Antes de decidir onde gravar o quarto disco da El Negro, Mumu - vocalista, guitarrista e tecladista - passou por cerca de sete locações diferentes em Porto Alegre. Entre testes para entender como cada espaço soava, o porão do histórico Paço Municipal, antiga prefeitura de Porto Alegre, foi o local escolhido para realizar Bronco, fonograma registrado ao vivo por Mumu, Leandro Schirmer e Fabian Steinert e lançado em 26 de fevereiro deste ano nas plataformas digitais. Neste domingo (13), às 18h30min, a banda estreia o trabalho no Bar Ocidente (Osvaldo Aranha, 960), dentro do evento Desert Whip, que conta também com os shows das bandas Sterna Peyote e Wolftrucker. Os ingressos custam a partir de R$ 15,00 e estão disponíveis antecipadamente pela plataforma Sympla.
O prédio neoclássico, com pilares grandes espalhados pelo espaço, ofereceu um reverb identificável, ao mesmo tempo que não se torna excessivo: "Sem aquela coisa tão reverberante, tipo um hall", explica Mumu. A estratégia já havia sido testada no primeiro disco do grupo, captado numa fábrica de tecidos, e ecoa experiências de outros artistas referência, como PJ Harvey, que, em 2010, registrou o álbum Let England Shake dentro de uma igreja. Para o músico, que grava normalmente no Panama, seu espaço próprio na Cidade Baixa, a escolha também é uma resposta ao momento atual da música. "Acho legal sair do estúdio, até para diferenciar uma coisa mais orgânica", diz.
Para ter acesso ao local, um amigo da banda cuidou da burocracia de locação, testando opções que incluíam também casas antigas na Duque de Caxias e outros pontos culturais da cidade. A sessão contou com a gravação ao vivo de baixo, guitarra e bateria, com overdubs de voz feitos posteriormente no Panama. Executar tudo junto, no mesmo ambiente amplo, também moldou a performance do grupo: "Cada instrumento casou bem com o espaço. Queríamos capturar isso, como outras bandas que tocavam ao mesmo tempo, tipo Cream", compara Mumu.
O álbum reúne ainda duas participações especiais de músicos conhecidos do rock gaúcho. Em Galope Louco, o grupo recebe a voz de Beto Bruno - consagrado pelos anos à frente da Cachorro Grande -, que já acompanhava o trabalho da El Negro e se engajou ao ouvir uma demo da faixa, gravando e mixando sua parte em São Paulo antes de enviar o material para o trio. Já em Rick Simpson Oil, quem assina a guitarra é Gabriel Guedes, da Pata de Elefante - parceiro de Mumu também na banda-tributo Ziggy, dedicada ao David Bowie. A parceria nasceu de uma conversa informal entre os dois sobre a canção: "Ele simplesmente escutou a música e foi tocando. Foi a gravação mais rápida", lembra o vocalista.
Em fevereiro deste ano, quando o disco chegou nas plataformas de streaming, a El Negro embarcou para as terras argentinas para uma sequência de três shows para divulgar o trabalho: dois em Buenos Aires, no Clube V e no Mamita Bar, e um no festival Verano Alternativo, em Monte Grande, dividindo palco com nomes locais como Detonantes, Los Cristos e Cruzas. A experiência trouxe, para o guitarrista, uma percepção de que o país vizinho cultiva uma cultura de som mais consolidada. "Eles fazem um trabalho de pesquisa maior, tanto na música quanto explorando trilhas sonoras antigas, por exemplo", avalia.
O grupo é oriundo de sessões informais entre Mumu e o baterista Leandro Schirmer, então vizinhos, que se reuniam para tocar sem compromisso: "como bater uma bolinha com alguém", compara. Na discografia, o trio já lançou El Negro (2014), Tudo Vai Mudar (2017) e Como um Raio Silencioso Que Antecede o Trovão (2022) antes de Bronco. O primeiro disco, inclusive, passou por uma masterização inteiramente analógica - processo que, segundo o músico, reflete bem a disposição da banda para caminhos pouco convencionais.