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fotografia

- Publicada em 20 de Novembro de 2022 às 19:24

No alto da escadaria da Borges, o 'Mundo da Nega Angela' se abre à população

Em cartaz até 5 de dezembro, exposição nas escadarias da Borges de Medeiros traz o Mundo da Nega Angela, com fotografias que revelam detalhes escondidos de cenários da cidade

Em cartaz até 5 de dezembro, exposição nas escadarias da Borges de Medeiros traz o Mundo da Nega Angela, com fotografias que revelam detalhes escondidos de cenários da cidade


Angela dos Santos/Divulgação/JC
Andressa Pufal Leonarczik
Conheci a obra da fotógrafa Angela Cristina Ribeiro dos Santos pouco antes de entrevistá-la, em um dia de chuva no Centro Histórico de Porto Alegre. Antes de encontrá-la, aproveitei um momento em que as gotas não caíam para ver, na escadaria da Borges de Medeiros, fragmentos do Mundo da Nega Angela: pedaços de Porto Alegre que a gente passa e não vê, mas que ela viu. E que, até o dia 5 de dezembro, estão abertos para quem quiser vê-los também, faça chuva ou sol. Basta subir pelas escadas e olhar.
Conheci a obra da fotógrafa Angela Cristina Ribeiro dos Santos pouco antes de entrevistá-la, em um dia de chuva no Centro Histórico de Porto Alegre. Antes de encontrá-la, aproveitei um momento em que as gotas não caíam para ver, na escadaria da Borges de Medeiros, fragmentos do Mundo da Nega Angela: pedaços de Porto Alegre que a gente passa e não vê, mas que ela viu. E que, até o dia 5 de dezembro, estão abertos para quem quiser vê-los também, faça chuva ou sol. Basta subir pelas escadas e olhar.
Toda exposição é um diálogo entre quem faz a arte e quem a vê. Depois de encontrá-la pessoalmente, e enquanto esperávamos para ir ao café em que faríamos a entrevista, Angela conversa com um rapaz na rua. Pergunta se ele já tinha visto a exposição de fotos. Ele diz que não, então ela sugere que ele veja quando passar por ali de novo. E diz, com orgulho: "eu que fotografei".
Angela fala bastante. Tem muito a dizer. Tem 67 anos e começou a fotografar em 2017, quando tinha 62. Antes disso, ela foi servidora pública, fez cursos de culinária, de barista e até de restauração de livros. Também já trabalhou com patchwork, empreendeu em cafés por 10 anos e trabalhou em restaurantes. Agora, depois de um extenso currículo e muitas experiências profissionais, ela nos apresenta sua primeira exposição fotográfica, na Galeria Escadaria, no topo do Viaduto Otávio Rocha. A mostra, com 13 fotos em grande escala, nos revela um universo de detalhes. Muros, concreto, céu, fios de luz: tudo que está ao nosso redor e foge dos nossos olhares apressados vira arte quando tocado pelos olhos de Angela.
A artista começou a trilhar a trajetória da fotografia em uma viagem que fez a Buenos Aires, em 2017. A cidade platina inspirou o olhar fotográfico com as suas belezas, e assim nasceu a Angela fotógrafa. As fotos eram feitas com o celular, até que ela resolveu comprar uma câmera para ir em outra viagem, até Lisboa, em Portugal.
Se aventurando nos cliques amadores e aprendendo na prática, Angela quis dar mais técnica às mãos que seguram a câmera e manuseiam as lentes. Realizou inúmeros cursos de fotografia e, depois disso, começou a fazer parte do Fotoclube de Porto Alegre e da Câmeras Passeadeiras. Andando pelas ruas da cidade com os olhos transformando o cotidiano em arte, percebeu que preferia ir na contramão dos colegas: enquanto eles apontavam as lentes para um lado, ela olhava para o que todos davam as costas. "Parece que todo mundo olha pro mesmo lado e tira foto da mesma coisa. Fica tudo igual. Eu faço coisas bem diferentes, porque enquanto eles tão olhando pro todo, eu estou olhando para aquele buraquinho, aquele detalhezinho", explica.
Angela pega a Porto Alegre invisível e expõe na Porto Alegre que se enxerga. Os detalhes que antes passavam despercebidos são engrandecidos em tamanho e sentido, expostos em telas de 2 metros a céu aberto para que todo mundo veja. A fotografia passa por dois processos de revelação: o químico e o subjetivo. Revela a parte de um todo que nos circunda e não se nota, faz refletir e perceber as pequenas particularidades do mundo.
"Não quero fazer uma foto que seja bonita. Quero que seja intrigante. Quero, acima de tudo, que gere uma reflexão", comenta Angela. Sem legendas, a mostra estimula o público a pensar e formar suas próprias ideias a respeito do que está posto. E a ausência de molduras faz transbordar a fotografia para a cidade que a envolve. O lugar escolhido para a mostra foi pensado justamente por ser onde passam muitas pernas apressadas, todos os dias. "Eu quis devolver pra cidade aqueles detalhes pelos quais a gente passa toda hora e nem percebe. Tem tanta coisa bonita que pode ser arte", reflete a fotógrafa.
O alto da Escadaria da Borges é o topo da montanha para Angela. Para uma mulher negra, conquistar esse espaço é uma conquista para si e uma inspiração para os que a enxergam. "Quero estimular as pessoas. Quero mostrar que se nós vamos atrás, nós conseguimos", diz. "Foi para mostrar essa força enquanto mulher negra (que quis) fazer isso. Me mostra que eu consegui chegar onde eu queria."
 
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