Era só mais uma pauta de rotina: curso de confeitaria em uma comunidade de Porto Alegre, parceria entre um instituto social e uma escola de gastronomia. Confesso, fui com pressa. Cheguei no fim da tarde, ainda pensando nas demandas do jornal, no trânsito que enfrentei até o bairro Partenon, nas tarefas de casa e na filha que deixei na casa da vizinha para poder trabalhar até tarde. Não imaginava que encontraria ali algo que me escaparia completamente das mãos — como uma massa que cresce além da forma.
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O Instituto Vida Solidária (IVS) fica encostado na Comunidade São Pedro, lugar onde o asfalto hesita e os muros são baixos, como se fizessem questão de deixar a vida entrar. Passei pela porta com minha câmera pendurada no ombro, tentando ser discreta. Lá dentro, o cheiro de bolo recém-assado me pegou de surpresa — era uma Martha Rocha, descobri depois — e, em volta de uma mesa grande, cerca de dez mulheres sorriam, batiam massas, limpavam bancadas. Todas com touca de confeiteira, outras com criança pequena. Todas com histórias nos olhos.
Não era só uma aula de confeitaria. Era quase uma roda de conversa com farinha e açúcar. Uma terapia coletiva que começava com claras em neve e terminava com planos de futuro.
“Na comunidade a gente quase não se fala. Só oi e tchau. Aqui a gente virou amiga”, me disse uma das alunas, rindo, enquanto observava a colega modelando uma torta com chantilly como se estivesse fazendo uma escultura. “Já até marcamos um churrasco com a professora”, acrescentou. E eu, que até então observava como quem assiste, me vi puxando um banquinho, anotando menos e escutando mais.
A professora, por sinal, não poupava carinho. Contou que na semana anterior passou por um dia difícil, daqueles que deixam a gente meio amassada por dentro. “Mas as gurias me acolheram. Me fizeram rir. Saí melhor do que entrei.” Ali, a formação era de confeitaria - mas, no fundo, era também sobre resistência, de pessoas que não se deixam ser engolidas pela rotina.
Entre o tempo de espera de uma massa na geladeira, eu entendi que minha pauta não era só sobre bolos. Era sobre mulheres que carregam o dia inteiro nas costas — o trabalho, os filhos, os boletos, o silêncio — e ainda assim se reúnem à noite, no frio, para aprender, rir, criar, partilhar.
O Instituto Vida Solidária (IVS) fica encostado na Comunidade São Pedro, lugar onde o asfalto hesita e os muros são baixos, como se fizessem questão de deixar a vida entrar. Passei pela porta com minha câmera pendurada no ombro, tentando ser discreta. Lá dentro, o cheiro de bolo recém-assado me pegou de surpresa — era uma Martha Rocha, descobri depois — e, em volta de uma mesa grande, cerca de dez mulheres sorriam, batiam massas, limpavam bancadas. Todas com touca de confeiteira, outras com criança pequena. Todas com histórias nos olhos.
Não era só uma aula de confeitaria. Era quase uma roda de conversa com farinha e açúcar. Uma terapia coletiva que começava com claras em neve e terminava com planos de futuro.
“Na comunidade a gente quase não se fala. Só oi e tchau. Aqui a gente virou amiga”, me disse uma das alunas, rindo, enquanto observava a colega modelando uma torta com chantilly como se estivesse fazendo uma escultura. “Já até marcamos um churrasco com a professora”, acrescentou. E eu, que até então observava como quem assiste, me vi puxando um banquinho, anotando menos e escutando mais.
A professora, por sinal, não poupava carinho. Contou que na semana anterior passou por um dia difícil, daqueles que deixam a gente meio amassada por dentro. “Mas as gurias me acolheram. Me fizeram rir. Saí melhor do que entrei.” Ali, a formação era de confeitaria - mas, no fundo, era também sobre resistência, de pessoas que não se deixam ser engolidas pela rotina.
Entre o tempo de espera de uma massa na geladeira, eu entendi que minha pauta não era só sobre bolos. Era sobre mulheres que carregam o dia inteiro nas costas — o trabalho, os filhos, os boletos, o silêncio — e ainda assim se reúnem à noite, no frio, para aprender, rir, criar, partilhar.
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Era sobre um lugar — o Instituto Vida Solidária — que há vinte anos acolhe, ensina, ouve. Tendo como mantenedora a Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs), o IVS não faz só projetos sociais. Faz encontros. Faz humanidade.
Voltei pra casa pensando nos bolos, claro, mas também em como o jornalismo, vez ou outra, nos lembra que ainda existem quintas-feiras em que se amassa a vida com as mãos e se assa, devagar, uma nova chance.
Era sobre um lugar — o Instituto Vida Solidária — que há vinte anos acolhe, ensina, ouve. Tendo como mantenedora a Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs), o IVS não faz só projetos sociais. Faz encontros. Faz humanidade.
Voltei pra casa pensando nos bolos, claro, mas também em como o jornalismo, vez ou outra, nos lembra que ainda existem quintas-feiras em que se amassa a vida com as mãos e se assa, devagar, uma nova chance.