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Publicada em 27 de Fevereiro de 2025 às 01:25

Intercâmbio cultural dentro e fora de cena

Rodado em Porto Alegre, o longa-metragem 'Malick' é inspirado na história de Modou Awa Dieye, imigrante senegalês que foi vítima de tráfico humano

Rodado em Porto Alegre, o longa-metragem 'Malick' é inspirado na história de Modou Awa Dieye, imigrante senegalês que foi vítima de tráfico humano

MODOU AWA DIEYE/DIVULVGAÇÃO/JC
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Luiza Weiler
O multiartista senegalês Modou Awa Dieye tinha 22 anos quando decidiu deixar para trás o seu país de origem. Com a ajuda de seu tio, ele havia organizado uma viagem para a Itália, no continente europeu, onde esperava construir uma nova vida. No momento em que desembarcou, porém, o jovem se viu em um local completamente diferente, muito mais distante da sua terra natal. Ele descobriu que havia sido enviado ao Equador, e que era uma vítima de tráfico humano. Esse é o mote do filme Malik, recém-rodado em Porto Alegre, com direção do cineasta gaúcho Cassio Tolpolar, em parceria com o próprio artista cuja vida inspira a trama e roteiro.
O multiartista senegalês Modou Awa Dieye tinha 22 anos quando decidiu deixar para trás o seu país de origem. Com a ajuda de seu tio, ele havia organizado uma viagem para a Itália, no continente europeu, onde esperava construir uma nova vida. No momento em que desembarcou, porém, o jovem se viu em um local completamente diferente, muito mais distante da sua terra natal. Ele descobriu que havia sido enviado ao Equador, e que era uma vítima de tráfico humano. Esse é o mote do filme Malik, recém-rodado em Porto Alegre, com direção do cineasta gaúcho Cassio Tolpolar, em parceria com o próprio artista cuja vida inspira a trama e roteiro.
Em uma tentativa de fugir dos criminosos, Dieye se deslocou por vários países da América do Sul. Percorreu o Peru, passou pela Bolívia e, enfim, chegou à cidade de Florianópolis (SC), no sul do Brasil, onde está estabelecido até hoje. Do outro lado do Atlântico, no mesmo ano em que Dieye resolveu sair do Senegal, Tolpolar teve a ideia de fazer um filme sobre imigração.
Aconteceu quando o cineasta gaúcho retornou ao Brasil, no final de 2013. Após ter passado anos morando no exterior, o diretor se deparou com um cenário inesperado quando decidiu voltar para o Rio Grande do Sul: pessoas de diferentes etnias e nacionalidades, conversando em suas línguas e dialetos de origem, andavam pelas ruas da sua cidade natal.
Além da surpresa inicial ao perceber o quanto havia crescido a imigração no território brasileiro, Tolpolar explica que, para ele, também era muito curioso observar que essas pessoas haviam se estabelecido, justamente, na capital gaúcha. "Eu vi essa nova onda de imigração com muito interesse e curiosidade, uma coisa que eu não vivenciei antes de sair do Brasil", comenta. "Achei muito interessante esses novos imigrantes vindos da Venezuela, do Haiti, do Senegal, estarem aqui no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, um lugar pouco diverso, bastante homogêneo e preconceituoso. Achei uma certa contradição nesse sentido."
Na primeira vez que Tolpolar e Dieye conversaram, foi através de uma chamada telefônica. O ano era 2017, e o diretor estava em busca de um parceiro senegalês para auxiliar na roteirização de seu novo filme, que falava sobre a imigração na capital gaúcha. De acordo com o cineasta, foi nesse momento que a ideia de iniciarem a parceria se estabeleceu. "A primeira vez que conversei com Modou, ao invés de falar sobre o projeto que eu tinha, ele me contou sua história de vida, que achei triste, mas fantástica. Uma história de pura resiliência. Foi então que comecei a mudar o roteiro, que inclusive tinha outro título e sinopse. Estamos aqui hoje por causa desse encontro."
Assim nasceu Malik, cujo roteiro é assinado pela dupla de artistas, com o auxílio da roteirista Adry Silva, que trabalha no meio audiovisual há mais de sete anos. A produção executiva, por sua vez, é das realizadoras Ana Luísa Moura e Pam Hauber. Para o senegalês, há muito tempo existia a necessidade de que uma obra como essa fosse produzida.
"Eu acredito que essa história já deveria ter sido adaptada para os cinemas há muitos anos. O feedback que eu recebi, depois que o filme foi aprovado, é muito maior do que até mesmo a produção imagina. Muitos imigrantes de outros países que já vivenciaram coisas parecidas e se identificam com essa história vieram falar comigo", conta o multiartista.
Os cineastas explicam que as filmagens de Malick, que se estenderam ao longo de todo o mês de fevereiro, foram realizadas com uma equipe multi-racial e multicultural diversa, com diferentes sensibilidades, passados e histórias. Além disso, vários imigrantes estiveram presentes como atores durante as gravações, incluindo o próprio Dieye, que interpretou o papel do protagonista.
De acordo com Tolpolar, todo o processo de produção do longa foi marcado por esse intercâmbio cultural intenso, que teve que ser abordado com responsabilidade. "Nós fizemos todo o nosso preparo para as filmagens com muito cuidado, respeitando as diferenças da equipe. E isso está se traduzindo agora. A gente está conseguindo vencer as dificuldades porque esse elenco muito diverso está sendo capaz de se entender, dialogar bem e se respeitar", diz o diretor.
Apesar de ser baseado na história de Dieye, o longa é um filme de ficção. Os diretores atestam que essa característica, além de representar um meio de engajar mais os espectadores, também permite que a narrativa consiga transmitir questões gerais como imigração, identidade, preconceito e memória.
"Todos os dias, eu recebo mensagens de imigrantes falando sobre a sensação de ver esse filme sendo realizado. Cada um relaciona com a sua própria história, me contando sobre o momento em que chegou no México, na Colômbia, ou em outro lugar", destaca o senegalês. "Independente do país onde estão radicados, todos eles dizem que estão se sentindo 'dentro' do filme."
O longa-metragem tem uma distribuidora localizada no Rio de Janeiro, e foi realizado com a utilização de recursos da Lei Complementar nº 195/2022. Atualmente, os produtores estão em busca de maiores fundos para conseguir arcar com os gastos da pós-produção, um processo mais longo e detalhado.
Apesar de ainda não ter uma data de estreia definida, os diretores imaginam que as primeiras exibições da obra devem acontecer em festivais brasileiros e internacionais. Posteriormente, se tudo ocorrer conforme o planejamento, serão procuradas parcerias com cinemas e plataformas de streaming.
Além de Dieye e Tolpolar, a escrita do roteiro também contou com o auxílio da roteirista Adry Silva, que trabalha no meio audiovisual há mais de sete anos. A produção executiva, por sua vez, é assinada pelas realizadoras Ana Luísa Moura e Pam Hauber.

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