De Gramado
Não que as sessões no Palácio dos Festivais estivessem sendo exatamente um desfile de levezas e risadas fáceis, mas não é absurdo dizer que Justino - Nos Bastidores do Reino, longa de José Eduardo Belmonte que fez sua estreia brasileira na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, é o trago mais amargo da semana de longas em competição. Muito embora, como os drinques preparados com especial perícia, consiga deixar um retrogosto quase agradável ao final da exibição, como doçura que se revela quase ao final da dose - algo adequado para um filme que, ainda que mordaz e cáustico em sua crítica, pretende deixar como mensagem final a possibilidade de redenção.
Baseado na realidade das igrejas pentecostais brasileiras, o longa acompanha a jornada do personagem-título, interpretado de forma plena e visceral por Christian Malheiros. Homem negro e pobre da periferia do Rio, ele encontra na fé uma vertiginosa ascensão social, tornando-se um carismático pastor na igreja conduzida por Pastor Azevedo (Caio Blat, em ótima atuação). A jornada de sucesso, porém, esconde desejos reprimidos e uma ambição desmedida, que vai deixando Deus cada vez mais escondido atrás de montanhas de dízimo. Em uma jornada atribulada, Justino cruza o Brasil, vai a Portugal e termina nos EUA, terminando esmagado pelos próprios caminhos e cuspido fora, com nojo fingido, pela igreja que ajudou a erguer.
Tecnicamente, Justino conta sua história com eficácia e precisão. A edição mantém quase tudo em ordem cronológica, fazendo do espectador uma espécie de testemunha dos acontecimentos, e faz uso eficiente do tom de recordação amargurada para sintetizar, em momentos-chave, uma história que poderia ficar professoral demais caso contada em outro ritmo. Porém, e pela própria natureza da história sendo contada, o filme vai ficando bastante pesado de assistir a partir da segunda metade, como se aquela espiral descendente rumo às trevas precisasse de algum tipo de luz para fazer sentido.
Quase no quarto final do longa, essa luz finalmente chega, na forma da trans Danusa, interpretada por Onna Silva. Voluntária que ajuda Justino a sair do buraco, ela surge quase como uma intervenção divina, salvando não apenas o ex-pastor, mas o próprio longa de um final amargo e infeliz. Embora fique pouco em tela, o personagem é tão importante, e interpretado de forma tão bela e impactante, que não é exagero dizer que Onna Silva roubou para si, sem pedir licença, o posto de grande surpresa do festival.
Ainda não há data confirmada para a estreia de Justino - Nos Bastidores do Reino nos cinemas brasileiros. Mas é de se imaginar que o longa de Belmonte vá causar considerável furor - afinal, trata de assunto ao mesmo tempo polêmico e profundamente contemporâneo, com uma pegada que talvez permitisse uma reedição como minissérie ou algo assim. Em um Festival de Gramado cuja curadoria deu especial atenção a temas como luto e redescoberta, Justino surge como um acréscimo significativo - talvez não a ponto de empilhar Kikitos, mas ainda assim retrato vívido e significativo da realidade brasileira.
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