Os livros nos convidam a viajar pelo vasto universo da imaginação, e a trajetória se torna ainda mais mágica quando os autores permitem que o leitor interprete determinadas partes do texto livremente. O ato de ler torna-se, assim, uma jornada compartilhada, onde cada leitor traz consigo suas próprias experiências, enriquecendo e sendo enriquecido pelo texto, como no novo livro de Sidnei Schneider, À linha d'água do rio, da Pubblicato Editora. Suas 132 páginas trazem minicontos, poemas em prosa, observações crônicas e pequenas ficções, criados pelo autor ao longo de 33 anos, de 1987 a 2020.
O seu lançamento está marcado para este sábado, das 16h às 19h no Quiero Café (rua dos Andradas, 735). Nele, haverá sessão de autógrafos e os leitores poderão conversar com o criador da obra, que também estará à venda no local por R$ 50,00. A entrada é franca.
Em relação à seleção dos textos, Sidnei conta que não foi tão difícil quanto ele pensava. "Eu sou e aconselho a ser muito radical no corte, sem ter pena do próprio texto". A escolha se deu com base em todos os conteúdos que foram previamente publicados (ou não) por ele. Um exemplo disso é Velocidade, conto que foi encontrado pelo autor em um caderno de casa: "havia ali um certo talento, então alterei algumas partes e publiquei", relembra.
Divididos em sete partes - Afinidades relativas; Ruas; Sr. Clemêncio e Sr. Agudá; Margens de amor e morte; Litígios da adaga; De rua e sangas e Enquanto cantais - os trabalhos foram agrupados de acordo com seu conteúdo, e do modo que, para Schneider, pareceu fazer sentido. Porém, ele ressalta que a ordem de leitura fica a cargo do leitor. "No momento que a pessoa compra o livro, ele é dela, e ela o lê como bem entender e sentir que é o jeito certo."
Dentro dele, diversas vidas costuradas em um livro só. Entre os parágrafos, o leitor encontra histórias populares, contos indígenas e narrativas de memórias de Sidnei, como no miniconto Parada de ônibus, que faz com que levantemos os olhos do livro e pensemos, duas ou três vezes, na forte mensagem dentro daquelas seis linhas. O autor conta que o capítulo em que o texto se encontra, Ruas, foi criado praticamente na mesma época que a Vila dos Papeleiros, na Zona Norte de Porto Alegre. "Infelizmente, a gente se acostumou com isso hoje, mas eu fiquei muito chocado quando aquilo aconteceu, e publiquei nos jornais da época o impacto de ver aquelas pessoas passando tanta dificuldade".
A maioria das histórias em À linha d'água do rio trazem consigo esse ato, de levantar os olhos das páginas e contemplar cada palavra escrita ou escondida entre as linhas. Por engraçado que talvez pareça, a atmosfera de alguns dos contos remete muito à pandemia de Covid-19 e aos dois anos sombrios e tristes que vivemos no mundo. Porém, nenhum deles foi escrito com o pensamento na pandemia, e a maioria deles já existiam quando o vírus se apossou de grande parte do planeta - ou, partindo de um evento mais próximo, quando as enchentes recentes assolaram o estado do Rio Grande do Sul. O próprio título do livro, por mais que não se refira ao evento, pode evocar memórias em seus leitores.
Assim, a cada leitura, os contos e poemas ganham novos significados, personagens, falas e ações. E é esse processo de co-criação entre autor e leitor que mais fascina Sidnei Schneider. Em suas palavras, "eu só crio 50% do texto, o resto se constrói a partir do que ele viveu (após ser publicado)." Para ele, a literatura é um diálogo contínuo, uma dança entre a escrita e a interpretação, onde cada leitura é única, pessoal e transformadora.
O poeta, tradutor de poesia, ficcionista e ensaísta espera que a leitura de À linha d'água do rio seja capaz de "tocar o leitor, (a partir de) determinada pessoa ou situação que ela está vivenciando, tornando o meu texto interessante ou importante para ela, seja agora ou daqui a 10 anos, quando ela rememorar esses contos". Afinal, a seu modo, a leitura pode ser comparada com o pensamento de Heráclito, de que ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio. Ninguém lê o mesmo livro, pois as experiências entre uma leitura e outra podem proporcionar infinitos mundos e possibilidades.