Assim mesmo, foi no âmbito do Porto Verão Alegre que a temporada se iniciou, com a apresentação de A aurora da minha vida, peça referencial de Naum Alves de Sousa, aqui apresentada pelo grupo Gato e Sapato. Na ocasião, comentei o texto, incentivando o grupo. Voltei a assistir ao mesmo espetáculo, ao final do ano. Infelizmente, não observei nenhum avanço quanto à qualidade do trabalho. Fica, pois, o duplo registro: o da expectativa e o da frustração.
Espetáculo importante daquele início de temporada foi a presença do texto, entre nós ainda inédito, Há um incêndio sob a chuva rala, de Vera Karam. A iniciativa da diretora Juliana Thomaz foi adaptar um conto da escritora, já falecida, e editado em 1999, ao teatro, com bons resultados.
Ainda no período de férias, e também no âmbito do Porto Verão Alegre, conhecemos The saga of Jenny, assim mesmo em inglês. O espetáculo estreara ao final do ano anterior, contando com a concepção de Ernani Poeta, que em anos anteriores sempre surpreendeu com seus trabalhos musicais. Aqui, confirmou as expectativas.
A mostra do Porto Verão Alegre, contudo, terminou de maneira emocionante com o belo Vermelhos - História e Paixão, assinado por Néstor Monasterio, a partir do texto de Artur José Pinto, narrando a saga do Internacional. Foi um grande momento, emocionante mesmo para os não colorados, como registrei então, e que fez com que almejássemos algo semelhante sobre o Grêmio, o que até aqui não ocorreu.
Evidentemente, a morte do maestro e regente da Orquestra da Pucrs foi a grande perda da cultura sul-rio-grandense. A montagem de Aída, pelo grupo da Pucrs, com o apoio da Cia. Zaffari, foi um canto de cisne do grande líder.
Mas tivemos bons espetáculos locais de dança, como o curioso Abobrinhas recheadas, que estreou em abril, pelo grupo Gaia, dirigido por Diego Mac, com coreografias dele mesmo e de Alessandra Chemello. Dar carne à memória, de Eva Schul, e que terminou como o espetáculo premiado do ano, estreou em junho e impressionou pela precisão do movimento coreográfico pesquisado pela coreógrafa. Mas a grande surpresa daquele mês foi o Balé Mahavidyas, que marcou as comemorações dos 25 anos da Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro. Com música de Vagner Cunha, direção de Voltaire Dankwardt e coreografia de Carlota Albuquerque, tendo na regência do grupo musical Antonio Carlos Borges Cunha, assistimos a um espetáculo absolutamente inusitado e criativo, que marcou a tantos quantos o conheceram. Foi, sem dúvida, no campo da dança, o grande acontecimento do ano.
Em outubro, outro trabalho muito bonito marcou a cidade, Casa, casa, casa, com o que o ano de 2010 mostrou bons momentos de criação. Mais não vi, porque, infelizmente, boa parte dos espetáculos fica pouquíssimos dias em cartaz e, de modo geral, sua publicidade acontece apenas em cima da temporada, o que dificulta muito a agenda de programação.
Temporada iniciada, começou a procissão dos espetáculos de fora do Estado, com diferente qualificação. O estrangeiro, por exemplo, baseado no romance de Albert Camus, tendo Guilherme Leme como intérprete e a assinatura de Vera Holtz na direção, foi um bom momento. Mas só em maio novos espetáculos que nos visitaram valeram a pena ser conhecidos, como Medida por medida, de William Shakespeare, e o alegre O santo e a porca, de Ariano Suassuna. O mês de maio ainda nos reservou a extraordinária performance de Juliana Galdino em Comunicação a uma academia, espetáculo baseado em um curto conto de Franz Kafka, que tem sido várias vezes levado ao palco e que aqui surgiu na direção de Roberto Alvim, para o Club Noir, de São Paulo.
Em junho, outro clássico e ainda uma vez de Albert Camus, o conhecido Calígula. Com isso, por incrível que pareça, ao menos para mim, encerrou-se o ano de 2010 em relação a espetáculos realmente importantes a serem conhecidos.
Nossa produção para adultos
Pode-se dizer que a produção local de teatro dirigido para os adultos foi quantitativa e qualitativamente diversificada e bem acabada. Começamos em março, com um Beijo no asfalto, do Grupo Neelic, na Usina do Gasômetro, bastante polêmico. Tivemos uma boa experiência com o Stand up drama, de Bob Bahlis, com excelente resultado dramático; enfrentamos o controvertido Homem que não vive da glória do passado, no Teatro de Câmara, e conferimos a tragicomédia musical Mães e sogras, de Leandro Sarmatz, com direção de Marcelo Adams.
Foi apenas em maio, contudo, que tivemos um primeiro grande trabalho local em cena, o emocionante e inesquecível A tecelã, produção do grupo Caixa de Elefante, verdadeira poesia em cena. Junho voltou a nos brindar com excelentes espetáculos, como o Bodas de sangue, que Luciano Alabarse realizou, a partir do trágico texto de Garcia Lorca, momento maior de nossa ribalta nesta temporada.
Seguiram-se espetáculos criativos como O osso do Mor Lam, do grupo Caixa Preta, dirigido por Jessé Oliveira, a partir de um texto do senegalês Birago Diop, a que se seguiria Milkshakespeare, brincadeira inventiva a partir de hipotéticas situações envolvendo o maior dramaturgo inglês de todas as épocas.
Em julho tivemos novo texto de Júlio Conte, Larissa não mora mais aqui, o mesmo dramaturgo que viria a estrear, ao final da temporada, outro trabalho seu, A milímetros de Mercúrio, mostrando sua diversidade e a criatividade de autor e diretor.
O mês de agosto nos propiciou outro trabalho inesperado, Sobre saltos de scarpin, baseado em crônicas de David Coimbra, espetáculo seguro e inteligente, que agradou a tantos quantos o assistiram.
Passado o 17º Porto Alegre em Cena, em setembro, reencontramos o texto de Frank Wedekind, O despertar da primavera, uma vez mais dirigido por Zé Adão Barbosa, em versão mais depurada e mais poética, a que se seguiria o provocativo Clube do fracasso, assinado por Patrícia Fagundes, em espaço inusitado, um ateliê de pintura na zona Norte da cidade. O mês de outubro ainda nos daria a estreia de A lição, de Eugène Ionesco, sob a direção de Margarida Leoni Peixoto, produzindo, assim, do ponto de vista quantitativo, um dos meses mais interessantes no teatro local.
No final da temporada, tivemos uma frustrada estreia de Hotel Fuck, a que se seguiu O animal agonizante, soberbo trabalho do ator Luiz Paulo Vasconcellos, ainda uma vez sob a direção de Luciano Alabarse, além de Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá, do grupo Teatro Sarcáustico, sob direção de Daniel Colin, e que acabaria sendo o espetáculo mais premiado da temporada, que se encerrou com a estreia de Hybris, o novo trabalho do grupo Falos & Stercus, apresentado no Hipódromo do Cristal, reeditando e ampliando as pesquisas que o grupo de Marcelo Restori desenvolve há muitos anos. Em dezembro, estreou ainda Violência e paixão, de Roberto Oliveira, na Usina do Gasômetro.
Fomos mais felizes em relação à dança. Já em abril, uma curiosidade lotou o teatro. Trata-se do espetáculo Celtic legends, de um grupo irlandês, integrado também por jovens norte-americanos descendentes daqueles primitivos habitantes europeus, e cuja alegria e comunicabilidade tocou em todos os que foram prestigiar o trabalho.
Logo depois, reapareceu o conjunto Katacló e tivemos a visita do espetáculo Quidam, do Cirque du Soleil, grupo original do Canadá, que possui vários elencos e que realiza turnês anuais pelo mundo. Ingressos muito caros, constrangeu quem, logo depois, foi conhecer Exotique, do nosso querido grupo Tholl, de Pelotas, que tem a mesma inspiração, um papel social mais importante, e que nem por isso abusa nos preços. Em maio, foi a vez de se reencontrar Eva Yerbabuena e seu grupo de flamenco, sempre admirável e inesquecível - confirmado no novo trabalho.
Variedade permanente, em junho foi a vez do Balé Imperial da Rússia, assim como em novembro seria a ocasião do Balé Nacional da China e em outubro a visita de Mickhail Barishnikov, acompanhado de Ana Lagoa, em um interessante espetáculo de solos. No mês mais frio do ano, contudo, assistimos a uma produção externa de O barbeiro de Sevilha, ópera cômica que sempre atrai público. Em setembro foi a vez do retorno do grupo Stomp, da Alemanha, com seus grandes tonéis, tampas metálicas e adereços inusitados, de comicidade que arrebata a quem assiste.
Apesar das dificuldades, o Festival de Teatro de Bonecos de Canela teve uma edição no mês de junho, com espetáculos de excelente qualidade e firmando-se como mostra de referência no Sul do País. Quanto ao Porto Alegre em Cena, Luciano Alabarse caprichou nas comemorações, trazendo uma quantidade superior de espetáculos, ocupando por três semanas não só teatros mas diferentes espaços da cidade, propiciando variedade, mesclando trabalhos estrangeiros e nacionais, altamente profissionais ou de grupos amadores que, não obstante, evidenciam a criatividade.
Tivemos trabalhos bastante interessantes, a começar pela remontagem de O macaco e a velha, de Ivo Bender, e, no mesmo mês, texto de Lya Luft sob direção de Ronald Radde, Criança pensa.
Em maio, tivemos a estreia de Era uma vez...uma fábula assombrosa, do grupo Oigalê, espetáculo bem acabado e com ótima produção, mas que teve enfoque equivocado. No mês seguinte, foi a vez de Ópera monstra, que marcou o retorno da Cia. Stravaganza, com um texto de Ricardo Severo, que tem sido um dos melhores criadores de trilhas musicais para infantis. Aqui, ele apareceu também como dramaturgo, e acabou por ter o seu espetáculo bastante premiado ao final do ano, embora eu ratifique que o trabalho apresenta equívocos de concepção.
Agosto foi marcado por uma enxurrada de Chapeuzinhos Vermelhos. E setembro nos trouxe um criativo e inteligente trabalho, A almofada, o castelo e o dragão, a mostrar que o teatro para crianças continua vivo e dinâmico.