João Satt, estrategista, CEO G5
O Brasil atravessa um raro momento em que os acontecimentos deixam de ser apenas políticos e passam a colocar em discussão a própria solidez das instituições. Executivo, Congresso e Supremo Tribunal Federal convivem em permanente tensão, enquanto cresce na sociedade uma sensação perigosa: a perda de confiança no sistema.
Em Como as Democracias Morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que democracias contemporâneas raramente desaparecem por golpes clássicos. Sua erosão costuma acontecer gradualmente, por dentro das próprias instituições, quando limites começam a ser relativizados, adversários passam a ser tratados como inimigos e aquilo que deveria ser excepcional transforma-se em prática recorrente.
A Constituição de 1988 construiu uma democracia sustentada pelo equilíbrio entre os Poderes. Nenhum deles foi concebido para ser absoluto. O Executivo governa, o Legislativo representa a sociedade e produz as leis, e o Judiciário garante sua aplicação e a proteção da Constituição. O sistema funciona justamente porque existem limites, controles e contrapesos. O problema começa quando esses limites se tornam imprecisos. De um lado, uma política cada vez menos capaz de construir consensos e resolver seus próprios conflitos. De outro, uma judicialização crescente, que leva aos tribunais decisões essencialmente políticas. Quando essas fronteiras se confundem, não são apenas os Poderes que entram em tensão. É a própria confiança nas instituições que começa a se fragilizar.
Quando o excepcional se torna habitual, o equilíbrio institucional começa a mudar. A questão central não deveria ser quem está sendo beneficiado ou prejudicado. Democracias maduras precisam discutir princípios: devido processo legal, liberdade, limites do poder, transparência, responsabilidade e igualdade perante a lei.
Instituições fortes não são aquelas que não podem ser questionadas. São aquelas capazes de responder aos questionamentos com transparência, serenidade e respeito às próprias regras. O maior risco não é a crise de uma instituição. E, sim, o fato da sociedade perder a confiança em suas instituições. Existe, porém, outra dimensão que não podemos ignorar: crises não são apenas rupturas, oportunizam janelas de evolução.
Isso vale para uma pessoa, uma empresa ou até mesmo uma República. Muitas vezes, é quando chegamos ao limite da indignação que encontramos coragem para enfrentar nossas fragilidades, rever escolhas e mudar caminhos. Acredito que seja essa a oportunidade da hora: transformar a crise em aprendizado, corrigir excessos, restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e, sobretudo, reconstruir a confiança. A dor pode produzir paralisia, mas também pode despertar consciência, coragem e estimular a transformação. Muitas vezes, o desconforto nos impulsiona a abandonar velhas respostas e buscar novas soluções. Afinal, o verdadeiro valor de uma crise está exatamente aí: não apenas no que ela rompe, mas no espaço que abre para construirmos algo melhor.
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