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Publicada em 25 de Junho de 2026 às 00:25

Lançado há 40 anos, álbum 'Cabeça Dinossauro' levou Titãs ao estrelato

Grupo formado por Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto, Titãs fará show no Araújo Vianna em 17 de julho

Grupo formado por Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto, Titãs fará show no Araújo Vianna em 17 de julho

/PEDRO DIMITROW/DIVULGAÇÃO/JC
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Igor Natusch
Igor Natusch Editor de Cultura
A expressão é recente, surgida nas caixas de comentários das redes sociais, e não tem relação direta com o momento histórico em que os Titãs gravaram seu terceiro e maior álbum. Ainda assim, é uma descrição que funciona à perfeição: de fato, Cabeça Dinossauro foi concebido na força do ódio. Fruto de uma série de turbulências - na banda, no rock nacional, na própria história política e social do País -, o disco lançado pela WEA há 40 anos (em 25 de junho de 1986) é mais do que um simples clássico da música brasileira: trata-se de verdadeiro divisor de águas, uma espécie de totem facilmente localizável entre o que veio antes e o que aconteceu depois.

Tudo que envolvia os Titãs estava instável em 1986 - incluindo a própria banda. Um octeto com cinco vozes solo distintas e inúmeras criatividades em conflito, a banda tinha dificuldades de afirmar o próprio som, e se ressentia da recepção fria ao álbum anterior, Televisão (1985) - um disco polido, de sonoridade comportada, mas que acabou sendo meio que abandonado pela gravadora no meio do caminho. Uma decisão potencializada por um problemão daqueles em torno do grupo: a prisão, em novembro de 1985, do vocalista Arnaldo Antunes e do guitarrista Tony Bellotto, detidos pela polícia por porte de heroína. Bellotto foi liberado no dia seguinte, mas Arnaldo foi formalmente acusado de tráfico de drogas, e ficou quase um mês na cadeia. A situação fez com que os Titãs perdessem shows e por pouco não custou o próprio contrato com a WEA - além de, é claro, aumentar a fervura no caldeirão do conjunto, que se sentiu injustiçado no episódio.

O Brasil vivia, então, uma transição difícil e barulhenta da ditadura para a redemocratização - um processo cheio de sobressaltos, incluindo a morte do presidente eleito Trancredo Neves, um aumento galopante da inflação e uma militarização ainda persistente na vida pública, incluindo reiterados episódios de violência policial. Um clima incerto e sombrio que não se via refletido no cenário musical da época, dominado por uma sonoridade solar e cheia de elementos eletrônicos típicos do synthpop e da new wave. Artistas como Blitz, RPM, Metrô e Kid Abelha enchiam de cores as paradas brasileiras de então - uma euforia e alto-astral que pareciam combinar cada vez menos com o cenário pesado e cheio de dúvidas do dia a dia brasileiro.

Não surpreende que, dadas as circunstâncias, os Titãs - Tony Bellotto e Marcelo Fromer nas guitarras, Charles Gavin na bateria e as múltiplas vozes de Nando Reis (também baixista), Sérgio Britto (também teclados), Arnaldo Antunes, Branco Mello e Paulo Miklos - estivessem dispostos a carregar nas tintas no novo disco. Mas não para pintar o mesmo quadro colorido da concorrência: o que eles queriam era algo muito mais pesado, primitivo e visceral. Curiosamente, foi o produtor Liminha - por trás de boa parte dos discos festivos do rock de então, e que havia recebido críticas dos próprios Titãs por ter deixado Televisão "polido demais" - quem deu formato sonoro à rebeldia dos oito rapazes, deixando de lado o uso lúdico da eletrônica em nome de um som direto e primal, por vezes parecendo ter saído diretamente da garagem. Algo traduzido desde a capa, reproduzindo um dos muitos esboços do multiartista italiano Leonardo da Vinci, chamado A expressão de um homem urrando. O rock brasileiro, de fato, estava prestes a gritar.

A faixa AA UU, primeiro single do LP, demorou um pouco para estourar - mas, assim que ganhou tração nas rádios, arrastou Cabeça Dinossauro sem pedir licença para o imaginário rock brasileiro. Embora algumas faixas (como Família e Igreja) ainda lembrem o som mais cuidadoso dos discos anteriores, os Titãs surgem com sangue nos olhos, com um som agressivo que muitas vezes dialoga aos gritos com o punk rock. Polícia, diretamente inspirada na prisão do ano anterior, é um dos hits mais brutais da música brasileira, e temas como Estado Violência e Bichos Escrotos explodem em raiva e indignação dos auto-falantes. Ainda assim, o poderio pop dos compositores não está perdido, talvez encontrando em Homem Primata seu mais perfeito equilíbrio: a pegada roqueira está lá, mas surge emoldurada por melodias envolventes e um refrão tão grudento que, depois de ouvi-lo uma vez só, qualquer um já sabe cantar. Tudo isso sem abandonar o espírito experimental tão importante para os Titãs, e que surge com mais força nos dois vértices do LP: a faixa-título, que abre os trabalhos com vocais dignos das cavernas e uma percussão absolutamente selvagem, e O Que, uma das geniais poesias concretas de Arnaldo Antunes que fecha o álbum com uma sonoridade ao mesmo tempo dançante e quase paranoica.

Depois desse dinossauro de oito cabeças, tudo mudou. O rock brasileiro começou a falar mais sério, em um processo que consolidou propostas mais cruas e/ou experimentais de grupos como Paralamas do Sucesso, Ira!, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e Capital Inicial, entre muitas outras. Na verdade, é até difícil imaginar o que teria sido da cultura pop brasileira nesses 40 anos se o álbum em questão não tivesse existido. Os próprios Titãs, é claro, mudaram e se dispersaram pelo caminho - de tal forma que apenas Sérgio Britto, Tony Bellotto e Branco Mello seguem carregando o nome adiante, e encabeçam uma turnê comemorativa às quatro décadas de Cabeça Dinossauro que passará inclusive por Porto Alegre, no dia 17 de julho, no Auditório Araújo Vianna. Mas o impacto das 13 músicas do LP segue inalterado, e qualquer um que queira entender os caminhos desse tal de 'rock brasileiro' precisa, de tempos em tempos, beber um goles dessa poção mágica de indignação.

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