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Publicada em 22 de Setembro de 2026 às 13:04

Lory F., a mãe do rock gaúcho, é homenageada em show especial no Grezz

Lory Finocchiaro | F.Band © Fernanda Chemale

Lory Finocchiaro | F.Band © Fernanda Chemale

© Fernanda Chemale
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Andressa Pufal
Andressa Pufal Repórter de Cultura
Cantora, compositora, baixista, guitarrista, desenhista, produtora cultural. O que mais uma pessoa pode ser? Acima de tudo, Lory F. foi uma mulher - e uma mulher no rock. Em tempos em que até o próprio rock quase nem existia no Brasil. Colocando o pé na porta e abrindo caminhos que ajudaram a forjar a identidade do rock gaúcho, Lory F. esteve à frente de bandas como Cor de Rosa, Sombras da Noite, Sempre Livre e Pretty Woman Band. Mas foi com a Lory F. Band, entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990, que a artista deixou o maior legado. Agora, trinta anos depois do lançamento do seu único e póstumo disco, integrantes da sua antiga banda e artistas de todas as matizes se reúnem para celebrar a vida e a obra de Lory.

O show será nesta quinta-feira, dia 24 de setembro - data de aniversário da artista -, a partir das 20h30, no Grezz (Almirante Barroso, 328). King Jim (voz/sax), Edinho Espíndola (bateria) e Marcelo Fornazier (guitarra) formam a banda base, relembrando a espinha dorsal do grupo original que acompanhou a roqueira e gravou o disco homônimo, lançado três anos após sua morte. Quem dá voz às letras de Lory é a própria família Finocchiaro, que divide o microfone entre Ricardo (filho), Laura e Deborah (irmãs).

"Po, qual é a artista que, trinta anos após a morte, ainda tem uma banda que fala dela e quer tocar suas músicas?", brinca King Jim. "Acho que esse ato resume o que ela foi. Ela é um ícone, uma pioneira. Tinha uma atitude e conseguir manter um grupo de músicos homens bem selvagens e conseguir manter a banda unida em torno da do trabalho dela, que era excepcional."

Ainda fazem parte desta mega reunião membros de outros grupos como Bixo da Seda, Garotos da Rua, Defalla, Papas da Língua, Cidadão Quem e Pata de Elefante, além de outras participações especiais, como Cau Netto, Chico Ferretti, Zé Natálio e Gabriel Guedes. Antes do espetáculo, o público tem a oportunidade de conferir o documentário Sinal de Alerta, dirigido por Fred Restori e Natália Pimentel. A peça audiovisual mostra a curta e intensa carreira de Lory, bem como toda sua luta contra o vírus HIV, a cena machista dentro do rock e os vícios.

"Este retorno é um presente, um troféu", celebra Laura Finocchiaro, irmã de Lory. "É um som que continua espantosamente vivo. Que faz as pedras rolarem. Lembro até hoje de quando ela me pediu, no hospital, para que eu mixasse o álbum. Ela disse: "Mas não tenha pressa. Minha música vai ser descoberta, mas só daqui a 20 anos." Eu tratei de mixar na mesma semana e é o maior orgulho que eu tenho. O disco ganhou prêmios, ele tá dentro do livro 100 Grandes Álbuns do Rock Gaúcho, fez história, deu certo. É uma mixagem que tu ouve e soa bem até hoje."

Lançado em 1996, o disco Lory F. Band traz 11 composições próprias da artista e da banda, que flutuam entre os pesados sons do hard rock brasileiro, passam por todo o groovy do blues e do funk, trazem até um violão meio folk e ainda apresentam clássicas batidas do pop rock. São letras em português, inglês e espanhol entoadas pela voz feminina de Lory - que por vezes arranha a garganta num timbre roqueiro, mas que sempre soa divinamente angelical. Os sopros de King Jim, misturados às pesadas guitarras e a frenética bateria, amarram o disco numa sonoridade muito única. Lory se definia como "uma mistura de Keith Richards e Sade". Aluna prodígio da escola rock'n'roll, trazia influências de Patti Smith, Rolling Stones, Suzy Quatro, Tom Waits e Rita Lee.

Nascida em Porto Alegre, em 24 de setembro de 1958, Lorice Maria Finocchiaro sempre foi uma pessoa com as antenas ligadas. Libriana com casas em aquário e peixes, como lembra a irmã, "ela tinha nas mãos a chave que abriu as portas para a Era de Aquário". Aos 13 anos, foi estudar violão junto da irmã Laura: "não durou seis meses", brinca. As aulas pareciam muito caretas e Lory foi buscar nas ruas as referências para construir sua voz. Se matriculou nas aulas do rock urbano. Aos poucos, Lory construiu um estúdio no porão de casa, onde morava com a família no bairro Três Figueiras. Caixas de ovo estampavam as paredes para isolar os sons da bateria, das guitarras e dos amplificadores que entoavam canções dos Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e outros pilares do gênero. Ali era o ponto de encontro da comunidade roqueira nos anos 1970.

Testemunha ocular desta efervescência musical, Laura, que é quatro anos mais nova que Lory, enxerga nestes momentos a raiz da própria trajetória. "Ela era minha musa, minha inspiração. Eu estudando MPB e do nada aparece a guitarra distorcida dentro da minha casa. Uau. Eu via aquilo e pensava que queria ser aquilo também", recorda a multiartista, que hoje acumula quatro décadas na música e nas artes.

A partir do estúdio caseiro, Lory passou a tocar sempre que podia. Integrou diversos grupos, criou música, subiu em palcos, tocou baixo, tocou guitarra, escreveu, desenhou. Foi agitadora de uma geração, trouxe a Porto Alegre novas formas de criar e fomentou a cena do rock gaúcho - com o projeto Rock Horror Show, que reunia os mais diversos artistas para tocar no icônico Porto de Elis. Viveu a típica vida de sexo, drogas e rock'n'roll - com direito ao que vem de bom e ao que vem de ruim. Em 1988, foi diagnosticada como soropositivo para HIV. E foi aí que decidiu registrar o seu trabalho.

Nesta época, começou a gravar as músicas do álbum que só seria lançado três anos após a sua morte. "Ela foi uma guerreira. Morreu praticamente no estúdio gravando o disco", lembra King Jim, principal parceiro de composições da artista. A história de luta contra o preconceito e, principalmente, por mais visibilidade de pessoas com HIV são retratadas no curta-metragem Sinal de Alerta, que será exibido antes do show. Tema urgente em uma Porto Alegre que hoje lidera rankings de casos de Aids entre as capitais.

Um mulher que contribuiu tanto para a música gaúcha hoje tem, na Casa de Cultura Mário Quintana, seu nome eternizado em um palco - este lugar tão sagrado que era sua casa e para onde ela fez subir tanta gente. O show desta quinta vem para celebrar Lory F - a mulher, a artista e os caminhos que ela abriu. "É um disco que parece que foi gravado ontem", analisa King Jim. "Um trabalho pioneiro que merece destaque na memória cultural do nosso Estado, apesar de o rock não ser muito lembrado ao longo do tempo. Vamos celebrar esta mulher visionária. E quem não a conhece, vai ter a oportunidade de conhecer."

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