O último final de semana da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre reafirmou a relevância do evento como um dos principais marcos culturais do Estado. Mesmo com previsão de chuva e clima abafado, a Praça da Alfândega registrou intensa circulação de leitores, famílias, turistas e estudantes em busca de promoções e de atividades culturais. Os organizadores tiveram motivos de sobra para festejar bons resultados: o volume comercializado ficou 16,9% acima do registrado em 2024, segundo dados divulgados pela Câmara Rio-Grandense do Livro neste domingo. Ao todo, 245.425 exemplares foram comercializados este ano, mesmo com três dias a menos de programação.
O movimento constante no entorno, com bares cheios e grande presença de visitantes carregando sacolas da Feira, reforça o papel do evento como indutor do comércio local e de um fluxo crescente associado ao turismo literário no Centro Histórico.
A vitalidade econômica se refletiu especialmente nos bares e cafeterias da região. A Dóffee Donuts, instalada há quatro meses no Centro e administrada por Rubino Tonello, registrou elevação substancial no número de clientes, com destaque para famílias e turistas. “A Feira trouxe muitos moradores que não visitavam o Centro havia tempos”, afirma. Ele relata que, apesar da queda inicial durante a montagem dos estandes, o fluxo posteriormente superou expectativas: “Depois ajudou muito — nossa loja teve excelente movimento.” A Maranghello, também recém-inaugurada na Praça da Alfândega, descreveu o desempenho como “maravilhoso”. No interior do evento, os quiosques mantiveram filas constantes durante todo o final de semana, reforçando o impacto direto da programação sobre o comércio do entorno.
Para Maximiliano Ledur, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, o tema da 71ª Feira — “Beba desta fonte” — sintetiza o papel do evento como espaço de conhecimento e incentivo à leitura. “É um convite para mergulhar no livro como fonte de vida intelectual e social”, explica. Ele destaca que o modelo de estandes padronizados garante igualdade entre grandes e pequenas editoras e permite que obras menos distribuídas tenham visibilidade. A diversidade da programação, com mesas de homenageados e encontros de patronas, também amplia o alcance da Feira e atrai públicos variados.
O presidente ressalta ainda a importância do evento para o setor livreiro e a cultura local, especialmente após 2024, ano marcado pelas enchentes, que dificultaram a captação de recursos. “A Feira precisa se atualizar constantemente frente às novas plataformas, hábitos de leitura e transformação digital, mantendo-se como espaço de formação de leitores e incentivo à literatura”, conclui.
Interesse por clássicos e por lançamentos locais impulsionaram vendas na Praça da Alfândega
TÂNIA MEINERZ/JC
Para Martha Medeiros, patrona da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, a edição de 2025 foi “quente em todos os sentidos”. “Estou adorando tudo. A vontade que eu tenho é de ser patrona todos os anos. O pessoal é muito carinhoso”, afirma. Segundo ela, estar cercada de livros transforma os dias da Feira em uma celebração: “Minha cabeça está totalmente livro, livro, livro. Deveria durar mais, mas é bom que sejam só duas semanas: as pessoas se programam.” Martha destaca a presença do público do interior, que aproveita os feriados para visitar o evento, e avalia o momento cultural do estado como positivo, com um “boom a favor da literatura”, em que livrarias de rua resistem e as redes sociais ajudam a divulgar cultura, atraindo o interesse de jovens para a literatura.
A escritora também enxerga tendências importantes no mercado editorial, como o aumento da presença feminina e o incentivo a novos autores, e reforça que a democratização do acesso ao livro depende diretamente de investimentos em educação. Além disso, Martha manifesta preocupação com a cena cultural local, destacando o risco de fechamento do Multipalco do Theatro São Pedro e fazendo um apelo para que o governo do Estado tome providências. Sobre sua experiência como patrona, resume: “Amei ser patrona. Adorei. Só estou com pena que está acabando.”
As bancas registraram grande fluxo ao longo da Feira, destacando tanto editoras consolidadas quanto livrarias tradicionais do Rio Grande do Sul. Pela regra da Câmara do Livro, só podem participar editoras, livrarias e sebos associados há pelo menos dois anos, o que impede a entrada de operações eventuais e garante que o evento reflita o mercado real. Esse modelo permite que editoras gaúchas convivam de igual para igual com grandes grupos nacionais, e explica um fenômeno curioso: entre os dez livros mais vendidos, cinco a sete são clássicos em domínio público, presentes em bancas de editoras grandes e pequenas.
Na L&PM, de Ivan Pinheiro Machado, o desempenho é considerado “muito bom”, mesmo com a necessidade de encerrar a Feira um pouco mais cedo em um dos dias por alerta de tempestade. O formato pocket segue absoluto, com títulos como Carta ao Pai, de Franz Kafka, vendendo cerca de 50 exemplares por dia. Entre os lançamentos para a Feira, os livros de autores gaúchos também tiveram grande procura, incluindo Perigo na Esquina (Tailor Diniz), Vire esta folha do livro e se esqueça de mim (Clara Corleone) e Um labirinto chamado família (Renato Caminha). Para Ivan, a experiência presencial é insubstituível. “A boa livraria é aquela em que você entra atrás de um livro e sai com três. A feira potencializa esse impulso. Nada no e-commerce substitui o balcão, o folhear, o encontro.”
A editora Martins Livreiro manteve tradição e grande movimento, sendo uma das bancas presente em todas as 71 edições da Feira do Livro de Porto Alegre. Responsável por publicar autores gaúchos e obras de relevância regional, a editora lançou este ano 18 títulos, incluindo 10 com sessões de autógrafos, fortalecendo seu compromisso com a literatura local. Entre os destaques estão Uma mulher chamada Cabo Topo, sobre a primeira soldado mulher da Brigada Militar, e a obra dedicada a José Cláudio Machado, ícone do tradicionalismo gaúcho, ambos com grande procura por parte do público. O interesse se estende aos clássicos regionais, como História do Rio Grande do Sul, Martín Fierro, assim como livros de culinária e antologias de contos, poemas e lendas, evidenciando a preservação da editora na difusão da cultura gaúcha.
Porto Alegre celebrou a força da literatura com nova edição da maior feira de livros ao ar livre da América Latina
TÂNIA MEINERZ/JC
A programação adulta desta Feira consolidou mulheres e diversidade como eixo central de debate. Sob a curadoria de Lilian Rocha, a grade trouxe escritoras nacionais e internacionais — especialmente negras — como Eliana Alves Cruz, Luciany Aparecida, Eliane Marques e Tatiana Nascimento, ao lado da patrona Martha Medeiros. Essa pluralidade se refletiu em mesas sobre feminismo, racismo, meio ambiente e sexualidade, e em homenagens aos clássicos da literatura gaúcha como os Verissimos, Dyonélio Machado, Oliveira Silveira e a centenária Lila Ripoll. Para Lilian, esse balanço entre tradição e inovação é essencial para manter a Feira viva e representativa.
Os encontros literários tiveram lotação intensa. No Teatro Carlos Urbim, as mesas com escritoras negras foram destaque, enquanto oficinas, vitrines e debates no Clube do Comércio e na Sala Jacarandá revelaram um público engajado em novas perspectivas — inclusive vindas do Nordeste e do Centro-Oeste. Autores como Jeferson Tenório, José Falero e Edson Rosa, bem como discussões sobre lesbianidades, transmasculinidade e periferias, mostraram que a Feira é também um palco de transformação social e literária. Um dos pontos altos desta edição foi o ciclo Preto Sou, coordenado e produzido por Túlio Quevedo, em parceria com o Movimento Negro Unificado e a Associação Gaúcha de Quilombolas. Com painéis, performances, literatura e dança protagonizados por pessoas negras, o ciclo reforçou sua importância simbólica e cultural, mobilizando quilombolas, jovens estudantes e público espontâneo.