A iniciativa que melhor caracteriza a temporada teatral de 2024 é o conjunto de festivais e de mostras que ocorreram. Há aquelas atividades tradicionalmente presentes em nosso calendário, como, por exemplo, o Porto Verão Alegre, que, mais uma vez, marcou os meses de janeiro e de fevereiro do ano passado. Depois, ocorreu, em março, uma parte do Porto Alegre em Cena, igualmente tradicional iniciativa, e se chegou a anunciar a programação do Palco Giratório, em abril.
Mas daí vieram as chuvas de maio e junho, e, por consequência, a suspensão de toda e qualquer atividade artística. Quando foi possível retomar as atividades mais ou menos cotidianas, os grupos teatrais locais estavam com sérias dificuldades, e os grupos de outros estados não tinham como chegar a Porto Alegre, pelo fechamento do aeroporto Salgado Filho.
Foi então que a Secretaria de Estado da Cultura, com o apoio do Banrisul, propôs um edital que gerou, entre junho e julho, o Festival Artes e Cenas e, logo depois, o Festival Movimento Cena Sul, que se valeu basicamente dos espaços do Theatro São Pedro e do Teatro Olga Reverbel, apresentou uma sucessão de grupos de Porto Alegre e do interior do Estado, tanto de teatro quanto de dança, que receberam cachês acima do normalmente pagos para tais espetáculos, justamente no sentido de propiciar apoio financeiro a tais grupos. Ao mesmo tempo, os ingressos gratuitos garantiram acessibilidade ampla a todos os interessados.
Os festivais programados do Palco Giratório e o Porto Alegre em Cena, do mesmo modo, priorizaram os grupos sul-rio-grandenses, sobretudo com a mesma preocupação de apoiar a retomada de atividades de nossos grupos mas, também, devido à proximidade dos dois festivais, ao terem suas datas de realização tradicional deslocadas e ainda pela dificuldade de chegada de espetáculos de fora do Estado à cidade. O saldo positivo disso tudo, ainda, foi a manutenção do Festecri, festival de teatro para crianças, que trocou de data, mas manteve integralmente a sua programação, o que foi excelente, trazendo milhares de crianças para o palco do Theatro São Pedro, muitas delas pela primeira vez na vida.
O resultado, em síntese, é que jamais os grupos locais alcançaram tanta visibilidade e dispuseram de tantas alternativas para suas iniciativas quanto nesta temporada, o que não deixa de ser uma contradição - mas uma sadia contradição, primeiro, porque mostrou haver produção artística entre nós suficiente para garantir o interesse do público, e depois, permitiu melhor avaliar a qualidade desta produção, que acaba por atender aos mais diversos gostos das plateias locais.
Em janeiro, ainda antes das enchentes, a temporada abriu com um belíssimo espetáculo vindo de fora, Elis, a musical!, interpretado pela extraordinária atriz e cantora Laila Garin, num resultado inesquecível. Sucessivamente, tivemos o retorno de A última sessão de Freud, com Odilon Wagner, que obteve enorme sucesso no ano passado, e a volta de O pai, com Fúlvio Stefanini. Apresentada há alguns anos, creio que o texto ganhou importância na atualidade, pelo crescente fenômeno do aumento da população mais idosa no Brasil e sua dependência de cuidadores e de famílias responsáveis.
Depois das enchentes, o primeiro espetáculo a chegar aos palcos de Porto Alegre foi Radojka, uma comédia friamente calculada, com Marisa Orth e Tania Bondesan, excelente e inteligente espetáculo cômico que reatou nossas relações com o centro do País. No decorrer do segundo semestre, ainda ocorreram incursões rápidas, tipo visita de médico, como se diz no jargão popular, do musical A bela e a fera, no Teatro Bourbon, e O que só sabemos juntos, escrita por Luis Villaça, que também assina o espetáculo, para as interpretações de Denise Fraga e Tony Ramos no Teatro da Pucrs.
Na dança, o balé de Deborah Colker trouxe A sagração da primavera, que também cumpriu fulminante temporada. Mas o Grupo Corpo acabaria também visitando Porto Alegre, por iniciativa da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, num espetáculo inédito, por reunir orquestra ao vivo, no palco, e o conjunto coreográfico. Na dança, tivemos ainda a presença do sensível Miêdka, com Claudia Maia, Armando Aurich e Ana Mondini, que foi um dos bons momentos deste tipo de arte na temporada que passou.