Quem caminha pelas calçadas da avenida Desembargador André da Rocha, no Centro de Porto Alegre, pode observar o charme comum da decadência que compõe a paisagem urbana de uma Capital. Paralelepípedos dão um toque de século passado à via, a Escadaria 24 de Maio, famosa pelos azulejos poéticos, colore o passeio, e a insistência histórica das edificações de poucos pavimentos e muitos detalhes preserva recordações de diferentes épocas. Entre estes prédios, o Hotel Ritz.
Os transeuntes que passam pela fachada do Hotel desativado, corroída pelo tempo, mas ainda de pé como se guardasse segredos, talvez fantasiem o que acontecia ali nos tempos áureos do empreendimento. Se é que eles existiram. O cantor e compositor Carlinhos Carneiro, conhecido por projetos como a Bidê ou Balde — uma das bandas mais emblemáticas do rock gaúcho dos anos 2000 — passou diante desse prédio algumas vezes. Mas com ele aconteceu algo a mais: o hotel entrou em sua casa. Há alguns anos, Carlinhos comprou uma fotografia de Marcelo Franco Bonifácio e a pendurou na parede. Na imagem, a fachada decadente do Hotel Ritz. Com o tempo, a moldura virou espelho. “Fiquei com essa foto guardada, esperando um disco para ser dela”, conta. Demorou, mas ele chegou.
Hotel Ritz é seu primeiro álbum solo e, talvez, também o primeiro em que ele se despe da persona rock gaúcho criada por ele. Se na Bidê ou Balde o romantismo era performado com ironia e libido, aqui ele se apresenta mais cru e promete que este seja “o disco pessimista mais divertido do ano”. “É um disco de bolero lento, só que meu”, define. Não há pressa, nem distorção. Há respiro. Produzido por Jajá Cardoso entre São Paulo e Nova Petrópolis, o álbum mistura MPB, indie latino-americano, folk melódico e ecos discretos de sua veia roqueira. Carlinhos cita referências que vão de Caetano Veloso à Pere Ubu, de Lupicínio Rodrigues à The Magnetic Fields. Mas, acima das influências, o que prevalece é o clima: cada faixa soa como uma carta deixada no corredor de madrugada, um bilhete dobrado sob a porta da memória.
Inicialmente o artista pensou em fazer uma coletânea de canções compostas por ele em outros projetos com o trocadilho de ser um álbum de hits. Entretanto, a decisão final foi produzir um disco de inéditas, integrando faixas guardadas com as produzidas especialmente para o trabalho. Ali estão canções que abordam as incomodações da pessoa urbana e as chateações do dia a dia. “O disco traz esses causos e esses sintomas da atualidade, que fazem as músicas serem hóspedes de um álbum, como se fosse um hotel”, explica.
Gravado com a banda Os Excelents Animais, que colabora com Carlinhos desde 2023, o trabalho tem produção do artista Fu_k The Zeitgeist. O lançamento do primeiro álbum solo do vocalista da Bidê ou Balde foi na segunda-feira (6), num show que também celebrou o aniversário de Carlinhos, acorrido no Teatro Túlio Piva.
A faixa título conta com a colaboração da cantora Catto, que recentemente lançou Caminhos Selvagens e chamou a atenção de Carneiro. “Eu inventei essa música, Hotel Ritz, com uma sonoridade mais dramática, e quando eu pensei nesse clima dramático, eu logo pensei na Catto, que tinha acabado de lançar o Caminhos Selvagens. Eu achei muito legal, porque ela esta se afirmando roqueira nesse disco. Um rock alternativo, anos 1990, 2000, meio PJ Harvey, Radiohead. Ela falou que queria ser lembrada como alguém do Rock Gaúcho, e ela topou gravar”, explica o músico.
O Hotel não é geográfico, é emocional. É um espaço seguro para olhar para si. “A letra da música está falando exatamente sobre isso. Aquele momento parado, onde está tudo degradado. Adaptei ideias, frases que nunca tinham sido musicadas e aquele olhar dele (Marcelo) se transformou em um olhar meu sobre a vida atual, por mais que ela também traga coisas antigas”, afirma.
Com o novo trabalho, Carlinhos Carneiro não lançou apenas um disco. Ele abriu um hotel. E, ao contrário dos da vida real, este não fecha por falta de hóspedes. Pelo contrário: quanto mais gente entrar, mais vivo ele fica. O álbum já está disponível nas plataformas digitais.