Milena Waitikoski Pedroso, diretora de Comunicação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
"Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las." A frase atribuída a Voltaire virou peça de museu. Hoje muitos aplaudem a liberdade de expressão, desde que seja a própria.
Recentemente, o presidente Lula discursou na ONU apresentando-se como defensor exemplar da democracia. Difícil conciliar esse tom com o cenário interno: tentativas de regulamentar redes sociais que podem abrir margem à censura, um Congresso incapaz de sequer discutir uma versão melhorada da péssima PEC da Blindagem destinada a reforçar a liberdade de expressão – direito já previsto na Constituição – e uma sociedade dividida entre silenciar ou cancelar quem pensa diferente.
No outro extremo do hemisfério, Donald Trump processa jornais que o criticam. O gesto mostra que a ameaça não tem ideologia nem fronteira. Governos e líderes populistas, da esquerda à direita, parecem dispostos a restringir vozes dissidentes quando lhes convém.
O mundo foi abalado pelo assassinato de Charles James Kirk, que não pode ser esquecido. Além de um homicídio doloso, trata-se de um atentado contra a liberdade de expressão em sua forma mais elementar. Se aceitarmos calados, estaremos pavimentando o caminho para que qualquer voz dissonante seja reduzida ao silêncio pela violência.
Não é apenas o Estado que reprime. O cancelamento nas redes, nascido da onda "woke", tornou-se censura coletiva, em que multidões virtuais não apenas destroem reputações e inviabilizam carreiras, como também aplaudem quando a violência cala uma voz. Esse ambiente nocivo corrói o debate público.
A democracia não sobrevive sem liberdade de expressão, mas muitos que a proclamam parecem dispostos a sacrificá-la em nome da conveniência política ou da pressão das massas. Eis o paradoxo. O risco é acordarmos em um mundo onde a pluralidade de ideias – que fortalece sociedades livres – seja substituída por um consenso imposto, seja pelo governo, seja pela multidão digital.
A morte de Kirk deve servir como símbolo de que a liberdade de expressão é frágil, mas essencial. Lutar por esse direito é defender a própria democracia.
A história mostra que a censura pode calar uma voz, mas não extingue a verdade. Galileu Galilei, no século 17, foi acusado de heresia por sustentar que a Terra girava em torno do Sol, contrariando a visão da Igreja. Foi obrigado a abjurar suas ideias diante da Inquisição, sob pena de prisão perpétua. Mesmo humilhado, não deixou de acreditar no que havia observado com o telescópio. Conta-se que, ao sair do tribunal, teria murmurado: "Eppur si muove" ("E, no entanto, se move"), em alusão ao deslocamento da Terra em torno do Sol.
A memória de Galileu sobrevive, enquanto seus juízes foram esquecidos. Esse episódio permanece como testemunho de que nenhuma fogueira, tribunal ou bala consegue deter para sempre o movimento da razão.
É essa a lição valiosa. A liberdade de expressão não é um luxo dos tempos de paz, mas o alicerce de qualquer sociedade que se queira livre. Ela é, ao mesmo tempo, risco e promessa da democracia. Proteger até mesmo a palavra que nos desagrada é a única forma de garantir que, quando chegar a nossa vez de falar, ainda exista alguém disposto a ouvir.