Que uma artista tão produtiva e de carreira tão extensa quanto Ella Fitzgerald vá ter algumas pérolas perdidas por aí, apenas esperando que alguém as encontre, não será exatamente uma surpresa para ninguém. Ainda assim, que ainda estejam sendo desenterradas relíquias ligadas à cantora, exatos trinta anos após sua morte (em 15 de junho de 1996), não deixa de ser um testemunho de sua importância como uma das vozes seminais da música popular do século passado – e, é claro, não deixa de causar grande empolgação em uma verdadeira legião de fãs e colecionadores.
Estamos falando, no caso, de Live at the Falkoner Theater, gravação ao vivo registrada na Dinamarca em 6 de fevereiro de 1966 e que está com lançamento mundial previsto para julho deste ano (ainda não há notícias de que vá receber uma versão nacional, infelizmente). O show, ocorrido apenas um dia antes da apresentação que viraria o hoje clássico The Stockholm Concert (1966), foi transmitido por uma rádio dinamarquesa, em mono, e passou décadas em uma cópia sem nome em um arquivo particular – seu conteúdo ignorado de tal forma que, mais de uma vez, faltou pouco para que a fita magnética fosse apagada e utilizada em alguma outra gravação qualquer. Felizmente, os deuses e deusas do jazz tomaram conta da raridade esquecida, e o item foi rapidamente levado para tratamento analógico em Londres, na Inglaterra, tão logo alguém finalmente se deu conta da raridade que tinha em mãos.
A gravação captura um momento significativo na vida de Ella Fitzgerald. No palco, ela contava com o apoio da Duke Ellington Orchestra, mesmo que o próprio Ellington esteja ausente dessa gravação específica – quem pilota o piano é Jimmy Jones. Como a versão já disponível online de How High the Moon testemunha de forma cristalina, a competente banda de apoio parece deixar Ella ainda mais à vontade, cantando com uma desenvoltura comparável aos anos 1940, quando ainda era uma jovem e ambiciosa voz solo excursionando com big bands pelos EUA. E a própria presença na Dinamarca a fazia feliz: ela possuía um apartamento em Copenhague, teve relacionamentos amorosos por lá, cogitou morar no país em mais de uma ocasião e parecia apreciar imensamente o respeito que recebia quando lá estava – muito distante dos frequentes percalços que o racismo insistia em causá-la em seu país natal.
De fato, não foram poucas as vezes em que o ódio racial tentou limitar os caminhos de uma voz que, desde o começo, estava destinada ao Universo. É famosa a primeira residência da cantora no badalado clube Mocambo, em Hollywood, que só ocorreu porque a atriz Marilyn Monroe (amiga e fã incondicional) insistiu ao máximo para que o dono do local aceitasse a cantora negra, ao ponto de prometer (e cumprir) que estaria na primeira fila todas as noites, atraindo publicidade e público para as apresentações. O sucesso foi tão grande que a carreira de Ella deu um salto decisivo, assinando com a recém-criada gravadora Verve e embarcando na fase mais significativa e bem-sucedida de sua discografia – em especial pela hoje lendária série de songbooks com compositores seminais da música norte-americana.
Menos lembrado, mas igualmente emblemático, foi o incidente em um aeroporto em Honolulu, no Havaí, quando Ella Fitzgerald e seu conjunto rumavam para a primeira turnê na Austrália. Já dentro do avião, quatro membros da equipe – incluindo a cantora, e curiosamente todos negros – foram retirados da aeronave e impedidos de retirar a bagagem já embarcada, mesmo que todos tivessem tíquetes de primeira classe para o voo. Tiveram que ficar três dias em torno do aeroporto, só com a roupa do corpo, até conseguirem um novo voo para a Austrália – a essa altura, os dois shows inaugurais da turnê, em Sydney, já estavam perdidos. Ainda que a situação tenha resultado em uma indenização descrita como “generosa” pela cantora em entrevistas, a dor da discriminação seguiu forte, fazendo com que a vocalista evitasse o tema sempre que possível.
Felizmente, Ella Fitzgerald triunfou diante dessas adversidades - e de outras tantas, incluindo uma infância marcada pela morte precoce da mãe e por suspeitas (sempre presentes, mas nunca esclarecidas) de abuso por parte do padrasto. Começou a cantar no circuito profissional aos 17 anos – um início precoce não apenas pelo enorme talento, mas pela necessidade de se sustentar quase sem nenhum amparo em uma Nova York tão dinâmica quanto hostil. Seus primeiros anos incluem trabalhos em bordéis (ainda que, segundo seus biógrafos, apenas na manutenção e vigilância) e conexões obscuras com a máfia local – um assunto que, de forma até certo ponto compreensível, a cantora nunca quis aprofundar em entrevistas.
Na verdade, como alguns estudiosos da música já apontaram, a vitória de Ella Fitzgerald em sua carreira vai além da adoração pública e da abundância financeira. Com sua discografia – que navegou com segurança pelo swing, bebop, soul, blues, pop e até bossa nova, incluindo um disco inteiro dedicado a canções do brasileiro Tom Jobim – a cantora foi decisiva para derrubar as absurdas barreiras entre a “música de negros” e as manifestações culturais tidas, pelo senso comum de então, como autenticamente americanas. Foi na voz celestial de uma mulher negra que várias canções associadas ao Grande Cancioneiro Americano ganharam suas versões definitivas – derrubando as barreiras raciais em torno desse legado de tal maneira que, hoje em dia, relembrar que tais distinções existiram é insólito e beira até o ridículo. Por incrível que pareça, existiu um mundo no qual Ella Fitzgerald não era sinônimo do que de melhor a música vinda dos EUA pôde e poderá oferecer – e o lançamento futuro de Live at Falkonic Club é também uma oportunidade de relembrar os tempos em que, longe de casa, a rainha do jazz sentia-se especialmente livre para brilhar.