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Publicada em 06 de Outubro de 2026 às 13:32
Durante a construção da exposição Russkaya Dusha, funcionários e curiosos paravam para fotografar três figuras de tamanho natural: Dostoiévski, Tolstói e Tchekhov. Com roupas de época, as esculturas produzidas por Bruno Teixeira e Malu Rocha agora recebem o público na entrada da Sala do Circo, no Multipalco Eva Sopher do Theatro São Pedro (Riachuelo, 1.089), onde a mostra segue em cartaz até 14 de novembro, diariamente, das 10h às 20h, com entrada gratuita.
Russkaya Dusha - em português, alma russa - reúne cerca de 300 livros raros do acervo do médico, escritor e bibliófilo Gilberto Schwartsmann, curador da exposição, além de fotografias históricas que ele comprou em leilões e livrarias antigas da Europa e dos Estados Unidos. Realizada em colaboração com a 72ª Feira do Livro, que ocorre de 30 de outubro a 15 de novembro, a programação inclui ainda leituras de textos curtos, com os atores Zé Adão Barbosa e Arlete Cunha, e palestras que cruzam a literatura russa com outras artes, como a música. As atividades têm entrada franca e acontecem às quartas e quintas-feiras, às 17h30min, no mesmo espaço.
A relação de Schwartsmann com os livros raros é bem anterior à exposição. Aos 71 anos, ele coleciona desde a adolescência. "Eu tinha 13 anos quando uma professora disse: 'Gilberto, eu vi que gostas de literatura, então vá à Livraria do Globo e compre a Divina Comédia. Mas a edição que tem as estrofes dos versos originais e em português do lado, e lê primeiro em italiano.' Respondi que não sei ler a língua estrangeira e então ela explicou: 'é para sentires a música das palavras'". Já na livraria, o jovem leitor recebeu uma dica da atendente, que, ao revelar o livro, contou sobre um sebo no fim da rua onde, pelo preço de um, ele poderia levar vários outros exemplares. Em vez de escolher entre os dois caminhos, o estudante ficou com ambos: comprou a edição na loja e, no fim da tarde, foi ao sebo atrás dos demais.
De lá para cá, o gosto pelas publicações acompanhou uma carreira que foi além da medicina: professor emérito da Ufrgs, já presidiu a Bienal do Mercosul, a Associação do Theatro São Pedro e a Biblioteca Pública do Estado, e hoje preside a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa). Como curador, montou mostras com parte da coleção, entre elas uma dedicada a Proust, na própria Biblioteca Pública, e outra na Academia Brasileira de Letras.
O critério de Russkaya Dusha, explica, é o idioma, e não a nacionalidade: entram autores que escreveram em russo sem terem nascido na Rússia, como Gogol, de origem ucraniana. O percurso, cronológico, começa com fac-símiles de poemas medievais, avança pela Era de Ouro do século XIX, de Pushkin, Dostoiévski, Tolstói e Turguêniev e passa pela Era de Prata e pelo período soviético. Ainda há um painel dedicado às escritoras russas do século XX. Cada etapa, para ele, é indissociável do contexto político: sob a censura dos czares e, depois, do regime soviético, a literatura fez as vezes de jornalismo e até de parlamento. Esse contexto se reflete na seleção de laureados com o Nobel, que reúne Bunin, Pasternak, Sholokhov, Soljenítsin, Brodsky e Svetlana Aleksiévitch. Vários deles, lembra, receberam o prêmio no exterior, depois de deixarem o país por questões políticas, e Pasternak, em 1958, foi pressionado pelo governo soviético a recusar o dele.
Do outro lado dessa história estão Gorki e Maiakovski, autores que, na visão de Schwartsmann, acreditavam na revolução e de quem vêm duas das peças mais raras de sua coleção: um livro autografado por Gorki e uma edição do poema que Maiakovski escreveu na morte de Lênin, que, diz, já despertou uma série de propostas de compra, sempre recusadas.
Para quem sai da exposição com vontade de ler os russos, Schwartsmann indica contos curtos, como O Capote, de Gogol, A Dama do Cachorrinho, de Tchekhov, e De Quanta Terra um Homem Precisa, de Tolstói. A quem não tem o hábito da leitura, o conselho é parecido: "Eu sugiro que comece lendo contos, crônicas, poesias, coisas curtas", diz. Sobre o que os livros oferecem, ele conclui: "Tu podes viver outras vidas com a leitura e viajar para outros lugares sem gastar a passagem, só a tua imaginação".