Se você quer dar certo no rock brasileiro, tem que estar disposto a trabalhar bastante - que dirá no heavy metal, estilo nauralmente distante dos programas televisivos e das paradas de sucesso. No caso da Noturnall, uma das mais destacadas bandas do cenário metálico brasileiro atual, trabalho é o que nunca faltou. Com turnês extensas e constantes (incluindo a que fizeram ao lado do ex-Iron Maiden Paul Di'Anno, que veio a Porto Alegre no começo deste ano) e uma disposição de testar limites em tudo que faz, o grupo está lançando o novo álbum, Cosmic Redemption - um trabalho fiel ao espírito intenso e superlativo que tem marcado a trajetória do quarteto. E que, como não poderia deixar de ser, também apresenta diferentes camadas de superação.
De certa forma, o novo trabalho nasce de um momento de decepção. Em março de 2019, a banda estava na Suécia, dando início a uma turnê europeia, quando a chegada da pandemia da Covid-19 forçou o cancelamento de todos os planos. "Em um dia, estávamos na Noruega empolgados com o primeiro show de uma extensa turnê na Europa e, no dia seguinte, na Suécia, recebemos a notícia de que tudo seria interrompido por tempo indeterminado e teríamos que voltar para casa", relembra o baixista Saulo Xakol. "Foi um período muito difícil pois, hoje em dia, os shows são a principal atividade de um artista. Perdemos nosso principal combustível."
O jeito foi direcionar o recolhimento forçado de forma produtiva, mergulhando na preparação em home office do novo álbum. Foi o maior período entre o lançamento de dois discos de estúdio do Noturnall; um processo demorado, sem dúvida, mas que se concretizou em variedade sonora, já que Cosmic Redemption é possivelmente o álbum mais cheio de ousadias da banda, expandindo a força e velocidade do power metal em diferentes direções.
Além de participações significativas para fãs de rock pesado, como o baterista Mike Portnoy, que fez fama com o Dream Theater (em Scream! For!! Me!!!), e o ex-baixista do Megadeth David Ellefson (em Take Control), o novo álbum do Noturnall surpreende pela presença do cantor Ney Matogrosso, que faz dueto com o vocalista Thiago Bianchi na releitura de O Tempo Não Para, de Cazuza. O videoclipe da faixa foi gravado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. "As peças foram se encaixando naturalmente", afirma Saulo. "A ideia surgiu quando o Thiago Bianchi entrevistou Ney Matogrosso em seu programa, chamado Bom Dia com Rock e Filosofia, pela Kiss FM. Após a entrevista, Thiago convidou despretensiosamente o Ney para fazer uma participação e, para nossa surpresa, ele aceitou sem complicações".
A regravação, segundo o baixista, foi "um grande choque de mundos", além de ser uma homenagem capaz de unir, no presente, as pontas do passado e do futuro. "Como representantes de uma nova geração do Metal e do Rock brasileiro, precisamos manter viva a lembrança dos ídolos do passado, que viveram em uma época ainda mais complicada e que lutaram contra todos os tipos de preconceito. Sua memória, assim como as letras que escreveram, sobrevivem à prova do tempo para mostrar que muito mudou, mas muito continua igual", reflete o músico.
Em uma época na qual o streaming se tornou onipresente e muitos fãs mais novos talvez nunca tenham usado um aparelho de CD, chama atenção a decisão de lançar Cosmic Redemption primeiramente em mídia física, vendida durante os shows da turnê brasileira ao lado de Paul Di'Anno. A estratégia exigiu uma correria extra para que tudo estivesse pronto antes dos primeiros shows - mas se mostrou acertada, garante Saulo, na medida em que a Dynamo, gravadora da banda no Brasil, precisou mandar remessas extras para atender a demanda.
Hoje disponível também nas plataformas digitais, Cosmic Redemption mostra uma banda que não foge do trabalho, seja no cuidado na composição de cada faixa, seja nos vídeos detalhistas (o mais recente, para Try Harder, gravado na favela da Rocinha) ou na presença constante nos palcos do Brasil e além. A banda - que conta, além de Saulo Xakol e Thiago Bianchi, com Henrique Pucci na bateria e com o guitarrista norte-americano Mike Angelo - tem uma série de shows confirmados na Europa, além de datas em negociação para outros continentes e nada menos de 50 apresentações confirmadas no Brasil entre janeiro e abril de 2024, incluindo Porto Alegre, Pelotas, Santa Maria e Caxias do Sul. Tudo isso em shows com telão sincronizado, lasers, pirotecnia, pole dance, truques de mágica e uma bateria que gira em 360°, chegando a ficar totalmente de cabeça para baixo.
"Sempre buscamos inovar e reinventar. Mas o principal de tudo é dedicação, doação e amar o que fazemos", garante Saulo. "Ficar parado, esperando as oportunidades caírem do céu, não é uma opção. Batemos em muitas portas, recebemos muitos nãos, ou às vezes nem mesmo somos atendidos, mas nunca ficamos desencorajados. Se necessário, procuramos uma janela. Perseverança é o nosso lema."


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