"Fica difícil, né?", brinca o compositor gaúcho Zé Caradípia sobre a tarefa de escolher apenas 25 músicas para reunir em seu novo livro. Com mais de 300 canções em 50 anos de carreira, o artista lança, aos 70 anos, o Songbook Zé Caradípia, publicação que reúne partituras, letras, fotos e histórias de bastidores de meio século dedicado à música. A acessibilidade é um dos eixos centrais do projeto e o Songbook traz QR Codes com acesso às gravações, audiolivro com narração integral - feita pela cantora lírica Elisa Furtado, filha do compositor - e a partitura de Asa Morena transcrita em Braille. O show de pré-lançamento - com tradução em Libras e audiodescrição ao vivo - acontece nesta quarta-feira (26), às 20h, no Teatro Simões Lopes Neto, no Multipalco Eva Sopher (Riachuelo, 1089), com o show Mais Um Zé - 50 Anos de Carreira. Os ingressos disponíveis no site oficial do Theatro São Pedro custam a partir de R$ 10,00.
O critério de seleção de canções para o livro não teve relação com sucesso de rádio: “Entraram composições minhas e de amigos que eu gosto muito de tocar”, resume o artista. O recorte cronológico vai da estreia, aos 19 anos, com Azul de Montão, primeira música que considerou boa o bastante para guardar - até composições bem recentes, passando também por Diamante, de 1985, gravada no álbum MPG. Das 25 faixas que ganharam partituras transcritas pelo músico e arranjador Jefferson Marx, 21 ganharam registro em voz e violão para o CD que acompanha o livro. Também creditada ao projeto está a esposa de Zé, Rosane, com quem vive há 40 anos e foi a responsável pela parte escrita do livro, que inclui histórias e depoimentos, além de agrupar os registros fotográficos.
Entre esses relatos está um episódio de 1980, ano em que Zé compôs o hino da União Gaúcha dos Estudantes Secundaristas (UGES) e viajou de Kombi pelo interior gaúcho, ainda sob a ditadura militar, para apresentá-lo em congressos estudantis. Ao final da viagem, em São Borja, ele e dois amigos decidiram seguir de carona até Assunção, no Paraguai. Duas horas depois de chegar à casa de um conhecido, os três foram presos pela polícia paraguaia. Ficaram 26 dias detidos, sem acesso ao cônsul brasileiro: "Emagrecemos uns 5 quilos cada um", relembra o terror passado. Em total contraponto, uma semana depois de ser solto, foi contratado pela gravadora Polygram - a mesma que tinha em seu elenco nomes como Caetano Veloso e Gal Costa.
Consagrada na voz de Zizi Possi, Asa Morena completa 46 anos em setembro e segue como uma espécie de assinatura na carreira de Zé Caradípia. No show desta quarta, ela ganha nova roupagem, puxada ao lado da filha Elisa - que também divide os vocais em Curiquinha. A apresentação reúne ainda Daniel Castilhos (acordeon), Fernando Sessé (percussão), Jefferson Marx (contrabaixo), Paulinho Barcellos (guitarra) e Marcelo Carvalho (saxofone), e ainda conta com participações especiais: o poeta e cantor Ricardo Silvestrin, com uma parceria inédita; o grupo Vocal5, do maestro Eduardo, que interpreta Antítese das Sombras em arranjo de blues a capela; e a cantora Maria Lúcia Sampaio, em homenagem ao compositor gaúcho João Palmeiro, com a canção Moça Litorânea.
O projeto, viabilizado pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Fumproarte), foi pensado para ser tanto material de estudo, porta de entrada para novos públicos quanto um importante documento de preservação da memória musical do Rio Grande do Sul, já que prevê circulação por teatros, bibliotecas e universidades. Após o lançamento, Zé já tem shows confirmados na Biblioteca de Gravataí e na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, dentro da Mostra de Artes Cênicas e Música no Teatro Glênio Peres.