De Gramado
A atualidade ou relevância de um tema não são, infelizmente, suficientes para garantir um bom filme. Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, atração da mostra de longas brasileiros do Festival de Cinema de Gramado na noite de domingo (16), traz no seu âmago a discussão cada vez mais presente e necessária sobre a violência contra a mulher, a partir do tristemente histórico assassinato de Ângela Diniz, um marco no enfrentamento ao feminicídio no Brasil. Dizer que o longa estrelado por Débora Falabella e Naruna Costa é um filme ruim seria um exagero quase grosseiro, mas também não dá para fingir que uma película é boa apenas porque fala de um assunto importante - e quem prestou atenção ao público que saía do Palácio dos Festivais ao final da sessão percebeu que a maioria não ficou muito satisfeita (pelo menos, do ponto de vista da Sétima Arte) com o que viu.
A premissa do longa é interessante: ao invés de focar nos meandros do julgamento contra o assassino de Ângela (o que faria do filme uma mistura previsível de resgate histórico e filme de tribunal), a ação se dá nos dias anteriores ao júri, trazendo as histórias paralelas de uma jornalista policial (Débora Falabella, ótima como sempre) e da advogada que atuará na acusação (Naruna Costa, em ótima atuação). A ideia de trazer diferentes olhares sobre os acontecimentos é boa, e liberta o filme de armadilhas como uma detalhada (e potencialmente enfadonha) reconstituição do filme, permitindo um olhar mais estrutural e, ao mesmo tempo, um desenvolvimento mais cuidadoso das personagens principais, atravessadas de diferentes formas pelo crime.
O problema (no caso, grave) do longa é que a esperada amarra entre as duas trajetórias paralelas simplesmente nunca acontece - ao ponto de um espectador mais cínico poder, quem sabe, até questionar qual é a real função da jornalista na trama. Sua relação abusiva com o chefe e amante é desenvolvida de forma apressada, sua presença no ambiente do julgamento nunca se aprofunda e o suposto arco transformador se desenrola de forma confusa, sem que jamais consigamos sentir qual é, de fato, o drama em torno dela. Isso sem contar o didatismo quase desagradável de algumas cenas (como quando a repórter bate boca com o amante e lista, minuciosamente, todos os motivos pelos quais tem medo de sua presença), nas quais a ação se submete ao discurso de uma forma, inclusive, desnecessária.
A advogada, obcecada por construir o melhor caso possível antes do julgamento, é imensamente mais convincente - com direito a ótimas interações com o amigo e colega (Irhandir Santos) e um impactante monólogo na parte final do filme, no qual Naruna Costa dá um show de atuação - quase professoral, sim, mas aí sim plenamente inserido na ação e no fluxo do filme. Parece que ali, nas noites quase em claro discutindo pormenores do caso sórdido, Pele de Rinoceronte encontra algo a dizer - todo o restante sendo uma mistura de pretexto e distração que mais atrapalha do que ajuda.
Não estamos diante de um filme ruim, vale repetir. Mas a verdade é que Pele de Rinoceronte - o hermético título sendo uma referência, sinceramente, meio esquisita a um poema de Augusto dos Anjos - não consegue acrescentar muita coisa, do ponto de vista artístico, ao tema que anima sua realização. É sem dúvida muito melhor que Ângela, o lamentável filme sobre o mesmo caso que participou da mostra competitiva de Gramado em 2023, mas isso sinceramente não é muita coisa - e a sensação final é de um filme que precisa se agarrar na temática político-social que o anima para não sair voando, já que fica devendo bastante em termos de substância.
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