Dizer que estamos nos anos 1980 de novo pode soar um pouco forçado, dado o abismo de diferenças que nos separam daquela época de cabeleiras volumosas, roupas coloridíssimas e estética retrofuturista. Mas ver
Michael Jackson no topo das paradas musicais novamente gera uma nostalgia que, ao que parece, sensibiliza uma enorme quantidade de pessoas. Quase duas décadas após a morte do astro, o mundo foi tomado novamente pela
MichaelMania - uma obsessão repentina pelo
Rei do Pop que tomou conta das redes sociais e dos serviços de
streaming.
Spotify, iTunes, Deezer, YouTube Music: qual seja a plataforma que o leitor prefira para ouvir suas músicas favoritas, Michael Jackson estará lá,
ocupando os primeiros lugares nas listas de mais ouvidos. O artista lidera a
lista do Top 50 Global do Spotify com o hit Billie Jean, lançado há 44 anos. No
quarto lugar do ranking, vem Bad, bombando novamente 39 anos após seu lançamento.
Don’t Stop ‘Til You Get Enough, Human Nature e
Smooth Criminal também marcam presença na lista de mais ouvidas no mundo da plataforma.
Os números vão além: uma pesquisa da Billboard diz que as
músicas de Michael tiveram um aumento de 103% nas reproduções em todas as plataformas dos Estados Unidos, passando de 61,5 milhões na semana de 17 a 24 de abril para 190,3 milhões no período entre 1 a 7 de maio. No iTunes, o disco
Thriller voltou ao topo e permaneceu quatro dias consecutivos no número um mundial. Na Deezer, as reproduções das faixas do Rei do Pop
cresceram 153% em relação à semana anterior ao lançamento da
cinebiografia Michael — apontada como principal responsável pela retomada da febre mundial pelo Rei do Pop.
É apenas uma amostra do impacto mundial de Michael Jackson: um artista que consegue emplacar
hits no topo de rankings de plataformas que sequer existiam quando as canções foram lançadas.
“
O filme teve um efeito maravilhoso e nós estamos extremamente felizes com isso”, celebra
Bruna Alencar, administradora do MJ Infos, um dos principais fã-clubes dedicados ao artista no Brasil. “
Ele tinha muito medo de ser esquecido, de não ser lembrado — e hoje a gente vê que esse medo nunca vai se concretizar.”
Outra fã de carteirinha, Renata Rosa (que inclusive fez seu trabalho de conclusão de curso na faculdade sobre o cantor) também celebra o efeito positivo que o filme tem gerado para a imagem de Michael, apesar de achar que faltou muito da sua história no longa. “O filme está historicamente errado, deixa de fora muita coisa”, analisa. “Mas, como fã, eu fico muito feliz com esse efeito positivo.
Ver crianças indo ao cinema e descobrindo a magia do Michael, ele alcançando novas gerações, é muito bonito!”
“É emocionante ver crianças nas salas de cinema, com aquela inocência, e se encantando com ele”, vibra Bruna. “Há
muitos fãs do Michael Jackson que sequer nasceram ainda. O legado dele está mais vivo do que nunca.”
Rodrigo Teaser, um dos mais reconhecidos covers de Michael, está sentindo na pele os efeitos da MichaelMania. Conhecido por fazer tributos ao Rei do Pop há 14 anos, Teaser diz que não imaginava o tamanho do impacto que o filme teria na sua própria carreira: com um público consolidado há décadas, o artista percebeu um
aumento na vendagem de ingressos: “antes nós já lotávamos as principais casas de show do país, mas, hoje, esse
sold-out está acontecendo muito mais rápido. Temos que abrir datas extras, que são
esgotadas em apenas dois dias.”
O
show marcado em Porto Alegre para 19 de junho também está sendo afetado pela febre causada pelo filme. A assessoria da Opinião Produtora, que está promovendo o espetáculo no Araújo Vianna, confirmou ao
Jornal do Comércio um
aumento surpreendente nas compras de ingressos e prevê
sold-out até o dia da apresentação. A
média de vendas por dia mais que triplicou de uma semana para outra, passando de 23 vendas diárias para 72 na semana passada. O ápice foi o registro de
120 tíquetes vendidos em um único dia — número incomum, segundo a produtora.
“
Eu achava, de verdade, que eu já tinha atingido o meu teto de público. Mas eu tenho recebido muitas mensagens de gente dizendo que não conhecia o meu trabalho e,
depois do filme, pesquisou e nos encontrou”, celebra Teaser. “Isso foi o que eu achei mais bacana do filme: ele foi um
combustível que fez Michael explodir ainda mais. Essa capacidade que ele ainda tem de fascinar as pessoas e cativar novos fãs.”
Esse movimento todo também tem significado uma espécie de
redenção ao astro, que sofreu com o olhar incansável da mídia a partir do fim dos anos 1990. Gerações que cresceram vendo ele brilhar nas TVs de tubo, assistiram também a uma reviravolta que desenhava o astro como um homem estranho, criminoso e amedrontador — em especial pelas acusações de assédio sexual, nunca comprovadas. Agora, o filme vem para exibir um
Michael sob uma lente mais leve, sem o peso negativo da história.
“
A mídia maltratou tanto ele”, lamenta Renata. “Desde os anos 1980, até depois da morte dele era só coisa negativa sobre ele na mídia, e as pessoas acreditam em tudo isso até hoje. Ele ficou com uma péssima reputação. Então eu estou adorando ver essa redenção que ele está tendo agora. Estou muito feliz que ele está super em alta e recebendo o tratamento que sempre mereceu.”