Nesta quarta-feira, o Farol Santander (Rua 7 de Setembro, 1028) vira palco para dois dos maiores nomes da música brasileira. Integrando a programação do Porto Verão Alegre, a cantora e compositora Duda Brack se apresenta com o ícone Ney Matogrosso em show que traz sucessos dos dois artistas, além de versões de artistas que inspiram a cantora. O show Na pista com quem interessa é às 20h e tem últimos ingressos (a partir de R$ 125,00) à venda pelo Sympla.
O sucesso que, em Ney Matogrosso, é perene se faz explosão em Duda Brack. Os cinquenta anos entre uma carreira e outra em nada separam a caminhada dos dois. Como um magnetismo que atrai sem se ver, os dois cruzaram caminhos. O encontro aconteceu em decorrência do disco Primavera nos Dentes (2017), que traz releituras de 11 obras dos Secos & Molhados. Produzido pelo ex-titãs Charles Gavin, o álbum traz novos arranjos e a potente voz de Duda em canções que continuam atuais. "Menina, eu adorei o disco", aprovou Ney. E assim começou um laço de amizade entre os dois. Depois de ouvir o álbum e ir aos shows, o ídolo percebeu a autenticidade da artista e começou a caminhada musical conjunta. "Ele me viu e se viu, de certa forma", comenta Duda.
Nascida em Porto Alegre, Duda Brack é gaúcha, mas também é do mundo. Aos 18 anos se mudou pro Rio de Janeiro para cursar Música na Unirio. Lá, entrou em contato com vários compositores e produtores da sua geração, mergulhando de cabeça no oceano da música. O primeiro álbum, É (2015), reúne as composições dos artistas que conheceu nos festivais de música dos quais participou. "Comecei a me juntar com autores e músicos que eu me identificava, já pensando em gravar um disco que fosse de intérprete, mas de músicas inéditas, assim como foi com a Gal, Bethânia, Elis…" comenta. Experimental e trazendo a tropicália e o rock clássico como referências, É musicou a vida de Duda. "Eu deixei o rastro da minha existência no mundo."
O segundo disco foi lançado pelo selo de Ney Matogrosso, depois do encontro dos dois. "Ele me chamou para lançar meu segundo álbum solo e eu chamei ele pra participar da minha vida." Caco de Vidro (2021) é renascimento. Depois de passar por um período de depressão, Duda quis colocar para fora sentimentos que explodiam dentro dela. Com participações do próprio Ney, além de BaianaSystem e Lúcio Maia, guitarrista da Nação Zumbi, o álbum traz brasilidade e ritmos latinos em potentes denúncias sociais e gritos feministas. "Parto do princípio de que tudo é político", sentencia a cantora. "Eu não me pretendo uma cantora-ativista, mas o compor em si já é político. Eu acredito nas micro evoluções."
A música amplifica a voz de quem vocifera contra as injustiças, e a cantora sabe disso. Nas suas músicas, ela denuncia questões como patriarcado, neocolonialismo e a exploração do meio ambiente. "Não me interessa esse lugar domesticado da mulher", diz. "O estereótipo da mulher cantora é muito ligado à sereia, ao delicado, ao inofensivo. E eu nunca fui essa mulher, sempre fui selvagem. Cresci num lugar totalmente matriarcal, feminino. As mulheres que me cercaram sempre me ensinaram a não ser subjugada e eu achei na arte uma forma de colocar isso no mundo."
Na pista com quem interessa pretende ser o show de transição entre a Duda intérprete e a Duda compositora. Seu terceiro álbum, que será lançado no segundo semestre deste ano, vai trazer canções autorais da artista, que se sente pronta para usar sua voz para dizer o que vem de dentro. Desde 2016 se desenvolvendo enquanto cantora, Duda Brack se provou como um dos grandes nomes da sua geração. Agora quer ocupar o lugar da composição. "Eu não preciso mais me provar como cantora, então esse é um disco em que, pela primeira vez, estou pensando mais no outro, o que as pessoas vão pensar, vão sentir quando ouvir. Tô pensando em contagiar os outros", diz, "Fazer música ganha uma outra dimensão de profundidade, é um sentimento tipo 'isso saiu de mim, é a minha história'."
Para muitos, o rosto da cantora pode ser conhecido fora da músico: em 2022, Duda participou da novela Além da Ilusão, da Rede Globo. Dando vida à vilã Iolanda Flores, ela trabalhou com gigantes da teledramaturgia, como Marisa Orth e Bárbara Paz. "Foi uma baita experiência, saio na rua e as pessoas me reconhecem. Sempre quis trabalhar em novelas, sempre amei o universo da dramaturgia, mas eu estava sempre focada na música e não fui atrás." Descoberta em seu show pelo produtor da novela, a compositora diz que adoraria repetir a experiência. "No mundo ideal, eu gostaria de alterar a vida de cantora e de atriz, acho que essas coisas se complementam. Tenho muita vontade de fazer cinema. Sou apaixonada."
Voltando à cidade natal para participar do Porto Verão Alegre, a artista se sente muito realizada. "É um evento em que eu cresci, primeiro como público e, agora, como atração. Fico muito feliz de estar voltando nesse contexto, em grande estilo, com a participação luxuosa do Ney. É um prenúncio de coisas boas." No show da Capital, estão presentes algumas canções de Caco de Vidro, seu segundo álbum, e releituras das músicas de É. Versões de artistas como Rosalía, Baianasystem, Pabllo Vittar e Destiny's Child completam o repertório junto de canções emblemáticas de Ney Matogrosso, que se soma à voz de Duda.