dos anteriores, montados em boa parte em quartos. “Quero que seja uma coisa mais com a cara da banda que vem tocando comigo”, diz.