Ser mulher é ser capaz de dar vida. E não só no sentido patriarcal de maternidade. Mas no sentido mais puro da palavra. Criar, colocar no mundo, fazer acontecer. A gente carrega isso dentro de nós e, por mais que existam muitos obstáculos pelo caminho, parece natural e fica fácil. Ainda mais quando mulheres se juntam e fazem os obstáculos parecerem mínimos e o caminho mais curto. Foi isso que a compositora Karol Engel fez, e que agora começar a dar o fruto: buscou uma rede de afetos femininos e produziu seu segundo single, lançado no final de janeiro.
Sensações traz à tona emoções contrastantes, que estão nos dois lados da moeda. Força, amor próprio e resiliência são a essência dessa música que atravessa o peito e mostra que dá pra ser diferente. A gravação da faixa, que está nas plataformas digitais desde o final de janeiro, contou com uma equipe de produção, majoritariamente feminina. Além de Karol na composição e voz, o registro traz Kristal Werner, na produção musical e arranjos e Mariana Brito, que fez os arranjos de piano pro single. As duas foram professoras de Karol, o que fez a conexão ser ainda mais profunda.
A presença feminina seguiu até nos espaços que vão além da música: a identidade visual e conceitual do projeto é de Garbi Music. A capa é da designer Dio Germano e a assistência técnica ficou a cargo da artista Elisa Terra. Já a porcentagem não feminina de Sensações cabe a Duda Raupp, que se encarregou da masterização e mixagem. Essa união, conta Karol, foi totalmente ao acaso, um conjunto de femininos se juntando como se uma força as puxasse para perto, para cima e para a frente. Desde o início da graduação em música, Karol buscou, conscientemente ou não, trabalhar com mulheres - no seu objeto de pesquisa e na banda 100% feminina que montou.
"Nada disso foi intencional", conta Karol. "Só quando eu estava finalizando o trabalho é que percebi que tinha muitas mulheres. São mulheres com quem eu me identifico e estão aqui pra somar comigo". As mãos femininas que teceram essa obra, deram vida, também, a outro lado da artista. Entre o primeiro single — Volta, lançado em junho de 2022 — e a produção de agora, Karol diz ter sofrido uma transformação imensa: além do amadurecimento musical, a compositora se engrandeceu até transbordar as barreiras do olhar do outro. "Eu me vejo muito livre. Livre pra me desprender de opiniões e críticas e lançar algo porque eu gostei, achei bonito e senti que eu deveria lançar." Se a primeira música foi lançada com a ansiedade de quem quer mostrar pro mundo a que veio, a segunda chega de um lugar mais tranquilo.
Introduzida no mundo da música através da família, quando aos 15 anos cantava numa banda de reggae com o pai e o irmão, Karol quer cultivar agora a sua carreira autoral, depois de perceber que o que mais gosta de fazer é compor. A canoense luta por um espaço na cena musical alternativa da Capital, de onde ela tira as suas inspirações. O verbo 'lutar' empregado na frase se faz necessário porque, apesar da produção feminina do single de Karol, o mundo da cultura ainda apresenta muitos empecilhos pra mulheres que buscam um lugar de destaque. "Acho que ainda falta muito espaço pra mulheres na música. Acredito que tem muito a ser melhorado: enxergar mulheres como instrumentistas, como produtoras etc.", comenta a compositora. "Consegui montar esse time naturalmente por causa do meio que eu estou inserida e por esse ter sido meu objeto de estudo."
Na música, Karol Engel buscou causar nas pessoas sentimentos de todo o tipo. Porque o bom é isso: sentir. Sentir o bom e o mau. Perceber através dos sentidos, das sensações, aquilo que está dentro de nós. Numa espécie de metamorfose, ela deu vida a uma nova versão de si mesma e, com isso, dá um pouco mais de vida a quem é atingido pelos sons que ela fez.