O Farol Santander Porto Alegre - em parceria com o Ministério da Cultura - promove, a partir desta quarta-feira (16) exposição inédita e com caráter histórico de cinco das seis décadas de produção de Siron Franco. Com telas cedidas pelo colecionador de arte Justo Werlang, a exposição Armadilha para Capturar Sonhos apresenta um conjunto de 63 pinturas em grandes formatos produzidas entre 1973 e 2023 pelo artista goiano, considerado um dos mais importantes do País e reconhecido internacionalmente. A curadoria é do historiador de arte Gabriel Pérez-Barreiro.
A visitação da mostra segue até o dia 23 de outubro, de terça à sábado, das 10h às 19h; e aos domingos e feriados, das 11h às 18h na sede do Farol Santander (Sete de Setembro, 1028). Os ingressos estão à venda pelo site da entidade e custam R$ 17,00 (inteiro) e R$ 8,50 (meia-entrada). Agendamentos para grupos e escolas devem ser feitos pela plataforma Sympla. Além das obras, a exposição conta com vídeos, documentário (Siron. Tempo Sobre Tela/ dirigido por André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos) e textos sobre o processo de produção do artista. Marca, ainda, o lançamento do livro Siron Franco (Editora Cosac Naify), que reúne informações sobre as obras presentes na coleção de Werlang, incluindo objetos, esculturas e pinturas, além de entrevistas e textos inéditos de Pérez-Barreiro, Cauê Alves e Angel Calvo Ulloa.
"É uma alegria ver essas obras todas juntas, reunidas em uma mesma mostra. Nesta seleção, há um pouco da história recente do Brasil", afirma Franco. Pintor, desenhista e escultor nascido em Goiás, no ano de 1947, ele começou a trabalhar com arte aos 12 anos de idade e valoriza quem investe em acervo pessoal, para além de apreciar obras em museus. "Um artista que não tem colecionador está fadado a desaparecer", opina. "Eu tive a sorte de ter vários colecionadores e isso é fundamental, porque cada um deles retira do meu repertório um outro ponto de vista. O Justo, por exemplo, tem 150 quadros meus. Então, esta mostra é uma outra forma de enxergar minha produção durante cinco décadas."
Composta por sete núcleos expositivos que agrupam as telas a partir dos temas Cosmos, Segredos, Mitos, Homem, Biomas, Violência e Césio, a exposição reúne obras enigmáticas, como Argonauta (de 1973) e outras nunca vistas pelo público, como A Grande Rede, pintura realizada em 2023. "A mostra encanta por nos fazer navegar pelos vários mundos que o artista transita, tanto na figuração quanto na abstração, mas sempre com o propósito de chamar a atenção para temas importantes para refletirmos", afirma a vice-presidente executiva institucional do Santander Brasil, Maitê Leite.
Considerada surrealista por alguns, a linguagem visual de Siron oscila entre a figuração (em que as imagens são apresentadas com clareza) e as abstrações (em que a pintura não representa objetos do mundo, mas cria uma impressão geral e uma energia). Suas pinturas são frequentemente constituídas de muitas camadas que se sobrepõem, escondidas pela camada mais superficial e visível aos olhos do espectador. Há telas feitas com pintura à óleo, mas também com materiais como areia, arame farpado, chumbo, entre outros elementos.
Considerada surrealista por alguns, a linguagem visual de Siron oscila entre a figuração (em que as imagens são apresentadas com clareza) e as abstrações (em que a pintura não representa objetos do mundo, mas cria uma impressão geral e uma energia). Suas pinturas são frequentemente constituídas de muitas camadas que se sobrepõem, escondidas pela camada mais superficial e visível aos olhos do espectador. Há telas feitas com pintura à óleo, mas também com materiais como areia, arame farpado, chumbo, entre outros elementos.
"Desde a década de 1970, o trabalho de Siron tem abordado de forma sistemática quase todas as questões que são dominantes na arte brasileira e internacional dos dias de hoje: catástrofe ambiental, discriminação, violência, injustiça, corrupção, raça, gênero, classe e assim por diante", destaca Pérez-Barreiro. "Ao mesmo tempo, seu trabalho teimosamente não é sobre essas questões. Siron é um artista que constantemente confunde as expectativas", emenda. "Na minha opinião, ele é o maior pintor brasileiro do século XX."
"Eu trabalho por um impulso", afirma Franco, ao explicar que não chega a pensar na temática dos trabalhos que produz. "Quando vejo, estou criando essas séries, a exemplo da Fábulas de Horror (13 telas sobre a repressão imposta pela ditadura militar, que não estão expostas na mostra do Farol Santander), pela qual ganhei a Bienal Internacional de São Paulo em 1975 e que produzi por conta de uma notícia que escutei no rádio. Isso é bem normal: às vezes uma frase me impulsiona a criar toda uma série." Outra característica do pintor, segundo o curador da mostra, é que ele "não se acomoda com a receptividade de sua obra". "Quando ele percebe que o que está criando não gera mais estranhamento, ele muda tudo. Ele nunca cedeu a modismos e raramente se repetiu, sem facilitar a identificação de suas obras - esse aspecto também lhe dá um caráter sempre contemporâneo."

Boa parte das obras de Siron Franco está em coleções particulares; muitas serão mostradas em público pela primeira vez
ANA TERRA FIRMINO/JC
Entre outros temas políticos explorados por Franco, a série que revela um olhar para o acidente radioativo envolvendo Césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987, alerta para suas consequências sociais e ambientais. Nela, muitas obras foram feitas com terra de Goiânia, coberta por tinta prateada (em referência ao material radioativo) e chumbo. "As pessoas estavam paranoicas e não queriam comprar nenhum produto da cidade, então resolvi usar a terra para mostrar que, apesar de sério, o problema não deveria ser ampliado daquela forma...no fim, ninguém apareceu na inauguração, com medo da terra estar contaminada - o que, obviamente, não procedia", recorda o artista.
Franco também questiona as relações humanas, a destruição da natureza e os maus tratos aos animais. Na tela Datas, da série O Curral, ele mistura um pouco destes temas, ao retratar um boi com desenhos de cortes de carne com datas de guerras e fases históricas densas, como a instauração da ditadura militar no Brasil e o decreto do AI-5. Segundo o autor, a tela ainda representa a situação opressora a que os brasileiros foram submetidos a partir de 1964. "O curral é um lugar opressor, e foi isso o que fizeram com a gente na época da ditadura. Quem saísse do 'curral' era preso, torturado."
As brigas de fronteiras, e outras violências, os dogmas religiosos versus a espiritualidade, e a imensidão do Universo também são temáticas encontradas na exposição de parte da coleção de Werlang um dos responsáveis pela criação da Bienal do Mercosul e colecionador de outros grandes artistas, como Iberê Camargo e Xico Stockinger. "Siron Franco fala de questões brasileiras, questões sociais, políticas, mas também da natureza, do planeta. Nesta mostra, demos enfoque para a expressão artística dele, e não tanto a expressão de protesto, que é também uma outra face dele", detalha o colecionador. "É através desta linguagem artística, que o público poderá rever fatos históricos do Brasil reunidos nesta mostra."