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Publicada em 26 de Agosto de 2026 às 18:09

Jornalista e escritora Jurema Finamour ressurge na peça 'A Mulher Que Virou Bode'

História de jornalista silenciada retorna aos palcos do Teatro Simões Lopes Neto neste fim de semana (29 e 30) com a peça 'A Mulher que Virou Bode: A História Perdida de Jurema Finamour'

História de jornalista silenciada retorna aos palcos do Teatro Simões Lopes Neto neste fim de semana (29 e 30) com a peça 'A Mulher que Virou Bode: A História Perdida de Jurema Finamour'

GILBERTO PERIN/DIVULGAÇÃO/JC
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Andressa Pufal
Andressa Pufal Repórter de Cultura
Imagine uma pessoa que, ao longo de sua vida, escreveu cerca de 18 livros; fundou e dirigiu uma revista; foi funcionária no gabinete de Getúlio Vargas; trabalhou com Pablo Neruda; atuou no pioneirismo da reportagem internacional, tendo entrevistado grandes líderes e intelectuais globais; e manteve relações de amizade com grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Zélia Gattai e Di Cavalcanti. Um belo e invejável currículo. Digno de ter sido eternizado em prateleiras douradas, de ter sido debatido em academias, de ter sido, pelo menos, lembrado ao longo da história. No entanto, quem realizou todos esses feitos foi uma mulher: Jurema Finamour. E, também por isso, caiu em ostracismo durante, pelo menos, seis décadas.

Hoje, estamos finalmente acordando desta terrível amnésia. De uns anos pra cá, jornalistas, pesquisadores e artistas têm resgatado essa história, que, agora, volta aos palcos de Porto Alegre. A peça A Mulher que Virou Bode: A História Perdida de Jurema Finamour sobe ao palco do Teatro Simões Lopes Neto neste sábado (29), às 20h, e no domingo (30), às 18h. Os ingressos estão à venda por valores a partir de R$ 30,00 no site do Multipalco.

Uma das pioneiras deste resgate histórico é a jornalista e pesquisadora Christa Berger. Em 2022, ela lançou o livro Jurema Finamour, jornalista silenciada, resultado de uma pesquisa de quatro anos e que, na verdade, começou muito antes. “Meu primeiro contato com a obra de Jurema foi em 1966”, relembra Christa.

“Li o livro Vais bem, Fidel (1962), que peguei emprestado de uma amiga. Eu não tenho a lembrança clara do que eu senti ao ler o livro, mas ele deve ter me provocado bastante, uma vez que era de uma jornalista, uma mulher, que tinha viajado a Cuba e escrito um livro. Eu tinha 16 anos, isso deve ter ficado lá num lugar da minha memória”, conta. Por este impacto ou não, fato é que Christa se tornou jornalista e, durante a faculdade, se perguntava por que não se ensinava sobre aquela grande jornalista que havia lido na adolescência.

Anos depois, resolveu pesquisar mais sobre esta figura tão singular e que estava oculta na historiografia das áreas em que se destacou. Assim, nasceu o livro e, motivado por ele, a peça. Livremente inspirado na pesquisa de Christa e em outros três livros de Jurema (incluindo sua autobiografia A Mulher que Virou Bode, que conta como ela foi transformada em bode expiatório pela Ditadura brasileira), Luiza Waichel e Marcelo Bulgarelli construíram a peça.

Baseada em uma narrativa não-linear, que mistura música ao vivo, documentário e teatro, a história da caleidoscópica Jurema Finamour ganha vida novamente. “O que mais nos motivou foi não falar do silenciamento”, explica Marcelo, que dirige a montagem. “Quanto mais a conhecíamos, mais nos motivávamos a celebrar a sua vida. O apagamento é algo que fizeram com ela. Não é ela!

Pra narrar essa epopeia, as atrizes Deliane Souza, Eulália Figueiredo, Iandra Cattani, Luiza Waichel e Sofhia Lovison se revezam para dar vida às diferentes Juremas em distintos momentos de sua vida, construindo uma polifonia de vozes e presenças que representam as suas múltiplas dimensões pessoais e profissionais. Fugindo de uma narrativa tradicional, que falharia em abarcar todas as camadas da escritora, todos os dispositivos da encenação contam a história.

Máscaras humanas e não-humanas exploram o mascaramento como jogo performático; no cenário, predomina o ‘Azul Portinari’, em alusão às pinturas do modernista, com quem Jurema manteve forte ligação; e a trilha sonora original é assinada por Antônio Villeroy, que compôs canções interpretadas ao vivo pelo elenco, com arranjos vocais de Simone Rasslan. “Não buscamos reconstruir a Jurema. Ela escapa de uma linguagem”, reflete Luíza. “Mas, sim, apresentamos a atmosfera de Jurema.”

A liberdade vem justamente da dificuldade de enquadrá-la em uma posição específica. Era uma mulher com atitudes feministas, mas não se dizia feminista. Andava com figuras da esquerda e era odiada pela direita. Depois, virou odiada pela esquerda também”, explica Luiza, que construiu o roteiro e também dá vida a uma das Juremas. “Uma única representação não dá conta! Mas são, também, as impossibilidades que tornam tudo isso especial.”

Nascida em São Paulo, em 1919, foi no Rio de Janeiro que Jurema Finamour se firmou como grande intelectual, nas décadas de 1960 e 1970. Escreveu livros, viajou pelo mundo, entrevistou figuras como Jean-Paul Sartre, Roberto Rossellini, Simone de Beauvoir e Kim Il-Sung. Fundou e editou a revista Mulher Magazine, em 1947, voltada para o público feminino. Foi presa na ditadura, quando fugia para o Uruguai, se tornando a primeira presa política do Rio Grande do Sul. Foi retratada por Di Cavalcanti, prefaciada por Leonel Brizola e secretária de Pablo Neruda. E tantas coisas mais.

Desde a sua estreia, em 2025, A Mulher que Virou Bode: A História Perdida de Jurema Finamour vem lotando plateias e tendo ampla repercussão de público e crítica. A peça foi vencedora de quatro categorias do Prêmio Açorianos de Teatro 2025, levando os títulos de melhor direção, elenco, trilha sonora original e atriz coadjuvante. Uma das fontes de inspiração para a montagem, Christa diz que já a assistiu diversas vezes e elogia a criatividade, a qualidade cênica e a destreza da adaptação.

“Eles fazem uma adaptação muito rica, muito inteligente. Conta a história de uma forma muito bonita, com atrizes maravilhosas. E ao mesmo tempo também se faz a crítica do tempo histórico que ela viveu”, elogia a jornalista.

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