Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Artes Visuais

- Publicada em 29 de Junho de 2023 às 18:23

Artista visual Marina Camargo propõe uma utopia para além das fronteiras

Pensando espaços e lugares por meio de representações cartográficas, Marina Camargo expõe quatro anos de produção artística na exposição A Certa Sombra, no Instituto Ling

Pensando espaços e lugares por meio de representações cartográficas, Marina Camargo expõe quatro anos de produção artística na exposição A Certa Sombra, no Instituto Ling


MARINA CAMARGO/REPRODUÇÃO/jc
Neste sábado (1), às 18h, a artista visual Marina Camargo inaugura sua mais nova exposição individual, A Certa Sombra, que ficará em cartaz no Instituto Ling (rua João Caetano, 440) até o dia 23 de setembro, com visitação de segunda a sábado (exceto feriados), das 10h30m às 20h.
Neste sábado (1), às 18h, a artista visual Marina Camargo inaugura sua mais nova exposição individual, A Certa Sombra, que ficará em cartaz no Instituto Ling (rua João Caetano, 440) até o dia 23 de setembro, com visitação de segunda a sábado (exceto feriados), das 10h30m às 20h.
O evento de abertura vai contar com performance do multi-instrumentista Marcelo Cabral. Após a apresentação musical, com temas compostos a partir da interpretação da obra Songlines - que integra a mostra -, haverá, ainda, um bate-papo entre a autora e o curador da exposição, Paulo Miyada. A entrada é gratuita, mediante inscrição prévia no site do espaço cultural. 
Natural de Maceió (AL), Marina mudou-se para Porto Alegre aos nove anos de idade e, desde 2015, ela mantém sua residência na capital gaúcha ao mesmo tempo que mora na Alemanha - país onde desembarcou para estudar artes, inicialmente, e onde trabalha atualmente. "Eu fico um pouco aqui e um pouco lá na Europa, onde o tema sobre as fronteiras é muito presente", adianta a artista, ao explicar a temática de sua atual exposição. "Na Alemanha é muito presente no entorno essa questão das pessoas não entrarem e não poderem circular (pelo território)", emenda. Por outro lado, reflete Marina, aqui no Brasil as fronteiras são fluidas, a ponto de irmos e voltarmos para países como Uruguai e Argentina, sem nem mesmo percebê-las."
Sob a curadoria de Miyada, a artista visual escolheu trabalhos produzidos nos últimos quatro anos  (sendo os mais recentes feitos especialmente para a mostra), que exploram relações e pensamentos sobre espaços e lugares, através de representações cartográficas, para apresentar - pela primeira vez - ao público de Porto Alegre. São cerca de 15 pinturas e desenhos - alguns com volume, lembrando esculturas - desenvolvidos com materiais como latão, madeira, acetato e borracha, além de vídeos e a performance musical de Cabral (que será gravada no dia da abertura, para ficar exposta em tela no restante da temporada da mostra no Intituto Ling).
"A experiência de cruzar uma fronteira é muito diferente do que se vê no mapa", justifica a artista, que define suas criações a partir de uma visão utópica, de transformar estas linhas (de fronteira) não somente por meio de uma partitura experimental - como é o caso de Songlines - feita para ser transformada em música (a partir de interpretações como as que serão apresentadas por Cabral), mas também através de ressignificações. "É um tanto abstrato, assim como as fronteiras que são abstratas, ao mesmo tempo que afetam muito a vida das pessoas, principalmente pela questão política", comenta.
A partir do espaço de fronteira que se vê no mapa, a artista transformou, em seu trabalho, vários territórios em narrativas, considerando seu contexto histórico. "Não existe só um modo de pensar os lugares, e eu acho que levo isso ao limite, a ponto do mapa que está na obra deixar de ser mapa para ser outra coisa", revela. "Muitos deles têm essa busca de se tornar diferentes do que são (no desenho de mapa tradicional) para se transformar em mapas fluídos, que falem não só da delimitação de território político, mas, por exemplo, da série de fluxos que realmente são essas linhas que cruzam os continentes, a exemplo das indas e vindas que se compõem as migrações."
O resultado, segundo avaliação de Marina, é que os desenhos e as formas que surgem a partir do uso de materiais se tornam "orgânicos", lembrando plantas e outras coisas, que não necessariamente parecem mapas. Ou seja, ainda que o princípio de cada obra seja a geopolítica, as criações, quando "vão se resolvendo", acabam adquirindo "vida própria": "não existe compromisso em manter a geografia, mas transformar mesmo em outra coisa", que tenha narrativa única, "reinventando a narrativa de cada um destes trabalhos, destruindo e distorcendo" essas narrativas, a partir das formas dos mapas, que também recebem recortes, dobraduras, colagens, resultando em uma "geografia desmanchada".
"Penso muito que tipo de mapa pode definir o mundo de hoje, em constante transformação", destaca Marina. A artista, que pinta e desenha desde os 15 anos, começou a trabalhar com mapas em 2004, ainda com referencias impressas (uma vez que ainda não havia a tecnologia possível nos dias de hoje). "Foi quando fui estudar em Barcelona pela primeira vez, aos 23 anos, e precisava lidar com a sensação de deslocamento extremo. O mapa me dava uma sensação de um certo controle do espaço, ainda que ilusória", recorda.
Desde então, a temática vem acompanhando a artista, que, no seu cotidiano, está sempre cruzando fronteiras para se deslocar entre seus dois lares oficiais. Ela admite que, ainda há outras referências nesta relação, a exemplo de uma obra do uruguaio Joaquim Torres Garcia, que dispôs, em um de seus trabalhos, o desenho da América do Sul invertida. "Essa provocação de que a dominação do Norte pode ser modificada, com o Sul se tornando mais importante carrega uma ideia muiro forte que me acompanha há muitos anos. É um giro de percepção, é mais que virar de cabeça para baixo uma imagem."