O Brasil é campeão mundial. No futebol, cinco vezes - imbatível, até agora. Mas também ocupa o pódio em outros temas, que nos causam tudo, menos orgulho. Despontando em rankings de feminicídio, homofobia, transfobia, uso de agrotóxicos e outras mazelas, o Brasil se concretiza, muitas vezes, nesse conflito interno de sentimentos e realidades. E, fiel ao papel do teatro como agente de reflexão e construção do nosso tempo, a peça Brazil campeão do mundo, espetáculo de conclusão da Oficina de Criação e Montagem do Grupojogo, vem para questionar quais são as, por assim dizer, conquistas que o país vem alcançando nos últimos tempos.
A montagem será apresentada nos dias 27 e 28 de fevereiro, sempre às 20h, no Teatro do Centro Histórico Cultural Santa Casa (avenida Independência, 75), e os ingressos podem ser adquiridos no Sympla, a partir de R$ 25,00. Inspirado pelo texto Campeões do mundo, do gigante Dias Gomes, o espetáculo foi construído horizontalmente pelos integrantes da oficina. O texto de Dias Gomes nos traz um registro do Brasil da ditadura, de suas contradições e narrativas - é um retrato de seu tempo. Agora, a peça foi transformada e atualizada para abarcar as questões do Brasil atual. A montagem nos apresenta um universo que mescla elementos narrativos, oníricos e performáticos através das percepções dos intérpretes. Desta forma, são realizadas provocações reflexivas sobre o que está acontecendo na sociedade e no mundo político contemporâneo.
"O teatro é o registro daquilo que estamos vivendo", diz o diretor da montagem e um dos fundadores do Grupojogo, Alexandre Dill. "A gente chegou à conclusão de que queríamos falar sobre o Brasil de hoje e sobre as coisas em que o nosso País é campeão. O Brasil tem tantas coisas bonitas em que é campeão, mas, ao mesmo tempo, tantas coisas assustadoras". O palco, então, se agiganta para poder incluir esse País de dimensões continentais. Brazil campeão do mundo é uma obra ficcional, que traz elementos da realidade para fazer alusão à situação sócio-política brasileira. Colocado no divã, o Brasil passa por uma análise profunda, na busca de entender os motivos que nos trouxeram até aqui.
Depois de quatro meses de trabalhos voltados para a formação enquanto atores e construção da reflexão crítica a partir do aluno, os estudantes recebem autonomia total para criarem textos e escreverem cenas de improviso, que depois são lapidados pelo diretor. Com instrução de três orientadores, os sete alunos da oficina se debruçaram sobre o clássico texto e, numa forma de antropofagia, sintetizaram o Brasil em forma de arte. Brazil Campeão é o segundo trabalho de dramaturgia autoral do grupo. "A gente gostou de trabalhar nesse modelo de criar a partir de uma obra e chegar num resultado inédito. Acho que tem muito mais a ver com esse lugar crítico de reflexão sobre a sociedade (que queremos ocupar)", explica Dill.
O Grupojogo, muito além de apenas ensinar técnicas teatrais e modelos de atuação, busca formar novos artistas e cidadãos conscientes, capazes de utilizar a arte como instrumento de análise e de exposição de questões sociais. Com os alunos do Grupo, são construídos laços afetivos e sensação de autonomia e coletividade, com todos participando integralmente de todos os processos da criação artística. Assim, são formados artistas capazes de criarem coletivamente, para o coletivo, uma maneira de enxergar o mundo. E que, de acordo com Dill, "consigam refletir sobre a arte e através do teatro. E que essa seja uma reflexão crítica sobre a sociedade, e não só a reprodução dos moldes de encenação e a repetição de modelos com os quais a gente já está acostumado."
Com mais de 15 anos de estrada, o Grupojogo surgiu a partir de um curso de formação de atores da Terreira da Tribo da escola de teatro popular Ói Nóis Aqui Traveiz. Primeiramente atuando como um agrupamento de atores, os integrantes do grupo resolveram criar um núcleo pedagógico, com aulas a preços acessíveis para a fomentação de novos artistas na cidade. Durante a sua história, o Grupo já encenou 13 espetáculos, sendo dez de conclusão de oficina.