Cansado entre uma música e outra de um show em São Paulo, o violoncelista Perttu Kivilaakso foi respirar atrás da cortina e, sem querer, enfiou o espigão do instrumento num cabo de energia. Houve uma explosão elétrica, metade das luzes se apagaram e ele acha que a corrente chegou a passar pelo corpo, já que as botas derreteram. Quando voltou ao palco, com o cabelo todo arrepiado, o colega de banda Eicca Toppinen deu um tapa no rosto dele para saber se estava bem, e o show continuou. "Você nunca sabe que tipo de coisa legal pode acontecer no Brasil", brinca. O trio finlandês Apocalyptica retorna a Porto Alegre nesta terça-feira (13), às 21h, no Opinião (José do Patrocínio, 834), com ingressos entre R$ 229,00 e R$ 558,00 pelo Sympla.
A energia do público brasileiro é a primeira lembrança que o violoncelista cita do País: "incrível e poderoso, parecem viver a música ao máximo", descreve. Já sobre a relação com quem está diante do palco, resume: "Vivemos uma experiência juntos" , diz. Desta vez, o reencontro tem uma novidade: é a primeira vez que a banda traz à América Latina o show de
Plays Metallica, Vol. 2, álbum de 2024 com o qual o grupo excursiona há quase dois anos. "Vai ser uma enorme festa", garante.
O disco nasceu de uma vontade antiga da banda de gravar músicas do Metallica que ficaram de fora do primeiro álbum de covers, e o momento certo só chegou quase três décadas depois. Perttu calcula ter escrito de 15 a 20 arranjos para descobrir quais funcionavam no instrumento, já que, sem a letra e a voz do original, é preciso achar outros elementos para manter a canção interessante. A meta era respeitar a obra sem copiá-la. "Fazer a nossa própria sopa com esses ingredientes", resume.
Entre as faixas do disco estão
Ride the Lightning,
Holier Than Thou e
One, esta última já gravada pelo grupo em 1998, em versão para quatro violoncelos, e eleita por Perttu como sua música de metal favorita. Para o novo fonograma, a ideia era uma versão cinematográfica, com um narrador contando a história de um soldado. Quando os finlandeses sondaram James Hetfield, vocalista do Metallica, ele mesmo se ofereceu e acabou recitando a letra. "Nunca poderíamos imaginar que ele quisesse fazer isso", conta. O baixista Robert Trujillo também participa do álbum em
One e em
The Four Horsemen. "Ter a bênção ou a aceitação deles é muito importante para nós."
Entre o primeiro disco de covers e este, Perttu diz que quase tudo mudou - ficaram mais experientes e maduros - menos o espírito de quando eram estudantes de música clássica em Helsinque e já adoravam metal: "Éramos um pouco rebeldes", relembra. Para ele, a maior conquista é seguir juntos, algo que compara a "um casamento com vários caras", em que é preciso atravessar as discussões para crescer. E a vontade de tocar, explica, não vem só do salário, mas da alma. "Acho que nunca vou parar."