Cuíca, violão de nylon, agogô, atabaque - os instrumentos que sustentam Flecha do Avesso, primeiro álbum solo de Maurilio, carregam o mesmo calor que atravessa as nove faixas do disco. É um samba-rock que furta a vontade de ficar parado, mesmo que seja apenas um balançar de ombros. Filho de nordestinos, nascido em São Paulo, criado também no Amapá e radicado no Rio Grande do Sul há duas décadas, o compositor carrega essas geografias na própria sonoridade que constrói.
A escuta do artista também nunca teve fronteiras. "Sou filho de um trombonista do Exército. Comecei a me interessar por música ouvindo os CDs que tinha em casa - Blitz, Legião Urbana, Djavan. Vendo a MTV, passei a gostar de Kiss e virei um 'rocker'. Uma mistureba danada", conta. Essa miscelânea ainda é observada hoje: "Posso estar ouvindo um disco do Deep Purple e, em seguida, ouvir um samba-enredo ou um disco de forró, sem nenhuma dificuldade".
Foi esse apetite amplo que moldou boa parte da carreira do compositor, ainda que nem sempre de forma linear. Por anos, Maurilio foi guitarrista de bandas de rock e blues. Em Pelotas, criou o projeto As Longas Viagens, pelo qual lançou dois discos de rock alternativo em 2019, até a pandemia encerrar o ciclo. "Eu entendi que tinha que iniciar um novo momento", relembra. Então, em 2021, assinou pela primeira vez com o próprio nome, em dois singles que ainda flertavam com o rock, mas já com sotaque mais brasileiro.
A virada, segundo ele, foi mais um retorno do que uma ruptura. Antes da guitarra, vieram o violão e a MPB que tocava em casa, e o nylon nunca saiu das composições, nem nos anos mais roqueiros. Com o tempo, xote, arrasta-pé e samba foram entrando no repertório, e o desafio passou a ser costurar tudo sem fazer "um disco esquizofrênico", que começasse de um jeito e terminasse em outro.
Uma das decisões mais marcantes do álbum foi abrir mão da bateria e apoiar tudo na percussão, em diálogo com o samba-rock dos anos 1960 e 1970 de Trio Mocotó, Originais do Samba e Jorge Ben. "Eu quis fazer isso porque também nos forçava a buscar a estética desejada", explica. Já a composição, segundo ele, costuma partir da melodia, não da letra - um método que chama de "tecnologia reversa": primeiro cantarola ou toca uma ideia no violão, depois vai entendendo qual tema aquela melodia pede.
A produção musical é de Guilherme Ceron, parceiro desde os tempos das Longas Viagens, e a direção artística, da cantora e compositora baiana Lívia Nery, convidada para trazer um olhar de fora sobre a obra. O disco ainda tem participações de Juçara Marçal, Fernando Catatau, Tonho Crocco e Nina Fola, e sai pela Frase Records, selo que concentra nomes da cena porto-alegrense que ele admira.
Os próximos passos incluem um mini documentário sobre o disco, ainda sem data, e uma turnê pelo interior gaúcho, com passagem por Pelotas. O título do álbum, tirado de um verso da primeira faixa, resume o caminho até aqui: "É avançar olhando pro passado, para as próprias referências, para a própria história."