Chaves antigas, pregos soltos, madeiras de demolição, tapetes antigos. Estes são objetos que, por si só, não despertam curiosidade e que, para muitos, não são dignos de muita atenção. Mas saber enxergar o segredo, o mistério e as histórias nos mais simples dos artefatos é, talvez, a maior virtude de Vilma Sonaglio. São estas peças que se transformaram em matéria prima para o seu trabalho e que agora ajudam a contar a história do V744atelier, que está aniversariando neste mês.
Um dos principais espaços de criação, pesquisa e difusão da arte contemporânea independente de Porto Alegre está completando cinco anos de existência e, para celebrar a data, inaugura, neste sábado (22), às 17h, a exposição Cá(s), de autoria da fundadora do espaço, a artista visual Vilma Sonaglio. Reunindo cerca de 55 obras fotográficas divididas em 4 séries, a mostra é dedicada a contar a história do ateliê — abordando sua trajetória desde a fundação, passando pelas mostras realizadas no espaço e revelando pequenos detalhes do local em fotografias intimistas.
O V744 é uma mistura de significados: ao mesmo tempo em que é casa para a artista, também é ateliê de criações e espaço de exposições. Este hibridismo significativo também é o motor de Cá(s), que traz objetos deslocados de sua função original para integrar a narrativa visual autobiográfica da artista e do ateliê-casa. Materiais antigos da casa, como pregos avulsos e chaves misteriosas, convivem com fotografias abstratas digitais e químicas, numa metalinguagem que utiliza pequenos fragmentos do V744 para montar uma cronologia do espaço. A mostra em cartaz até 9 de outubro, com visitação nas quartas, quintas e sextas-feiras, das 14h às 17h.
A exposição dá continuidade ao trabalho de pesquisa de Vilma, que há décadas investiga a fotografia como instrumento de memória, significação e verdade. Logo na entrada da mostra, os visitantes terão de caminhar sobre a fotografia de um antigo tapete da casa para acessar o espaço expositivo. Note: a fotografia de um tapete, não o tapete (que existe e está guardado). Esta escolha de colocar o público para interagir com a representação de algo e não com o objeto em si é um dos fio-condutores da exposição.
“Me fascina muito a ideia de representação, da relação das pessoas com a imagem”, comenta a artista. “A fotografia é isso: tem muita verossimilhança, mas não é verossímil.” Os pregos também existem, mas o que o público verá são as fotografias dos pregos. Um canto da casa é abrigo para uma fotografia dele mesmo. Um grande mural com colagens de mini-fotos mostra como foi a montagem das 18 exposições que já passaram pelo espaço. Um arquivo vivo que traz em tudo aquele lugar: até no nome, Cá — aqui, agora. Só que no plural, para abarcar todos os significados possíveis.
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