“Tudo que foi apresentado esta noite foi feito por seres humanos, e isso é inegociável.” A frase, dita pelo rapper Emicida logo antes do bis, em show neste sábado (4) no Araújo Vianna, carrega uma indireta difícil de ignorar num momento em que a discussão sobre inteligência artificial e o futuro do trabalho criativo domina debates no mundo inteiro. E vem justamente de alguém que, além de assinar a direção musical da noite, já escreveu livros, é MC, rapper, compositor, produtor musical, executivo e cultural.
A Emicida Racional MCMV Tour parte de uma premissa simples: fazer rep com E, de Ritmo E Poesia, como no significado da sigla original em inglês. O espetáculo é dividido em seis atos, alguns introduzidos por monólogos em vídeo de personagens que trazem para o centro do palco dramas cotidianos de pessoas periféricas, como um entregador de aplicativo preso na lógica dos algoritmos e uma mãe solo tentando equilibrar trabalho e filhos; figuras cuja existência o Brasil oficial costuma ignorar. Os vídeos funcionam como câmaras de descompressão entre os blocos musicais, mas a experiência visual vai além com telões que acompanham o show inteiro com um design gráfico que brinca com palavras e animações, criando camadas de sentido que reforçam o que está sendo cantado e puxam o público para dentro do palco. Ao lado de Emicida e do DJ Nyack, a banda é formada pela baixista e guitarrista Érica Silva, pelo baterista Maurilio Santiago e pelo tecladista Oscar Junior — um time que sustenta com fôlego as três horas de setlist.
O repertório percorre diferentes gêneros e influências do artista, como jazz, samba, funk, soul e rap em músicas como São Pixinguinha, Amarelo e Ismália. Nesta salada de referências que os Racionais deixam de ser homenagem para virar método: “começo, meio e começo”, disse Emicida em seu monólogo, e a frase resumiu com precisão a lógica circular da noite que trouxe samples dos Racionais misturados com as letras do Emicida, como em Papel, Caneta e Coração (Vida Loka, pt. 1) e A coisa mais esperançosa e mais dilacerante (Homem na Estrada).
A plateia demorou um pouco para esquentar na noite fria que fez em Porto Alegre na sexta-feira: as primeiras músicas encontraram um público mais contida que se acendeu aos poucos, até responder com o volume que o show pedia.. Em A Ordem Natural das Coisas, Emicida desceu do palco para cumprimentar os fãs emocionados na grade. Antes do bis, dividiu a plateia entre palmas e coro com uma exigência quase pedagógica, e quando a execução saiu perfeita, comentou com bom humor: “Num show na Dinamarca, não tinham ritmo pra tocar as palmas”, atribuindo o a regência musical brasileira às raizes africanas.
No monólogo final, Emicida tomou o microfone sem música, falando diretamente ao público sobre negritude e resistência. Quando disse “a onda é preta, salve se quem puder” e tocou na questão da indenização histórica, alguém na plateia gritou “professor”, título muito propício à Leandro. No intervalo entre o peso político e o afeto popular, houve espaço ainda para uma homenagem a Hikaru Kurosaki, o ator japonês que interpretou Jaspion e morreu dois dias antes do show, aos 64 anos, com a música tema da série cantada com a energia de quem nunca deixou de ser fã.
O DJ Nyack, que abriu a noite e conduziu as picapes, carrega uma história com a capital gaúcha: a primeira vinda à cidade, ao lado de Emicida, foi também sua primeira vez num avião. O rapper lembrou da ocasião dizendo que o sonho dos dois era um dia encher o Opinião. O encerramento veio com as rappers porto-alegrenses Cristal e Neguinha e o rapper Wag, da Batalha da Escadaria, que junto com Emicida entregaram um improviso. Fechamento lógico para quem sabe que foi nas batalhas de freestyle de São Paulo, no começo dos anos 2000, que Leandro Roque de Oliveira virou Emicida.
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