O primeiro EP de Kizua Trindade nos apresenta uma sonoridade forte, potente, rasgante e profunda - e não teria como ser diferente, visto que foi construído por um jovem angolano que imigrou para o Brasil e se viu modificado pela nossa dura realidade: o racismo. Nascido em Lubango, um município do sudoeste angolano, Kizua se mudou para a capital Luanda aos 7 anos, e há 13 veio morar em terras tupiniquins.
Chegando por aqui, o artista se deparou com um racismo muito diferente do vivido no país africano. Em Angola, os efeitos da colonização portuguesa deixam marcas profundas na população, tanto na economia, quanto na vida particular. Se o Brasil, que “libertou” dos colonizadores no século XIX, ainda sente no dia a dia os seus efeitos, Angola vive com as mazelas do imperialismo bufando na nuca: só em 1975 o país conseguiu se livrar da dominação portuguesa, através da Luta Armada de Libertação Nacional, que estabeleceu a independência do país.
Entretanto, o racismo foi mais sentido pelo angolano em terras brasileiras. “Em Angola, como a maioria da população é preta, nós não precisamos pensar sobre racismo diariamente. Se alguém te trata mal, a gente acha que a pessoa é só mal educada. Aqui, há esse recorte de raça”, avalia. O racismo angolano se manifesta em outra esfera: a autoestima de toda uma nação que por séculos se achou inferior aos países europeus. No Brasil, isso também ocorre, mas o preconceito também se manifesta na esfera individual: “aqui essa questão nos atravessa pessoalmente.”
Por isso, Kizua tem usado o rap como instrumento de denúncia e elaboração do que tem vivido no país latino. Se o rap angolano é tido mais como uma “egotrip”, como define o cantor, o brasileiro, marcado pelas questões sociais, é uma ferramenta de mudança social. E foi nessa mescla que nasceu a sonoridade kizuana: um disco que, ao longo de seis faixas, é marcado por relatos da vida de um jovem que busca vencer, apesar das dificuldades sociais.
O EP Lá No Bairro começa com Egos e Vozes, uma faixa que contém uma estética bem tradicional do hip hop, com batidas e flows típicos do gênero. Em colaboração com o rapper angolano Kanhanga, Kizua desabafa que é um “jovem negro africano entre a caneta e o cano”. O disco segue com Mamã Disse, uma ode à figura materna dos jovens negros, que, muitas vezes, seguram as pontas e são essenciais para o fortalecimento da autoestima da população preta.
Na faixa homônima, Kizua canta ao lado do artista nigeriano Ìdòwú Akínrúlí, acompanhado do violino de Cibele Bartz. “Foi uma canção que nasceu da minha última ida a Angola”, comenta. “Uma reflexão sobre as questões do meu bairro, sobre questões sociais, sobre o futuro que eu desejo.” Ao observar o que mudou e o que continuou igual no local onde cresceu, o artista dispara: “rostos tristes, castelos de lata e contos sem final feliz.”
O disco segue com canções que misturam as batidas tradicionais do rap e do trap, misturando flows melódicos de percussão, guitarras e cordas. Encerrando o trabalho, chega Olhos Café, que como define o compositor, é uma “celebração das nossas vivências e ancestralidades”. “É uma resposta aos conflitos raciais que eu acabei encontrando na migração”, completa.
O artista encerra o EP em uma canção cheia de groove e flow, que tem como pano de fundo magníficos sopros e acordes de guitarra, enquanto ele deixa sua mensagem final: “Mãe África, hoje, não chora mais. Teus filhos estão de pé resgatando teu tesouro.”