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Publicada em 17 de Agosto de 2026 às 10:29

CRÍTICA: 'Feito Pipa' emociona Gramado com história de infância 'queer' no interior do Ceará

Teca Pereira e Yuri Gomes conduzem 'Feito Pipa', ovacionado pelo público na estreia em Gramado

Teca Pereira e Yuri Gomes conduzem 'Feito Pipa', ovacionado pelo público na estreia em Gramado

EDISON VARA/PRESSPHOTO/DIVULGAÇÃO/JC
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Igor Natusch
Igor Natusch Editor de Cultura
De Gramado

Não eram poucos os rostos que enxugavam as lágrimas ao final da sessão de Feito Pipa, que abriu a mostra competitiva de longas brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, na noite de sábado (15). Uma reação, diga-se, bastante justificada: dirigido com sensibilidade por Allan Deberton, o longa conquistou o público no Palácio dos Festivais com uma bonita história de amor familiar centrada na união de uma criança queer, Gugu (Yuri Gomes, em interpretação memorável), e sua avó Dilma (Teca Pereira) no interior do Ceará. Vivendo sozinhos, depois da morte trágica da mãe de Gugu, a dupla depende de si mesma para seguir em frente – uma relação amorosa entre duas figuras que encontram pouca compreensão do lado de fora do lar onde podem ser elas mesmas plenamente.

Um dos maiores desafios em um roteiro do tipo está na construção dos personagens – afinal, o risco de escorregar para a caricatura e/ou para a condescendência panfletária é bastante real. Felizmente, Deberton conseguiu conduzir bem essa questão, com personagens críveis não apenas em si mesmos, mas nas relações que estabelecem com o mundo ao redor. Gugu gosta de maquiagem e adereços associados ao feminino, mas sonha em ser jogador de futebol; Dilma, de início amorosa e cuidadosa com o neto que cria sozinha, vai se tornando mais distante e ríspida na medida em que uma doença vai consumindo sua memória e senso de realidade.

Nesse sentido, talvez ainda mais vitorioso seja o retrato de Batista, pai de Gugu e viúvo da filha de Dilma, interpretado por Lázaro Ramos. Embora hostil à sexualidade latente do filho, não estamos diante de um pai vilão unidimensional: trata-se de uma figura com preconceitos arraigados e desajeitada no seu afeto, mas que claramente ama o filho e tenta, na sua imperfeição, aproximar-se emocionalmente da criança. É um equilíbrio difícil, mas que funciona bem na maior parte do tempo, gerando uma figura complexa e com a qual muita gente poderá se identificar. Pena que (sem spoilers) a última aparição de Batista seja tão dura e incômoda, como se o filme de certa forma lançasse uma condenação final sobre o personagem – algo que a atuação de Ramos e a própria atmosfera do filme não mereciam.

Seja como for, a narrativa de Feito Pipa flui de forma admirável de uma ponta a outra, em um ritmo sem pressa, mas sem demoras e com ótimo equilíbrio entre a dramaticidade e eventuais momentos de alívio cômico (como a divertida briga entre Gugu e alguns colegas de escola). A condução do elenco infantil (que, com certeza, deve ser arredio a coisas como ler um roteiro) exigiu boa dose de improviso, ao qual os atores adultos também tiveram que se adaptar – some-se isso à quantidade de tomadas necessárias até achar a atuação correta e dá para imaginar a trabalheira que deve sido encontrar o filme certo na mesa de montagem. Felizmente, o esforço foi vitorioso, e Feito Pipa, que estreia nos cinemas do Brasil em setembro, dá toda a pinta de que será um dos sucessos desta temporada no cinema brasileiro. E com toda justiça.

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