Churrasco à vontade antes e depois do show está entre as lembranças que o vocalista e baixista Santiago Motorizado guarda de uma passagem do El Mató a un Policía Motorizado pelo Rio Grande do Sul. O quinteto argentino retorna a Porto Alegre neste sábado (10), às 20h, no Bar Opinião (José do Patrocínio, 834), com abertura do músico porto-alegrense Gabo Islaz e casa aberta a partir das 18h30min. Os ingressos já estão no lote 4 e custam a partir de R$ 180,00 pelo Sympla.
Antes de tocar num festival, conta Santiago, a produção levou os músicos a um rodízio de carne, e o grupo não se segurou: "Nós, irresponsavelmente, comemos sem parar, porque era à vontade." O show saiu bem, e quem encerrou a noite foi a Superguidis, banda gaúcha com quem o El Mató dividiu o palco pela primeira vez na ocasião. Depois, todos os músicos foram levados a outro espeto corrido. "Comemos de novo. Uma jornada incrível", resume. A amizade com os gaúchos continuou numa espécie de intercâmbio com apresentações em La Plata e Buenos Aires, e uma série de três shows em Porto Alegre acabou cancelada porque Santiago adoeceu. "Sentíamos que éramos bandas irmãs, crescendo em paralelo em dois países que às vezes carecem dessa conexão", diz.
El Mató a un Policía Motorizado estreou no Brasil em 2007, em São Paulo, no extinto Inferno Club, para onde foi levado por um produtor que a conhecia pelo MySpace. Os argentinos esperavam pouco da viagem, convencidos de que era só um capricho desse fã, e estranharam ao saber que fechariam um festival de quatro bandas. "Ninguém nos conhece, é a primeira vez que viemos", relembra o vocalista. O público, porém, já estava entusiasmado e cantava as músicas num portunhol improvisado, o que surpreendeu os integrantes num tempo em que era raro uma banda argentina independente tocar no país. "Foi uma noite de glória", avalia. Dali em diante, as vindas ao Brasil se tornaram frequentes.
Mais de duas décadas depois de começar em La Plata, em 2003, o El Mató segue unido pela amizade entre os integrantes, que se conhecem desde a infância, diz Santiago. Para explicar a convivência de tanto tempo, ele recorre ao irmão menor, com quem dividiu o quarto por muitos anos, numa casa humilde de muitos filhos. "Eu o amo com todo o meu coração até hoje, mas não quero dormir com meu irmão de novo. Já vivi muito tempo com ele", brinca. A lógica vale para a banda, segundo o vocalista, em que a convivência precisa ser trabalhada: "Somos irmãos e vamos ser até o fim dos dias."
No sábado, o quinteto deve percorrer toda a discografia, adianta o vocalista, incluindo faixas do primeiro disco e da trilogia de EPs que veio depois, obras que completaram 20 anos e foram celebradas pelo grupo nos últimos anos. O grupo, que em 2022 apresentou no Brasil pela primeira vez La Síntesis O'Konor, de 2017, agora quer mostrar o Súper Terror, seu último disco de estúdio. Santiago diz gostar de tocar as músicas mais pedidas pelo público, como El Tesoro, Chica de Oro, Mi Próximo Movimiento e Más o Menos Bien: "Ver essa energia, ver o que elas geram nas pessoas faz com que, a cada noite, a canção se renove."
O Súper Terror, de 2023, é hoje o álbum preferido do músico. Vencedor do Prêmio Gardel de melhor álbum de rock, o disco revisita os anos 1980, década de bandas como Sonic Youth e The Cure, que o grupo conheceu mais tarde. "Foi como jogar um pouco com esses sons, trazê-los para o presente, para o nosso som, e colocar em contraste essa luminosidade do som das rádios FM com essa escuridão da música alternativa dos anos 80", explica. Ele liga esse contraste ao momento político da Argentina e da América Latina, em que as letras foram escritas, e diz que a ascensão de Javier Milei, que depois virou presidente, trouxe tempos escuros. O disco fala dessa escuridão no país e no mundo, afirma: "O surgimento de figuras de uma espécie de fascismo meio de caricatura, mas fascismo afinal, é algo que nos atravessa, que nos entristece, mas também nos obriga a estar atentos."
Para Santiago, passar tanto tempo sem vir ao Brasil com a frequência de antes tem um lado bom: o desejo cresce com a distância, e o reencontro chega com mais força. A quem vai ver o quinteto pela primeira vez, ele deseja uma boa noite e diz o que espera: "Tomara que vejam a potência que a banda tem ao vivo, que é muito diferente do que se pode escutar nas plataformas digitais."