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Reportagem Cultural

- Publicada em 30 de Junho de 2022 às 18:53

Fernanda Carvalho Leite retorna à cena rebatizada artisticamente

Aos 48 anos, 30 de profissão, a atriz encara o passar dos anos com serenidade, mas também com inquietude

Aos 48 anos, 30 de profissão, a atriz encara o passar dos anos com serenidade, mas também com inquietude


VILMAR CARVALHO/DIVULGAÇÃO/JC
Márcio Pinheiro

Márcio Pinheiro

Para a atriz Fernanda Carvalho Leite, 2020 só começou em novembro do ano seguinte. Por quase dois anos, ela se sentiu paralisada. Foi uma espécie de hibernação - em parte imposta pela pandemia de Covid-19, em outra parte como escolha pessoal. "Entrei num casulo", confessa ela, "num processo intenso de transformação e de reavaliação." E acrescenta: "Estava questionando a mim e a minha profissão. Não estava sendo fácil. Estava envelhecendo demais". Deste duro processo, Fernanda saiu rebatizada - agora, artisticamente, ela se chama Fera Carvalho Leite (leia na página 5 deste caderno, o manifesto em que ela explica o novo nome) e se sentindo "velha demais".

Pode parecer exagero, mas não é irreal. Aos 48 anos, 30 de profissão, Fernanda Hübner de Carvalho Leite, nascida em Porto Alegre em 1974, filha caçula de um jornalista e de uma assistente social, vem encarando o passar dos anos com serenidade, mas também com inquietude. "Eu me cuido e estou sempre preocupada em me superar, em ir além do espelho. Posso envelhecer no rosto e no corpo, mas não posso deixar que o envelhecimento tome conta da minha alma e do meu coração".

Velha Demais (ou Velha D+, como aparece nos cartazes) é o nome do monólogo escrito para ela, sem ser por encomenda, pelo amigo e diretor teatral Bob Bahlis e toca numa série de temas que Fernanda (aqui adotaremos preferencialmente o nome de batismo, não o artístico) está interessada em debater: feminismo, o passar dos anos, as oportunidades de trabalho, o mundo pós-pandemia, a maternidade, a reinvenção. O texto chegou pronto, mas devido ao fato do tema ser tão próximo da atriz, ela se sentiu à vontade para mexer e colocar ainda mais suas opiniões e sentimentos.

Velha? "Às vezes me sinto - em especial, fisicamente", admite. "O principal sintoma desses novos tempos talvez seja o fato de que não quero correr mais riscos. Não me refiro aos desafios profissionais, aos riscos que a vida naturalmente exige, mas, sim, os riscos que exijam um outro tipo de coragem. Já saltei em rio numa ponte de 15 metros, já fiz trapézio. Hoje não faria mais isso". Na atuação, o passar dos anos também se faz presente, os papéis mudam. "Agora sou convidada para ser a viúva, a solteirona, a mãe, a tia. Não sou mais a mocinha. E isso é um caminho natural. Porém, atualmente, me divirto com a diversidade: é melhor ser a malvada do que a heroína".

No monólogo que tem pouco mais de uma hora de duração, Fernanda é Ella, 44 anos, casada (o marido entra na peça por meio de gravações) e abatida pela morte da avó, vítima de Covid-19. Pelo formato do espetáculo, reconhece Fernanda, a interação com o público é natural e fundamental. Enquanto atua num espaço reduzido e intimista, Fernanda diz perceber em algumas pessoas da plateia - quase sempre composta por mulheres numa faixa etária semelhante à dela - as mesmas inquietudes que a personagem sente. "E, no final, são muitas as pessoas que vêm conversar comigo e dividir histórias".

Histórias como as que Fernanda divide com os leitores a partir de agora.

 

Experiente D+

'Velha Demais' (ou 'Velha D+', como aparece nos cartazes) é o nome do monólogo escrito e interpretado pela artista

'Velha Demais' (ou 'Velha D+', como aparece nos cartazes) é o nome do monólogo escrito e interpretado pela artista


Andressa Pufal/JC

A trajetória de Fernanda Carvalho Leite é longa e variada. A primeira paixão foi o atletismo: a ginastica olímpica - e ela foi atleta durante boa parte da infância e da adolescência. Não tinha alcançado a maioridade e já estreava nos palcos, então como atriz e bailarina. Antes disso, também teve uma rápida experiência como modelo.

Em 1998, a artista foi para Nova York estudar na escola The Lee Strasberg Theatre Institute. De volta ao Brasil, formou-se em Biologia (faculdade que havia ingressado aos 16 anos - mas, depois de diplomada, nunca exerceu a profissão) e especializou-se em Pedagogias do Corpo e da Saúde, na Ufrgs, desenvolvendo sua monografia sobre Contact Improvisation. "Durante anos, eu até me imaginava uma adulta diferente do que sou, trabalhando de tailleur e sapato social, como uma executiva, mas a vida deu voltas e me jogou nesse mundo artístico", conta a atriz. "E eu não consegui mais me desligar", completa. 

Quem testemunhou o nascer artístico de Fernanda, confirma todo esse envolvimento. "Acompanho a trajetória dela, desde sua participação em um filme que dirigi, Mazel Tov, em 1990. E, já naquela época, desenvolvi com ela uma relação de proteção: nas cenas em uma cachoeira de água gelada, embora fosse um inferno de verão, eu dava o 'corta' e já dizia: 'Sai da água menina, vai pegar uma toalha'. Até hoje ela, sempre que me encontra, lembra do quanto eu cuidava dela nas filmagens", lembra a diretora e professora Flávia Seligman. "Depois, pude ver que ela se tornou uma atriz versátil e muito talentosa. No cinema, Fernanda parece reconhecer a luz e o enquadramento, e trava uma relação de cumplicidade com a câmera".

Esta cumplicidade que Flávia destaca pode ser comprovada em performances como as que a atriz realizou em filmes como o curta-metragem Vênus, de 2001, em que ela interpretava Martha - e chamou a atenção do diretor paulista Carlos Reichenbach. Carlão a convidou para trabalhar com ele, e juntos fizeram Garotas do ABC, de 2003, e, no ano seguinte, Bens Confiscados. "Carlão foi um diretor muito importante na minha trajetória. Até hoje sinto muita saudade dele", afirma Fernanda.

Além destes trabalhos, a artista ressalta suas participações em A Paixão de Jacobina (2002), e Nossa Senhora do Caravaggio, (2005), ambos de Fábio Barreto; A Festa de Margarette, de Renato Falcão; O Carteiro, com roteiro e direção de Reginaldo Faria - que Fernanda considera um dos maiores atores brasileiros de todos os tempos -; e Netto e o Domador de Cavalos, de Tabajara Ruas, que lhe garantiu a indicação ao prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado 2008 e a aproximou do ator Werner Schünemann.

"Trabalhei com a Fernanda em Netto e o Domador de Cavalos, onde ela interpretava uma cigana sensualíssima. Apesar de pouco termos contracenado juntos, era legal ficar observando a atuação dela e vendo como ela é uma atriz concentrada e que sabe explorar muito bem a expressão corporal", elogia Schünemann.

Nos palcos, o espetáculo no qual a atriz ficou mais tempo em cartaz e pelo qual obteve prestígio e reconhecimento foi Inimigas Íntimas, comédia que foi exibida por mais de 10 anos. Escrita por Artur José Pinto e dirigida por Néstor Monasterio, a peça surgiu a partir de um argumento proposto por Fernanda e Ingra Lyberato. As atrizes, que dividiram a cena nesta montagem, já eram próximas, e esta proximidade se mantém até hoje. "Conversamos muito e muitas angústias são comuns a nós duas", compara a artista.

Atacando em tão diferentes frentes, Fernanda não para. "Por sorte e por esforço, nunca me faltou trabalho, até porque não me envolvo apenas com a interpretação. Me interesso por produção, por contratos, por cenário, por trilha sonora, enfim, tudo que faz parte de um espetáculo", afirma. Ela declara que já houve interesse em traçar uma carreira mais constante e de maior visibilidade em centros como São Paulo e Rio de Janeiro: "Cheguei a pensar nisso, mas não quis trocar o certo pelo duvidoso. Me sinto à vontade em Porto Alegre e já vi muitos colegas que saíram daqui com uma ilusão e ficaram frustrados", admite a atriz. "Acredito que meu trabalho seja criar coisas por aqui mesmo. Sou empreendedora, me movimento muito e gosto de buscar novos campos de exploração. E a cidade me permite isso".

 

O palco é a sua casa

O térreo do casarão onde reside a atriz virou espaço para oficinas e apresentações, enquanto nos fundos funciona um restaurante comandado por seu marido

O térreo do casarão onde reside a atriz virou espaço para oficinas e apresentações, enquanto nos fundos funciona um restaurante comandado por seu marido


/VILMAR CARVALHO/DIVULGAÇÃO/JC

Para Fernanda, o palco é sua casa - literalmente. Ao lado do marido, Eduardo, e do filho Juan, de oito anos, ela vive na parte superior de um casarão na avenida Cristóvão Colombo. O andar de cima é a moradia. A parte dos fundos é ocupada pelo restaurante de inspiração tailandesa comandado pelo marido. E o térreo, logo na entrada do imóvel, é onde fica o escritório e, principalmente, o espaço que a atriz transformou em palco: o Espaço Livre Arte Corpo Mente. Ali ela dá aulas, organiza oficinas, desenvolve práticas de yoga, comunicação não violenta, meditação, mindfullness, inteligência emocional, dança e constelações familiares. É o seu espaço livre, ocupado não apenas por ela mas também por outros profissionais que se interessem por estas manifestações. "É um lugar que criei para a arte e para o desenvolvimento do corpo e da mente", explica Fernanda.

A casa está há quatro gerações com a família Carvalho Leite. Foi incialmente ocupada pelo bisavô de Fernanda e foi o local que ela escolheu morar há mais de duas décadas - e onde decidiu trabalhar, há seis anos. O imóvel foi reformado, adaptado, ganhou novas peças e até um pequeno estúdio onde a artista realiza gravações e locuções, e ainda mantém vínculos com o passado, uma vez que convive com as fotos do acervo pessoal da família, em que aparecem Fernanda, a irmã cinco anos mais velha, seus pais e avós - todos na parede do velho casarão.

Quando está em casa - ou seja, na maior parte do tempo - Fernanda gosta de ler. Os romances Deixa Eu te Falar da Noite, de Paulo Roberto Farias, e A Natureza Oculta Iluminada, da amiga e parceira Ingra Lyberato foram os títulos mais recentes, além de Vivendo a Comunicação Não Violenta: Como estabelecer conexões sinceras e resolver conflitos de forma pacífica e eficaz, de Marshall Rosenberg, e Espiritualidade Quântica, de Amit Goswami e Valentina R. Onisor - livros que fazem parte dos estudos mais recentes de Fernanda e que ela pretende aplicar em seus próximos trabalhos. Também costuma assistir séries da Netflix, como Maid e Coisa Mais Linda, e escutar muita música. Atualmente, a atriz tem dado preferência a intérpretes femininas, como Céu, Tiê, Mariana Volker e Luedji Luna.

 

O que vem por aí

No segundo semestre de 2022, Fernanda estará de volta às telas de cinema

No segundo semestre de 2022, Fernanda estará de volta às telas de cinema


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Além de planejar sair em turnê pelo interior do Rio Grande do Sul e também por outros estados com Velha D+, Fernanda estará de volta às telas de cinema neste segundo semestre de 2022. Ela integra o elenco de Além de Nós, um road-movie que vai passar por sete estados, partindo do Rio Grande do Sul até a Bahia.

Com direção de Rogério Rodrigues, o longa-metragem começou a ser rodado há três anos, em Bagé. Estrelado por Thiago Lacerda, Miguel Coelho e Ingra Lyberato, Além de Nós tinha estreia prevista para 2020, mas - como tantos outros projetos - acabou sendo atropelado pela pandemia, e só agora será exibido. O filme participará da mostra do próximo Festival de Cinema de Gramado, fará o circuito dos demais festivais brasileiros e deverá ser exibido pelas salas de cinema até o final do ano.

Antes disso, Fernanda apresenta novamente seu monólogo em duas sessões, agendadas para os dias 5 e 6 de agosto, no teatro do Centro Histórico-Cultural Santa Casa. "É possível perceber que em tudo no trabalho dela há um forte embasamento cultural. Sua interpretação é baseada na sensibilidade para temas e assuntos que são da contemporaneidade", analisa Schünemann, acrescentando que "em Velha D+ ela não fala apenas sobre a idade, mas também sobre a mulher e sobre os outros que olham para a mulher dessa idade". E conclui: "Sem soluções simples, ela nos traz reflexões. Ela monta seus trabalhos na sua observação e num referencial emotivo, sensorial".

"A Fernanda é múltipla, não apenas como atriz e bailarina, mas também como professora, divulgadora e produtora cultural. É uma pessoa que atua em várias áreas e com quem eu me orgulho de ter uma conexão muito forte de amizade e parceria", diz a jornalista Mariana Bertolucci, amiga da atriz desde a adolescência.

Com muitos projetos pela frente, Fernanda não tem tempo para pensar se está envelhecendo.

 

"Manifesto sobre meu nome"


MARCELO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC

Fera

tem letras do meu nome de nascimento

Fernanda,

que dizem trazer a ousadia no ser.

Fera

aciona em mim a mulher selvagem

cuja força está na sua autenticidade

no seu amor-próprio,

amor pelos seus,

amor pela vida com amor.

Fera,

posso até eventualmente ser brava,

mas tenha certeza

de que uma expressão minha,

por ventura mais incisiva,

traz em si a intenção de proteção

de preservação de valores

que não entram em negociação.

Ser fera,

ser muito boa no que faço,

ser muito boa pessoa,

Ser fera me empodera.

Sou tigre no horóscopo chinês,

sou fogo, fogo e ar,

os números me dizem:

amar, criar e comunicar.

Fera Carvalho Leite:

boa selvagem, como a fera;

forte, como o carvalho;

doce, como leite.

Sou Fera Carvalho Leite.

 

Atriz de múltipla criatividade

"Falar a respeito de Fernanda Carvalho Leite é buscar os meus encantamentos com teatro, minhas brincadeiras de infância com seu pai - meu amigo Jorge Olavo Carvalho -, e o fascínio de assisti-la no trapézio dizendo a fala de Madonna.

As encenações faziam parte das minhas brincadeiras nos jardins e outras dependências da grande chácara de Dona Izolina e Zeferino Lu, no bairro Menino Deus, no início da década de 1940. Jorge Olavo, sobrinho de Eunice Luz Carvalho Leite e Oscar Carvalho Leite, passava longas tardes em brincadeiras comigo e o grupo jovem que reuníamos. Junto com ele, liderava a garotada e a proposta era assumirmos um enredo criado por mim, com muita fantasia e lances audaciosos, nos diversos recantos da chácara. Então, já se manifestava meu entusiasmo pelo teatro. Seguimos amigos, não muito próximos, mas sempre recordando nossas aventuras da infância nos encontros. Ambos ficamos novamente mais próximos com o trabalho na imprensa. Através dele, fiquei amigo das filhas, Fernanda e Adriana (Stürmer).

Acompanhei o caminho de Fernanda no teatro com a satisfação de ver realizada, em parte, minha fascinação pessoal pelo palco. No espetáculo Velha D+, apresentado no espaço criado por seu talento em antigas casas da família, vibrei ao vê-la subir no trapézio e seguir na sua interpretação talentosa com a direção sensível e inteligente de Bob Bahlis. Continuarei aplaudindo sua presença em cena, com projetos que deverão ser incomuns e reveladores de sua múltipla criatividade."

Por Paulo Gasparotto

 

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