Uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, a escritora carioca Nélida Piñon - falecida em Lisboa, aos 85 anos, no último dia 17 de dezembro - deixa um legado que vai além do estilo refinado que marcou sua extensa obra literária, composta por romances, contos, ensaios, crônicas e memórias. "Ela simbolizou o intelectual completo, capaz de agir em diversos recantos da cultura, sempre na defesa das minorias e dos excluídos", destaca o escritor e professor universitário Luiz Antonio de Assis Brasil. "Sua obra notabiliza-se pela verdade, antes de tudo, e para isso, adota uma linguagem acessível ao leitor habitual, sem abrir mão da elegância. Essa é a originalidade de seu estilo."
Agitadora cultural, presente nos Conselhos Culturais e conselhos especializados do gênero feminino, Nélida também foi docente nas universidades mais prestigiadas do mundo. No meio acadêmico, foi professora na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e obteve o título de Doutor Honoris Causa em instituições de ensino de diferentes países. Em 1998, foi a primeira mulher a alcançar esse feito na Universidade de Santiago de Compostela, na região da Galícia, na Espanha. Anos depois, se tornou a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (posto ocupado entre 1996 e 1997). Sua obra foi traduzida em 30 países e, em 2022, foi homenageada com a Medalha Biblioteca Nacional - Ordem do Mérito do Livro.
Ao longo de sua carreira, Nélida recebeu mais de 40 condecorações nacionais e internacionais. "Ela estava à frente de seu tempo, pois sempre empunhou bandeiras que hoje pertencem ao domínio comum, tal como o respeito ao papel da mulher na sociedade", destaca Assis Brasil.
Dona de uma prosa elaborada e de ritmo quase musical, Nélida entregou sua vida à literatura. Começou a escrever pequenas histórias na infância, mas foi depois de se formar em Jornalismo (na Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), que estreou na literatura com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, publicado em 1961. Em 1984, lançou uma de suas obras mais marcantes, A república dos sonhos. No romance, baseado na história de uma família de imigrantes galegos, ela faz reflexões sobre a Galícia, a Espanha e o Brasil. Seus escritos renderam conquistas importantes, entre eles o Prêmio Jabuti, o mais tradicional reconhecimento literário do País. Ela recebeu a honraria na edição de 2005, com Vozes do Deserto.
Dentre tantas obras, ainda merecem destaque A Doce Canção de Caetana e O Calor das Coisas. Autora em constante evolução, no decorrer de sua trajetória, a escritora fez com que seus temas se ampliassem a realidades cada vez mais universais. "Perdemos uma das maiores escritoras deste País. Dona de um estilo personalíssimo e elegante, acreditava que a literatura poderia, sim, mudar o mundo. Para ela, 'escrever era um compromisso com a humanidade'. Compromisso que honrou na arte e na vida", afirmou a escritora Jane Tutikian em sua página do Facebook, no dia da morte da autora carioca.
Segundo Assis Brasil, as grandes preocupações de Nélida Piñon situavam-se nas vicissitudes do ser humano. "É justamente nos vórtices da alma que ela encontrava seus temas literários. Toda personagem adquire vida perante o leitor não através de suas certezas, mas através de suas dúvidas e contradições, e essa é a lição maior que Nélida Piñon pode nos oferecer", afirma o professor universitário. "Suas personagens, mesmos as menores, são dotadas da mais intensa vivacidade e presença, sejam captadas no dia a dia, seja na história ou nos mitos plurais."
Na Associação Brasileira de Letras, Nélida ocupava a cadeira número 30, desde 1989. "Foi uma mulher de coragem, afetuosa, e gentil. Falava maravilhosamente bem de improviso. Fez uma excelente atuação como a primeira presidente da ABL", valorizou o músico Gilberto Gil, também em uma publicação em página pessoal nas redes sociais. "Nélida tinha fascinação pela Bíblia, e isso se percebe nas muitas referências ao Evangelho na obra dela. Amava a Espanha, a Galícia, onde viveu na infância, e adorava Portugal, onde ambientou o seu último romance. Mesmo frágil, quase cega, conseguiu terminar um novo livro, inédito, que entregou há umas duas semanas ao editor Rodrigo Lacerda, da Record", ressaltou Gil. Colega da escritora na ABL, ela ainda pontua que a autora carioca "faz parte de uma galeria de grandes artesãs da palavra como foram Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, duas de suas grandes amigas."