Como quem busca eternizar o que escorre por entre os dedos, Marília escreveu. Enquanto sua mãe, Milka, enfrentava uma doença que apaga a memória de uma vida, Marília se recusou a deixar que o Alzheimer levasse tudo: ficaram as memórias, as risadas e um relato sensível sobre a luta contra a doença. Estes registros ganham corpo na obra Minha Mãe Tem Alzheimer: Crônicas (Libretos Editora, 96 páginas, R$48), que não pretende ser um livro técnico nem um guia, mas um abraço, um ombro e uma forma de manter viva a dona Milka.
“Eu comecei a escrever não com o intuito de publicar, mas de lavar a alma, de ter uma catarse”, explica Marília Levacov. “No fim, acho que também foi porque eu queria preservar o que ela estava esquecendo. Não era lembrar para ela, mas talvez lembrar por ela.” Tudo começa em 2008, quando Marília se aposenta da Ufrgs, onde lecionava, para cuidar da mãe. A doença começou antes, e Milka era cuidada pelo marido, Paulo Ricardo, mas quando a situação se agravou, a professora largou a rotina para estar ao lado da mãe – “geralmente a tarefa do cuidado recai sobre as mulheres”, analisa.
O Alzheimer começou a se manifestar antes disso. Após um derrame, ocorrido em 1997, Milka já começou a apresentar problemas de memória, que inicialmente foram entendidos como efeitos colaterais esperados. No decorrer dos anos, com o agravamento dos sintomas, a doença foi diagnosticada. A publicação traz as memórias desta época, de quando o problema ainda não tinha nome, bem como registros dos quatro anos de cuidados até o falecimento de Milka, em 2012.
Uma colcha de retalhos foi sendo costurada ao longo dos anos. Situações do dia a dia registradas para “falar na terapia depois”, cenas inusitadas, dificuldades do cotidiano – os episódios foram documentados para servir de apoio para outras pessoas que também passam por isso. De acordo com a Abraz – Associação Brasileira de Alzheimer, estima-se que exista, no Brasil de 2026, de 1,2 a 1,8 milhão de pacientes diagnosticados com a doença, que é a forma mais comum de demência.
“Hoje em dia existem grupos de apoio e muita informação, mas naquela época isso era algo difícil. Eu me vi sozinha. Por isso resolvi escrever: meu desejo era que a gente pudesse entender tudo com mais paciência. Então eu fui explicando o pouco que eu sabia e vivia. Mas eu não sou uma expert: eu sou filha”, declara.
Minha Mãe Tem Alzheimer: Crônicas será lançado nesta edição da Feira do Livro, um dos lugares que Milka adorava frequentar. No dia 6 de novembro, às 17h, Marília participa do painel O envelhecer pode ser desafiador, ao lado da gerontóloga Guite Zimerman, em um bate papo sobre as dores e as delícias da velhice. Após o evento, às 18h, Marília participa de uma sessão de autógrafos. Exemplares já estão à venda pelo site da editora Libretos, bem como em livrarias parceiras.
Longe de ser um livro triste, a obra busca, acima de tudo, trazer leveza para as experiências. O Alzheimer já é pesado o suficiente – tanto para o paciente, como para a família. Então, como um convite para que as pessoas riam junto, Marília escolheu focar nos momentos mais bem humorados de toda esta trajetória. ”Eu quis preservar as coisas engraçadas que ela falou mesmo depois de não saber mais quem a gente era, onde ela estava”, explica. “Ela ainda conseguia achar o humor no cotidiano miúdo dela. No meio de tanto esquecimento, ela ainda lembrava de ser engraçada.”
É no contraste entre eterno e efêmero que Minha Mãe Tem Alzheimer cumpre sua função mais visceral. Se a doença opera pelo inevitável apagamento do tempo, a literatura surge como ato de resistência: a obra transforma a persistência dos registros em uma vitória silenciosa sobre o esquecimento. “Eu escrevi, escrevi e escrevi para poder lembrar.”