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Publicada em 15 de Outubro de 2026 às 15:49

Doce Creolina une música nativista gaúcha e caipira mineira e prepara primeiro álbum

Júlia Manfroi e Mattos Rodrigues são o casal responsável pela música da Doce Creolina

Júlia Manfroi e Mattos Rodrigues são o casal responsável pela música da Doce Creolina

MARINA MEDEIROS/DIVULGAÇÃO/JC
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Joana Luna Camargo
“Uma banda sem terra”, diz Mattos Rodrigues sobre a Doce Creolina, dupla de música folclórica psicodélica que forma com a parceira de vida, Júlia Manfroi. Com endereço atual em São Paulo e raízes gaúchas, a banda lança na segunda-feira (19), nas plataformas de streaming, Primavera (não vou voltar), primeiro single que antecipa o álbum de estreia, e toca em 11 de dezembro no Morrostock, festival que ocorre em Santa Maria.

A passo-fundense Júlia é bacharel e licenciada em dança pela Anhembi Morumbi e, além da música, dá aulas de balé, enquanto Mattos, mineiro de São Lourenço, é formado em filosofia pela USP e trabalha, paralelamente à banda, no educativo do Museu do Ipiranga. Os dois se conheceram pela internet, em 2019, aproximados pelos gostos musicais, e se encontraram pessoalmente no fim de 2020. Com a pandemia, o namoro virou um vaivém entre o Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais, sem casa fixa, até a mudança definitiva para a capital paulista em 2022.

A música sempre fez parte da vida de ambos. Júlia se interessou na adolescência pelos Beatles, e Mattos cresceu com o violão do pai no canto da sala. O aprendizado musical seguiu caminhos próprios: a bailarina começou no baixo com poucas aulas e seguiu sozinha no instrumento, enquanto o filósofo toca profissionalmente desde a adolescência. Foi em plena reclusão pandêmica, em 2021, que passaram a gravar covers juntos. Inspirados pelo documentário Fungos Fantásticos, decidiram compor sobre o tema, e dali nasceu Micélios, a composição inaugural. O nome da banda veio do mesmo lugar: creolina é um veneno usado para matar fungos, e o “doce” que a antecede dá à palavra um tom de ironia.

Além do Reino Fungi, que para eles carrega uma dimensão ambientalista, a ideia de Sul orienta a dupla: o do país, o do continente e o do hemisfério, em oposição ao Norte. “Existe um grande sul conceitual”, resume o artista. Isso aproxima a música nativista gaúcha e a caipira mineira - “o mineiro é o gaúcho de Minas e vice-versa”, brinca a musicista - da psicodelia dos anos 1960, que, segundo eles, remete a uma época em que se acreditava num amanhã possível.

Esse universo virou disco em Passo Fundo. Com recursos de lei de incentivo, os dois gravaram o EP Debaixo do Chapéu de um Cogumelo, produzido por Bruno Philippsen, com quatro canções autorais e a releitura do nativista Tema de Marcação. Ainda sem banda fixa, escreveram músicas que respondiam às paisagens locais, o que torna o trabalho “completamente passo-fundense”, explica Mattos. Entre as autorais está Para onde foram os morcegos da vila indiana?, balada em dueto que nasceu do sumiço dos morcegos da sacada do primeiro apartamento paulistano do casal e imagina um fim para a relação. O show de lançamento foi em 4 de abril de 2025, no Teatro Municipal Múcio de Castro.

Depois dele, a Doce Creolina se fixou em São Paulo, onde tocou na Casa Slam, no festival que encerrou a exposição de Arnaldo Baptista, e foi convidada pela produção do ex-Mutante para o projeto Arnaldo Baptista 7.8 Canções Inesquecíveis Revisitadas, em que gravou Te Amo Podes Crer, lançada em setembro deste ano. O convite, descreve Rodrigues, foi “uma primeira abertura desse portão” num meio em que a banda, “muito em desterro”, encontra obstáculos para ser levada a sério. Desde então, a dupla sobe ao palco com Matheus Roth, Jony Rafa e Rafa Zigs.

Agora, o foco é o álbum de estreia. Primavera (não vou voltar) abre uma série de três singles, cada um ligado a uma estação, e o quarto passo será o próprio disco, previsto para o inverno de 2027, que deve dar nome definitivo à pesquisa iniciada no EP: “quando vem uma nomenclatura, fica mais fácil de entender os limites e as possibilidades da coisa”, avalia Manfroi.

Em tudo isso, vida pessoal e música não se separam. Se tivessem se conhecido só como amigos e montado a banda juntos, “a gente teria se tornado um casal de qualquer forma”, diz Júlia. A composição nasce a dois, e os desacordos são frequentes, o que Mattos encara como bom sinal: “quando brigamos por causa de uma canção, eu sei que vai ficar boa”, conta.

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