Quando a cortina se abre, o palco, com uma cenografia (de Wanderlei Wagner) praticamente minimalista, apresenta um grande círculo formado por montes de livros usados. Ele ocupa o centro do palco. São livros velhos, aparentemente, talvez lixo. Mas sob este emaranhado desordenado de livros, surgem os quatro intérpretes do Coletivo Ocutá, Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto. Britto, ao lado da socióloga, atriz e diretora Beatriz Barros, que assina o espetáculo, assina a dramaturgia que transformou o romance de Jeferson Tenório, “O avesso da pele” num contundente, emocionante e inesquecível espetáculo de teatro.
O livro de Tenório tem experimentado duas sortes contrastantes: odiado e proibido por alguns, inclusive em escolas de segundo grau; ovacionado e premiado por outros, que chegam a ir ao teatro para assistir ao espetáculo ou se detiveram, sem preconceitos, a ler o texto do escritor paulista, radicado em Porto Alegre.
Em 1944, o escritor capixaba, então residente no Rio Grande do Sul. Fugido da polícia política do Estado Novo de Getúlio Vargas, Ivan Pedro de Martins, estreava na literatura com o romance “Fronteira agreste”. O livro, logo depois, seria proibido sob a acusação de pornografia. Do que ele tratava, efetivamente? Da transformação da estância sul-rio-grandense na fazenda, graças à chegada do capitalismo industrial e comercial ao país. Mas quem proibia não queria referir o verdadeiro motivo do temor. O mesmo ocorre, agora, com o livro de Jeferson Tenório. Não querem assumir que é o problema da violência contra os pobres, o ódio à cultura – o personagem assassinado pela polícia é um professor de literatura de uma escola pública – ou o racismo estrutural que caracteriza nosso país e nossa história.
O texto de Tenório é todo escrito na primeira pessoa: é o órfão Pedro que, após o assassinato do pai Henrique, para tentar entender exatamente o que aconteceu, vai visitar o apartamento do pai e ali reconstitui o passado – as raízes do morto e, por extensão – suas próprias raízes. Daí que, na transposição ao teatro, a dramaturgia criada por Britto e Barros, sensivelmente, inicia com os personagens soterrados pelos livros. É preciso revelar o “avesso da pele” do título da narrativa e, para isso, há que se ir para além do que os livros – a versão oficial – conta. É de dentro daqueles livros, mas pelo avesso, que um outro livro vai revelar uma outra história. Por isso também, o elenco do Coletivo Okutá, inteiramente formado por atores negros, na dramaturgia criada, não vive, cada um, um único personagem: a história de Pedro e de Henrique não é uma história individualizada sobre a morte do professor de literatura de uma escola pública de periferia, que voltava à noite para casa, depois de esforçar-se dramaticamente para conquistar seus alunos para a literatura, acaba morto pela polícia. A morte não é casual: a morte resulta de um processo pré-escrito, o preconceito racial estrutural que, infelizmente, existe, sobrevive e vitima sobretudo negros, sobretudo pobres, ainda que os agentes desta violência sejam, eles mesmos, pobres e negros, só que vestindo uma farda ou portando um distintivo que, de certo modo, lhes dá licença de matar. Então, todos os atores vivem indistintamente o professor Henrique, assassinado, e o jovem Pedro, que busca entender o que ocorreu e, consequentemente, dá-se conta de que precisa descobrir e interpretar a sua própria origem: o avesso de sua pele negra, então, não é mais o branco preconceituoso, mas o vermelho do sangue do assassinato, elemento simbólico também fortemente presente na encenação, graças à iluminação cenográfica, de Gabriel Souza.
Os atores são jovens negros do grupo Ocutá que, ao escolher o nome do agrupamento, deixou claro seus objetivos: okutá é uma pedra sagrada que representa a essência, a força da terra (raiz) e a ancestralidade. Ficar raízes, preservar potências e ressignificar narrativas são as metas do grupo. O resultado é um espetáculo denso, forte, pesado, mas que está radicalmente distante de um discurso teórico militante. Pelo contrário, a dramaturgia desenvolvida, com a preparação corporal de Castilho e a preparação vocal de Malú Lomando, completada pelos figurinos de Naya Violeta, fazem com que “O avesso da pele” se torne uma celebração dramática, um espetáculo que tem até comicidade, mas muito de brasilidade e profunda e imensa dor daqueles personagens cuja única falta é serem pobres e negros.