Neste sábado, a Fundação Iberê Camargo (avenida Padre Cacique, 2.000) dá início ao seu calendário de exposições com a mostra Da pintura necessária, que reúne 56 obras de arte do artista paulista André Ricardo. Produzidas com têmpera ovo, que consiste na mistura do pigmento com a gema, grande parte das obras será exposta pela primeira vez, entre eles, um pequeno conjunto de pinturas produzidas em Nova York, em 2022. A visitação ocorre até 30 de abril, de quinta-feira a domingo, das 14h às 18h. Às quintas, a entrada é gratuita. De sexta a domingo, os ingressos custam a partir de R$ 10,00 e podem ser adquiridos na bilheteria da casa.
Da pintura necessária nos faz um convite para pensar na importância que a arte tem para a cultura e para a nossa construção enquanto sociedade. A necessidade da pintura de André está no potencial dela se tornar uma ferramenta capaz de, por meio da arte, enfrentar a nossa história, entender as nossas origens e expor as nossas contradições. A arte não se submete a um discurso nem ilustra uma ideia, mas se engrandece ao tornar-se a própria voz do artista e do universo em que vive.
A questão não está no tema, mas no modo como é feito. Quando a arte transcende as barreiras da representação para se transformar numa linguagem própria que traduz as vivências do artista, ela abre a possibilidade de pensar o mundo através de outra narrativa. "Quando eu olho pra um carro e represento um carro, quando eu represento o barco, represento a cobra, o que une tudo não é exatamente o significado do tema, mas como essa visualidade me faz enxergar o mundo", reflete André. "É isso que me interessa especular em cada pintura. É entender o que me constitui como herança de uma inteligência visual popular afro-brasileira, pela qual eu posso representar qualquer coisa."
As obras do artista trazem nas pinceladas o que André percebeu do mundo com os seus olhos. O que atinge sua retina é refletido para a tela, construindo um discurso, uma linguagem, uma manifestação própria - mais do que uma impressão sobre o objeto. Filho de nordestinos imigrantes, que foram tentar a vida em São Paulo, André cresceu na periferia paulista. Praticava os desenhos durante as viagens de ônibus do Grajaú, bairro na zona sul da cidade, até a USP, onde cursava Artes Plásticas. As janelas do coletivo emolduravam a cidade sobre a qual o artista lançava o olhar. Fachadas retilíneas, geometrias urbanas, contornos limitantes, o colorido da vida: tudo isso serviu de matéria-prima para sua arte e está presente em suas pinturas, construindo o idioma pelo qual o artista dá voz ao seu mundo. "É uma visualidade que forma o nosso olhar. Quando a gente convive com essas formas, essa visualidade faz a gente olhar o mundo de um jeito muito particular", explica.
O idioma artístico de André tem raízes brasileiras, e o universo latino que o permeia respinga em suas telas. A cultura cromática latino-americana e brasileira é extremamente rica: em nossa fauna, flora, construções, roupas, comidas - em tudo há cor. E é por isso que ela se tornou tão importante e presente na obra de André. Para que a cor apareça nas pinturas com o mesmo vigor com o qual nos rodeia, o artista se utiliza da têmpera ovo. Muito utilizada desde a Idade Média, a técnica consiste em usar a gema do ovo como aglutinante para transformar o pigmento puro em tinta. Por gerar uma película muito delicada, essa tinta proporciona para a cor um grau de pureza maior e permite que ela fique mais exposta ao ar, intensificando o colorido.
Influenciado por Alfredo Volpi, pintor ítalo-brasileiro que fazia muito uso da têmpera ovo, André encontrou na técnica o que procurava. "Ela tanto atendeu muito bem a minha vontade de expandir a cor, quanto trouxe um processo ao qual me adequei bem, porque a têmpera exige um processo artesanal para fazer. É uma técnica pré-industrial, antes do tubo de tinta. O fato de eu fazer minha própria tinta me dá uma relação muito mais próxima com a cor."
A qualidade da pintura com têmpera lembra muito as cores das fachadas populares da arquitetura brasileira, e é esse afeto que o artista busca. "A têmpera me traz uma memória afetiva que me interessa muito. Sabe quando você viaja pelos interiores e vê essas capelinhas? Elas são memórias de uma visualidade que nos forma de algum modo", comenta André, "A cor é um gesto poético. Quando eu penso cor, eu tento buscar a memória afetiva que me conecta a essa visualidade que nos conecta com as nossas raízes, nossas heranças populares afro-brasileiras."
"A pintura é um caminho para revelar as coisas", acentua André. Mas também para construir a travessia entre universos, a partir de uma narrativa periférica, que quase sempre ficava do lado de fora dos museus. "A arte cria uma ponte entre diferentes contextos sociais. Pra mim foi muito importante me enxergar na obra e tornar minha realidade um combustível para que minha arte aconteça."