Dirigido por Luciano Alabarse, o espetáculo As cadeiras: Alguém vai vir estreia neste sábado no Teatro de Câmara Túlio Piva (Rua da República, 575), onde cumpre temporada até 23 de novembro, com sessões aos sábados (20h) e domingos (18h). Inspirado em textos de Eugène Ionesco e Jon Fosse, o diretor também assina a dramaturgia da peça, que une dois universos com algo em comum: a busca por um sentido na vida e a solidão de dois velhos isolados do mundo. Os ingressos custam R$ 30,00 (meia-entrada) e R$ 60,00 (inteira) e estão à venda pela plataforma Sympla.
Alabarse revela que, nos últimos tempos, tem mergulhado na obra de Fosse e que a leitura de Alguém vai Vir lhe soou como um "prólogo" para As Cadeiras (de Ionesco), peça que ele desejava montar há cerca de quatro décadas. "Meu desejo vinha do tempo em que iniciei na direção teatral, ainda jovem. Apesar de ter quase esquecido, isso ainda ressoava na minha memória.... e passados 40 anos, achei que um texto servia como uma luva para introduzir o universo do outro", comenta o artista. Ele conta que o trabalho na união das dramaturgias resultou em um terceiro texto, "uma mistura" fruto de um "enxugamento" de palavras e de uma aproximação do Teatro do Absurdo de Ionesco com o minimalismo existencial de Fosse.
"O que me preocupei foi em não valorizar nem um nem outro e, sim, criar uma parábola que conte sobre esses dois velhos lidando com a passagem do tempo de forma poética - sem fazer disso um texto de desânimo. Gosto muito de escrever a partir de uma obra poderosa, e aconteceu", celebra Alabarse. "Eu tenho um prazer enorme com isso - porque teatro de palavra, de dramaturgia densa, é o teatro que escolho para mim", destaca, emendando que "o teatro de texto precisa de bons atores como veículo".
A trama de As cadeiras: Alguém vai vir se debruça sobre a história de Semíramis (Lisi Medeiros) e Max (Carlos Azevedo), um casal de idosos com idades entre 80 e 90 anos, que é obrigado a se mudar. "Max é um homem de pavio curto, que briga com todos e possui uma personalidade megalomaníaca (apesar de ser um humilde atendente de estrebarias, se autodenomina 'marechal dos alojamentos')", detalha o diretor. Para sair da cidade onde moram, eles compram uma casa por telefone, e ao chegarem lá encontram um farol caindo aos pedaços, situado em um penhasco rodeado de mar. O negócio é intermediado por um corretor desonesto e falcatrua que continua a explorá-los (Pingo Alabarce).
Para se adaptar à nova realidade, o casal inventa brincadeiras e atividades, como receber convidados invisíveis e encher a casa de cadeiras, buscando assim um novo sentido de vida. "Um detalhe importante é que Max acredita ter uma mensagem para deixar para a humanidade, que será transmitida por uma pessoa (também interpretada por Pingo Alabarce) que ele contrata e que aparece no final da peça", adianta Alabarse. "Max e Semíramis carregam em si a complexidade humana em sua forma mais vulnerável, eles transitam por camadas paralelas de emoção e humanismo. Entre cadeiras vazias e centenas de convidados invisíveis, o corretor e o mensageiro são as únicas pessoas reais com as quais eles têm contato", emenda, destacando que a peça aborda temas como o etarismo, a solidão e o papel social da velhice. "O corretor, em específico, é um elemento da realidade de exploração dos velhos, da sociedade que os descarta antes de estarem mortos. Ele também nos lembra de quem se aproveita da dor dos idosos que caem em golpes por carência."
O dramaturgo e diretor da nova montagem que chega ao Teatro de Câmara Túlio Piva também assina o cenário e a trilha sonora do espetáculo, cuja concepção cênica se utiliza exclusivamente de recursos da linguagem teatral. A progressão de mais de 40 cadeiras vazias e estruturas verticais (com mais de 5 metros de altura) constroem a "casa" do casal, enquanto a trilha sonora traz um sotaque "francófilo" evocando a atmosfera dos palcos parisienses onde a obra de Ionesco foi muito apresentada. Já a materialização da 'presença' dos convidados imaginários são desafios que, segundo Alabarse, são vencidos com sucesso por Lisi e Azevedo. A diretora assistente Angela Spiazzi, que assina o Desenho do Movimento, também teve papel crucial no processo.
Alabarse afirma que vê em cada direção um novo dever, "sem se valer do passado, de truques que deram certo". "Realizar um novo espetáculo é sempre desafiador", observa. "Nesse sentido, estrear no Túlio Piva é um prazer extra que estou tendo, visto que fiz muitos trabalhos antes daquele espaço ser fechado. Esta é a primeira vez que vou estrear um espetáculo depois que o Teatro de Câmara foi reaberto. Me sinto realizado: o teatro continua exercendo influência brutal na minha forma de vida, é minha profissão."