A peça O santo inquérito, de Dias Gomes, embora abordasse um tema aparentemente distante na História, a Inquisição portuguesa e seus reflexos no Brasil, na verdade tocava e denunciava diretamente a situação vivida pelo país em plena ditadura. Trata-se da recriação de um fato presumivelmente histórico: a jovem Branca Dias foi acusada de heresia em um auto-de-fé. Segundo Dias Gomes, na nota introdutória ao volume que publicou o texto da obra, cerca de 40 mulheres brasileiras teriam sofrido tais perseguições. O caso de Branca Dias foi categórico: acusada, processada, foi condenada e executada.
Para além do fato de a Inquisição poder ser aproximada do processo ditatorial que o país então vivia (o texto original é de 1966, a versão final, editada, a partir da encenação de Flávio Rangel, em São Paulo, é de 1977), Dias Gomes interessou-se por uma outra questão típica dos sistemas de força: a mistura entre os alegados motivos de Estado (no caso, de religião) e os motivos particulares.
A personagem Branca Dias é profunda, sincera e inocentemente religiosa. Ela tem o bom senso que falta a seus detratores. De outro lado, o namorado, Augusto, a ama sincera e profundamente, de modo que jamais vai traí-la para subtrair-se à morte. O jovem e piedoso sacerdote que coordena seu processo, o Padre Bernardo, é sincero quanto às suas preocupações quanto à salvação da jovem. Mas ele é vítima de sua humanidade, apaixona-se pela prisioneira, e como não pode admitir a si mesmo tal sentimento, o entende como uma tentação do demônio, através da figura da acusada: eliminando-a, elimina o demônio e purga a si mesmo. O tema voltaria a ser explorado, alguns anos depois, pelo roteirista francês Jean-Claude Carrière, mais tarde transformado em livro, que resultou no filme As sombras de Goya, de Milos Forman. O roteiro mostra o inquisidor Frei Lorenzo, que dirige um auto-de-fé contra a jovem Inês, musa do pintor Goya, na corte espanhola sob invasão francesa. Lorenzo tenta salvar a jovem, até o momento em que se dá conta de estar apaixonado por ela. A partir daí, as coisas se invertem, e ele a violenta sexualmente sucessivas vezes na prisão, levando-a à loucura.
O tema central, assim, desloca-se da questão objetiva de uma trama que envolve um sacerdote que se torna corrupto, traindo seus votos, para uma questão mais ampla: o quanto, como escrevi acima, autoridades se valem de razões oficiais para defenderem interesses particulares. Porque este é o fulcro do sistema autoritário: na medida em que não há possibilidades de controle sobre o Poder, ele pode ser exercido infinita e radicalmente.
Lembro-me da encenação a que assisti aqui em Porto Alegre, no Teatro de Arena, deste espetáculo dirigido por Pereira Dias. Era um ato de coragem, tanto do diretor do espetáculo quanto do diretor do teatro, Jairo de Andrade, trazer à ribalta este texto que denunciava, ainda que por linhas transversas, os descaminhos que a ditadura experimentava, levando à morte dezenas de vítimas inocentes, cujo maior crime, eventualmente, fosse apenas pensar diferente. A encenação de Porto Alegre aconteceu em 1967, portanto, logo depois da primeira montagem do TBC de São Paulo, mas muito próximo dos acontecimentos que marcariam o Ai-5, em dezembro de 1968.
Independentemente da questão do tema e do enfoque, porém, o que faz a peça de Dias Gomes ainda hoje ter importância e poder/dever ser encenada é o diálogo simples, cotidiano, lógico, que opõe o bom senso da jovem e os discursos pomposos das autoridades que, no entanto, não possuem consistência, porque não apresentam congruência entre o que dizem, o que pensam e o que fazem. Aliás, Dias Gomes, não apenas voltava a discutir a essência da religiosidade verdadeira, como ocorrera em O pagador de promessas, que já comentei aqui, quanto propunha uma reflexão a respeito do próprio estatuto da verdade, então sempre invocada pelas autoridades, como se apenas elas fossem as únicas guardiãs de tal conhecimento.
Infelizmente, O santo inquérito não perdeu atualidade. Por isso, é profética a fala final de Branca Dias, quando é encaminhada para o patíbulo: "Sei que não sou a primeira. E nem serei a última". O dramaturgo Bertolt Brecht discutiu o mesmo assunto em sua última obra, Galileu Galilei.