Tudo é o parangolé. Atar as duas pontas do mesmo tecido, até que pano e paisagem sejam uma superfície só: a paisagem, ela mesma. Unir o mar ao morro, o Rio de Janeiro todo, o verão num único monocromo. O parangolé indissocia a visão, concentrando em si todos os elementos que se apresentam ao olhar, como diz Gustavo Zeitel para a Folhapress.
Por não ser estático, é também incerto, malemolente. Um objeto que no ar insinua curvas, vértices, vórtices. Suas cores se avivam no espaço aberto, pela indeterminação da dança, o samba. O Carnaval é o parangolé, e o parangolé é o Carnaval.
Em 1964, Hélio Oiticica subiu o morro da Mangueira pela primeira vez, enfastiado com a vida burguesa que levava. Na companhia do escultor Jackson Ribeiro, o artista plástico encontrou na quadra da escola de samba uma vitalidade transgressora antes desconhecida.
Ele se deslumbrou com os carros alegóricos e com a costura de adereços e fantasias. Passou, então, a frequentar o morro, aprendendo a sambar com Mestre Miro. Tempos depois, já desfilava pela verde e rosa como passista.
Numa estilização da experiência momesca, Oiticica condensou a visualidade dos desfiles, transformando um pano numa capa para ser vestida. O efeito visual almejado se daria com a capa em movimento, o corpo dançando e espalhando a cor no ar. O parangolé não seria, portanto, um quadro, uma escultura ou uma instalação.
O livro Qual É o Parangolé? (2015) reúne ensaios de Waly Salomão, poeta e amigo de Oiticica, sobre a vestimenta e sua estética. Segundo Waly, a pergunta do título da obra era repetida à exaustão nas ruas do Rio nos anos 1960. Tão indeterminada quanto o próprio objeto, a expressão pode agregar diferentes significados. "O que é que há?", "qual é a parada?", "como vão as coisas?".
Sob o aspecto estilístico, Waly usa sua prosa poética para tentar mimetizar o objeto de estudo, o parangolé. Afinal, o tecido no ar, como observa Waly, tem duas dimensões arquitetônicas. A primeira se refere ao brutalismo, à simplicidade de um só pano em movimento. A segunda, e mais importante, é a insinuação da estrutura da moradia das favelas.
O parangolé emula a organicidade dos barracos, que se erguem a partir do improviso e da contingência. De modo análogo, a dança, que opera o efeito geométrico e cromático, também se assenta no improviso, traço coreográfico a um só tempo brasileiro e contemporâneo.
Por isso, o parangolé funciona como um produtor de afetos no tecido social. No samba, o improviso é um contrato de confiança entre o brincante e o espectador. Acertado o pacto, se produz um passo original, um efeito inventivo que ocupa o espaço, afirmando a criatividade de quem dança. O passo improvisado, porém, pode ou não reincidir no tempo. O parangolé tensiona, desse modo, os limites entre as artes plásticas e cênicas.
Nesse sentido, a criação de Oiticica tem filiação inequívoca com a teoria do não-objeto de Ferreira Gullar. Ainda que seja possível admirar os passos do brincante, não existe, no parangolé, a relação entre objeto e espectador. Ao contrário da pintura ou da escultura, a obra se alicerça sem um suporte, o que Waly chama de "estrutura-ação". A obra de arte só existe na vivência - a cor no ar. O espectador cria e vive o parangolé, sem hierarquia entre corpo e tecido.
É provável que Waly e Oiticica tenham se conhecido em 1967, durante a exposição Nova Objetividade Brasileira. Um ano depois, os dois estiveram juntos na manifestação Apolicapopótese, em que sambistas e passistas da Mangueira desfilaram no Aterro do Flamengo. Os laços viriam a se estreitar durante os anos 1970, quando o artista plástico estimulou a publicação dos primeiros escritos do poeta. A amizade teria como pano de fundo a tropicália, movimento de que Oiticica foi participante, e Waly, espectador-participante.
Para Waly, o parangolé era uma antevisão da paisagem. Se, como observado, o parangolé concentra os elementos dispostos ao olhar, o tecido é a um só tempo a interposição na realidade imediata e a síntese na realidade, ela mesma. É como se a cor no ar, interposta à paisagem, nela se diluísse. O corpo, sempre em movimento, se volta para o outro, num deslocamento de seu eixo.
Ao corpo, "a estrutura-ação" é, nas palavras de Waly, uma experiência "suprasensorial". Fora dos limites da moldura, os elementos do visível (cores, luzes, sombras e reflexos) se relacionam com o "feixe total dos sentidos". Do mesmo modo, vistas do alto, as alas de uma escola de samba são blocos cromáticos independentes e comunicantes. Mas, além da experiência sinestésica, o parangolé é uma intervenção política.
Subversivo era, nos anos 1960, uma ameaça à ordem imposta pelo regime militar. Em 1965, Oiticica convidou passistas e ritmistas da Mangueira para exibirem sua nova invenção na mostra Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O artista desejava que a escola entrasse no museu sambando, tocando e espalhando a cor no ar, mas a direção do MAM impediu o desfile da escola, numa atitude preconceituosa, própria do circuito das artes plásticas.
Apesar da indignação, o artista conseguiu ali a prova do incômodo que causava ao valorizar em seu trabalho uma expressão popular, o Carnaval. Também antevia o descompasso entre as inquietações da arte institucional e a cultura que brotava das ruas. "Museu é o mundo, é a experiência cotidiana", ele dizia.
Em alguns modelos de parangolé, Oiticica bordou dizeres políticos. "Da adversidade vivemos", "estou Possuído" ou "incorporo a revolta". Nos dois últimos, o artista fazia menção à espiritualidade das religiões de matriz africana, discriminadas pela história e homenageadas em 2023 pelo enredo da Mangueira, As Áfricas que a Bahia Canta. Oiticica ressaltava, todavia, que a experiência "suprasensorial" do parangolé era um apelo à imanência e não se relacionava com a religiosidade. Desse modo, o parangolé é também político por ser um chamado ao aqui e agora.
Acima de tudo, o parangolé, definido por Haroldo de Campos como "asa-delta para o êxtase" potencializa a experiência, para que o corpo em movimento se embriague com as sensações no "pleno ar/ puro hélio", como diz a canção.