“
Trinta e três é meu número da sorte”, declarou Cadica no início da entrevista. Talvez seja por este motivo que o destino quis que
esta fosse a ocasião a ser comemorada no espetáculo O Repertório. O show celebra não trinta, mas
33 anos de história de uma das companhias de dança mais tradicionais da cidade. Revisitando coreografias, linguagens e memórias,
O Repertório será apresentado nesta
sexta-feira (2), às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto. Os ingressos estão à venda pelo
site da casa, por valores a partir de R$ 50,00.
Com
direção de Emily Borghetti e Everson Silva, a apresentação tem como principais protagonistas o novo e o clássico, que se unem em uma dança que
mescla obras inéditas, recriações e remontagens de coreografias emblemáticas. No palco, a conserva cultural da Cadica Cia. de Dança aparece na
fusão entre os ritmos flamencos e a cultura gaúcha e latino-americana. Sapateado, palmas, bombo legüero e percussão se encontram em uma experiência intensa e pulsante que promete uma viagem no tempo à plateia.
Em cena, nove bailarinos trazem novas linguagens para clássicas coreografias que estão entalhadas na memória muscular de quem passou pelo elenco. “Tudo para mim é ainda meio surpresa”, revela
Cláudia Pereira da Costa, a Cadica, idealizadora e fundadora da Companhia, que desde 2017 divide o comando da escola com a filha Emily. “Hoje, a Emily é a diretora da Companhia, eu sigo ao lado dela mais na vice-direção. Por isso dei
total liberdade a ela. Eu participo do espetáculo dançando as minhas coreografias de muitos anos, mas alinhado às ideias deles.”
De
Garrotin, obra de 1995, até
Alegrias, encenada em 2020, o espetáculo percorre esta trajetória a partir de dançarinos atuais da formação. Aí já está a renovação:
antigos números, novos corpos. “Os bailarinos antigos que estiverem na plateia vão
perceber tudo o que foi renovado”, diz. Impossível precisar quantas peças serão apresentadas, já que, no palco, as composições se entrelaçam até diluirem-se as suas fronteiras. O espetáculo se estrutura em blocos temáticos que, em fluxo contínuo, costuram uma
única e indivisível unidade cênica.
Algumas coreografias serão apresentadas na sua totalidade; outras, servem de inspiração para
novas montagens e até improvisos. Será uma espécie de “
aire com improvisação”, como define Cadica. “Vamos trazer coisas que estão no corpo dos bailarinos, mas também com um pouco de improviso.
Cada um com seu aire pessoal.”
O grande diferencial da noite também fica por conta de um
sarau que vai construir uma
atmosfera intimista e familiar para a apresentação. Esta intimidade começa com uma novidade:
Cadica assume o piano e conduz as danças. “Eu toco desde a infância, mas nunca me apresentei em palcos. Era algo só para a família, nos nossos encontros em casa.” Entre os acordes do instrumento, os bailarinos se levantam aos poucos e interpretam as canções.
Essa dimensão afetiva é ampliada com a
participação dos filhos de Cadica no espetáculo. Além de Emily, que atua como diretora técnica,
Nina da Costa Borghetti também vai estar entre os dançarinos e
Pedro da Costa Borghetti, vai estar atuando como técnico de som. “Vai ser quase um show em família”, celebra a coreógrafa.
“Eu me sinto muito honrada, valorizada, respeitada em
ver meus filhos fazendo parte desta caminhada. Me vejo num momento de gratidão, em que posso confiar e me abrir totalmente às ideias da Emily, porque sei que posso ficar descansada, que eles vão fazer o melhor trabalho possível, sempre honrando essa história”, emociona-se.
A
Cadica Companhia de Dança nasceu em 1993, sob o nome de Paixão Flamenca. Tempos depois, a coreógrafa fundou outro grupo: Homens Gaúchos. Em 2007, uma fusão juntou essas duas ideias e deu vida a esta Companhia que se consolidou com uma
proposta artística pioneira de fusão entre a arte espanhola e o folclore gaúcho. Cadica diz que se interessou pelo flamenco a partir do filme
Carmen, de Carlos Saura. Foi estudar mais a fundo e se apaixonou: “vi que era
uma dança onde a mulher podia ser muito expressiva, a mulher podia sapatear e
demonstrar de forma muito marcante a sua força.”
Foi para a Espanha, a fim de estudar mais sobre o ritmo. Lá, percebeu que os
movimentos da dança espanhola muito se assemelhavam à nossa cultura gaúcha. Daí nasceu a ideia de uni-los. “Eu tinha um pouco de receio do que o meio tradicionalista ia dizer sobre eu estar trazendo coisas novas, estar fazendo uma fusão.” Foi buscar a opinião direto na fonte: procurou os
conselhos de Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, que prontamente apoiaram o projeto.
“Quando eu ouvi isso deles, eu tive um alívio. E
aquilo me deu uma força tão grande que podia vir o comentário que viesse que não me abalaria”, recorda. “Acho que
o que move o folclore nasce da sabedoria de um povo, daquela terra. Então nós também
podemos contribuir inovando, podemos trazer criatividade, trazer um novo olhar, um novo repaginar.”
O flamenco aflora a força das mulheres, no tablado e fora dele. A confirmação disso é que
a porta que foi aberta por Cadica também viu passar outras muitas mulheres. Algumas delas, suas filhas Nina e Emily – a primeira, dando os
frutos do flamenco; e a última foi
revolucionar na chula, ritmo desde sempre reservado aos homens e que agora a vê romper barreiras.
A dança ensina a usar o corpo, mas principalmente o pé: para seguir compassos e para abrir caminhos. “Sou muito feliz porque
sou apaixonada pelo que faço. Nesses 33 anos, o balanço é positivo. Passamos por altos e baixos, como tudo na vida, mas o que importa é
uma vida toda dedicada a algo que faz sentido, que dá prazer, que valoriza nossa cultura. É um trabalho no qual eu
coloco todos os meus conhecimentos e espero que tenha vida longa, trazendo ainda mais felicidade a todos que participam.”