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Publicada em 16 de Fevereiro de 2025 às 19:27

Biblioteca Pública do Estado é templo da leitura no Centro de Porto Alegre

Com arquitetura inspirada no calendário positivista e no movimento neoclássico, edifício centenário da rua Riachuelo é um verdadeiro oásis da leitura

Com arquitetura inspirada no calendário positivista e no movimento neoclássico, edifício centenário da rua Riachuelo é um verdadeiro oásis da leitura

TÂNIA MEINERZ/JC
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Gabrieli Silva
Falar da Biblioteca Pública do Estado (Riachuelo, 1.190) é fazer um mergulho de cabeça na história. Este prédio centenário, que abriga mais de 240 mil livros disponíveis à população, não é apenas um oásis da leitura, mas também um tesouro histórico do Rio Grande do Sul. Diariamente recebe visitantes e frequentadores habituais, formando um público fiel e tão diverso quanto seu acervo.
Falar da Biblioteca Pública do Estado (Riachuelo, 1.190) é fazer um mergulho de cabeça na história. Este prédio centenário, que abriga mais de 240 mil livros disponíveis à população, não é apenas um oásis da leitura, mas também um tesouro histórico do Rio Grande do Sul. Diariamente recebe visitantes e frequentadores habituais, formando um público fiel e tão diverso quanto seu acervo.
A Biblioteca Pública do Estado teve sua construção iniciada em 1912 e foi inaugurada em 7 de setembro de 1922, em comemoração ao Centenário da Independência. Ao longo dos anos, consolidou-se como principal referência da cultura gaúcha dos séculos XIX e XX, com reconhecimento nacional e internacional. Sob sua guarda, encontram-se registros históricos, como relatórios de governo a partir de 1860, entre outros documentos importantes para a preservação da historiografia do estado.
Com uma arquitetura imponente, o edifício foi projetado pelos engenheiros das Obras Públicas do Estado, Affonso Hebert e Teófilo Borges de Barros, sendo tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Estadual (IPHAE) em 1986 e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) nos anos 2000. A obra foi influenciada pelo Calendário Positivista, criado pelo filósofo francês Auguste Comte no século XIX, que propôs a reorganização do tempo com base em ciclos lógicos e na valorização de figuras históricas, como Júlio César, Gutenberg e Descartes.
 
 

Detalhes escultóricos são uma das atrações para visitantes da Biblioteca Pública do Estado

Detalhes escultóricos são uma das atrações para visitantes da Biblioteca Pública do Estado

TÂNIA MEINERZ/JC
Inspirado por essa corrente, Júlio de Castilhos, que presidiu o Rio Grande do Sul durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, incorporou à Constituição do Estado uma orientação positivista definindo assim os rumos do Partido Republicano no sul do país. Seu sucessor, Borges de Medeiros, deu continuidade à obra política e administrativa do Castilhismo e era um frequentador assíduo da Biblioteca, onde lia o periódico e bebia café em uma sala de leitura que hoje leva seu nome.
Outra presença marcante nos detalhes dessa arquitetura é a dos bustos, entre os quais se destacam Moisés, representando o monoteísmo; Arquimedes, simbolizando a ciência antiga; e Homero, que remete à literatura. E os murais nas paredes, que carregam traços do neoclassicismo, movimento artístico do século XVIII que se inspira na arte e na cultura da antiguidade clássica, refletindo os ideais iluministas.

Mobiliário e espaços da Biblioteca vêm passando por ações de reforma e restauro desde 2020

Mobiliário e espaços da Biblioteca vêm passando por ações de reforma e restauro desde 2020

TÂNIA MEINERZ/JC
De 2020 para cá, com recursos do Governo do Estado, a Biblioteca passa por uma série de restauros que inclui a recuperação das paredes internas, do mobiliário original e da fachada — esta já concluída. Durante a gestão da década de 1970, entendeu-se que alguns murais, pintados na época da construção, deveriam ser cobertos com tinta neutra, sob o argumento de que muitos murais poderiam distrair o leitor. Para Fábio Lazzari, historiador e funcionário da instituição desde 1993, "a Biblioteca é um lugar onde circula o espírito do mundo; cada ambiente corresponde a um estágio da humanidade, da cultura e da história do mundo."
Com um trabalho minucioso e delicado, a restauradora e conservadora de bens culturais Anice Jaroczinski utiliza um bisturi para remover as quatro camadas de tinta que ocultam a obra do artista alemão Fernando Schlatter (1870-1949). Após a remoção, o mural passará por um processo de repigmentação, devolvendo-lhe sua aparência original.

Trabalho cuidadoso de restauro vem permitindo que visitantes voltem a visualizar detalhes originais das paredes da Biblioteca

Trabalho cuidadoso de restauro vem permitindo que visitantes voltem a visualizar detalhes originais das paredes da Biblioteca

TÂNIA MEINERZ/JC
Desde 2023, a Biblioteca está sob a gestão de Ana Maria de Souza, a primeira mulher negra a ocupar o cargo de diretora da instituição. Com o objetivo de trazer mais dinamismo ao espaço, ela vem implementando uma visão de crescimento e transformação, reforçando o papel da Biblioteca como um centro cultural ativo e acessível.
Em 2024, o setor de empréstimos teve um aumento expressivo de 80% em relação ao ano anterior, ultrapassando cinco mil livros retirados, mesmo com um mês de fechamento devido às enchentes e uma retomada gradual das atividades. Para Ana Maria, o reflexo desse impacto positivo se deve ao momento de valorização da cultura e o incentivo à preservação do patrimônio. "Não é verdade que as pessoas gostam menos de ler. A verdade é que falta estímulo e disponibilidade, por isso, uma biblioteca pública se faz tão necessária. Quando há oferta e um ambiente convidativo, as pessoas manifestam interesse, não só pelo acervo mas também pela programação cultural", afirma a diretora.

Texto de Dante Alighieri, em dialeto florentino, está estampado na Biblioteca Pública do Estado: trata-se de trecho do prólogo do Canto I, parte Inferno, do famoso Livro A Divina Comédia

Texto de Dante Alighieri, em dialeto florentino, está estampado na Biblioteca Pública do Estado: trata-se de trecho do prólogo do Canto I, parte Inferno, do famoso Livro A Divina Comédia

TÂNIA MEINERZ/JC
Além do acervo, a programação cultural oferece uma variedade de atividades que são divulgadas no site oficial e no instagram da instituição. Aos sábados acontece a visitação guiada intitulada Livros, História e Arte, e que recebeu em sua primeira edição mais de 60 participantes. Também está em cartaz a mostra 60 anos do golpe: por dentro da Biblioteca Pública, uma exposição de documentos que retratam o cotidiano da instituição no contexto da Guerra Fria e da ditadura civil-militar no Brasil, abrangendo o período de 1963 a 1967.
 

Projetos como o Dia do Leitor (foto), Clube de Leitura e BPE Acústico ajudam a movimentar espaços internos da Biblioteca

Projetos como o Dia do Leitor (foto), Clube de Leitura e BPE Acústico ajudam a movimentar espaços internos da Biblioteca

TÂNIA MEINERZ/JC
Já para 2025, está sendo organizado o Clube de Leitura da BPE, que promoverá encontros presenciais às quartas-feiras, e está com inscrições abertas via Google Forms, disponível no Instagram @bpe.rs. Outros projetos, como o BPE Acústico, que traz apresentações de poesia musicada, e o BPE+Cultura, evento que celebra literatura, arte e gastronomia na Rua da Ladeira, serão retomados a partir de abril.
Para retirar um livro na Biblioteca o processo é simples: basta apresentar um documento de identidade e um comprovante de residência, além de pagar uma taxa de inscrição de dez reais. Com isso, é possível levar um livro para casa por duas semanas, com a opção de renovação. Para quem prefere ler no próprio local, a Biblioteca oferece mesas de estudo e internet gratuita. A Biblioteca Pública está aberta de segunda a sexta das 10h às 18h e aos sábados das 10h às 17h, com entrada gratuita.

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