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Publicada em 01 de Outubro de 2025 às 19:27

O direito de ser desagradável

Milena Waitikoski Pedroso, diretora de Comunicação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

Milena Waitikoski Pedroso, diretora de Comunicação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)

IEE/DIVULGAÇÃO/JC
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Agências
Milena Waitikoski Pedroso, diretora de Comunicação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
Milena Waitikoski Pedroso, diretora de Comunicação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE)
"Não concordo com uma só palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las." A frase atribuída a Voltaire virou peça de museu. Hoje muitos aplaudem a liberdade de expressão, desde que seja a própria.
Recentemente, o presidente Lula discursou na ONU apresentando-se como defensor exemplar da democracia. Difícil conciliar esse tom com o cenário interno: tentativas de regulamentar redes sociais que podem abrir margem à censura, um Congresso incapaz de sequer discutir uma versão melhorada da péssima PEC da Blindagem destinada a reforçar a liberdade de expressão – direito já previsto na Constituição – e uma sociedade dividida entre silenciar ou cancelar quem pensa diferente.
No outro extremo do hemisfério, Donald Trump processa jornais que o criticam. O gesto mostra que a ameaça não tem ideologia nem fronteira. Governos e líderes populistas, da esquerda à direita, parecem dispostos a restringir vozes dissidentes quando lhes convém.
O mundo foi abalado pelo assassinato de Charles James Kirk, que não pode ser esquecido. Além de um homicídio doloso, trata-se de um atentado contra a liberdade de expressão em sua forma mais elementar. Se aceitarmos calados, estaremos pavimentando o caminho para que qualquer voz dissonante seja reduzida ao silêncio pela violência.
Não é apenas o Estado que reprime. O cancelamento nas redes, nascido da onda "woke", tornou-se censura coletiva, em que multidões virtuais não apenas destroem reputações e inviabilizam carreiras, como também aplaudem quando a violência cala uma voz. Esse ambiente nocivo corrói o debate público.
A democracia não sobrevive sem liberdade de expressão, mas muitos que a proclamam parecem dispostos a sacrificá-la em nome da conveniência política ou da pressão das massas. Eis o paradoxo. O risco é acordarmos em um mundo onde a pluralidade de ideias – que fortalece sociedades livres – seja substituída por um consenso imposto, seja pelo governo, seja pela multidão digital.
A morte de Kirk deve servir como símbolo de que a liberdade de expressão é frágil, mas essencial. Lutar por esse direito é defender a própria democracia.
A história mostra que a censura pode calar uma voz, mas não extingue a verdade. Galileu Galilei, no século 17, foi acusado de heresia por sustentar que a Terra girava em torno do Sol, contrariando a visão da Igreja. Foi obrigado a abjurar suas ideias diante da Inquisição, sob pena de prisão perpétua. Mesmo humilhado, não deixou de acreditar no que havia observado com o telescópio. Conta-se que, ao sair do tribunal, teria murmurado: "Eppur si muove" ("E, no entanto, se move"), em alusão ao deslocamento da Terra em torno do Sol.
A memória de Galileu sobrevive, enquanto seus juízes foram esquecidos. Esse episódio permanece como testemunho de que nenhuma fogueira, tribunal ou bala consegue deter para sempre o movimento da razão.
É essa a lição valiosa. A liberdade de expressão não é um luxo dos tempos de paz, mas o alicerce de qualquer sociedade que se queira livre. Ela é, ao mesmo tempo, risco e promessa da democracia. Proteger até mesmo a palavra que nos desagrada é a única forma de garantir que, quando chegar a nossa vez de falar, ainda exista alguém disposto a ouvir. 

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