Bráulio Borges
Doutorando em economia da FGV EESP, mestre em economia na FEA-USP, é diretor da LCA Consultores e pesquisador-associado do FGV Ibre
A poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais, vale chamar a atenção para um tema praticamente ausente dos debates.
Em setembro, a OCDE divulgou um estudo com uma das estimativas mais cuidadosas já feitas sobre o custo macroeconômico das mudanças climáticas. E o Brasil não sai bem na foto.
O diferencial desse novo estudo está no método, "de baixo para cima". Com microdados de empresas e modelos climáticos e agronômicos, os autores estimam os danos locais de quatro tipos de riscos: estresse térmico, que reduz a produtividade do trabalho; enchentes, que destroem capital; mudanças nas condições agroclimáticas, que afetam o rendimento potencial das lavouras; elevação do nível do mar, que reduz a terra disponível e pode destruir capital.
Esses choques alimentam um modelo de equilíbrio geral, com 927 regiões de 186 países, que capta comércio, migração e cadeias produtivas.
No cenário SSP2-4.5, que corresponde grosso modo à manutenção das políticas atuais e me parece o mais realista, o PIB per capita mundial seria cerca de 3% menor em 2050 que num mundo com clima estável; nos países da OCDE, quase 2% menor. No Brasil, a perda seria de aproximadamente 4%, praticamente o dobro da média da OCDE. Entre quase 50 economias analisadas em detalhe, só Tailândia, Grécia, Índia e Austrália aparecem em situação pior.
A decomposição é reveladora. Cerca de 3 pontos percentuais da perda brasileira vêm do estresse térmico, que derruba a produtividade do trabalho na indústria, na construção e nos serviços, algo especialmente relevante num país com muita gente trabalhando sob calor intenso e na informalidade.
A piora das condições agroclimáticas responde por cerca de 0,5 ponto percentual. Parece pouco, mas a agropecuária pesa muito mais nas exportações que no PIB e os mapas do estudo apontam queda no rendimento potencial da soja e do arroz em boa parte do território e do trigo na região Sul. Enchentes e elevação do mar pesam pouco na média nacional, mas muito nos locais atingidos, como bem sabem os gaúchos.
Há outro dado que chama a atenção: a perda brasileira chegaria a quase 6% em 2100. Ou seja, quase 70% do dano projetado para todo o século já se materializaria até 2050. Isso reflete a inércia do sistema climático.
Pelo IPCC, o aquecimento médio entre 2041 e 2060 seria de cerca de 2°C no cenário SSP2-4.5, não muito diferente da alta de 1,6°C a 1,7°C nos cenários em que o mundo zeraria as emissões líquidas de gases de efeito estufa por volta de meados do século (que foi a meta definida no Acordo de Paris, em 2015).
Mitigar as emissões continua essencial para evitar a escalada posterior ?com elevadas emissões, a perda global de PIB per capita chegaria a 18% em 2100?, mas boa parte da conta até 2050 já está contratada.
Daí a importância das medidas de adaptação para além daquelas de mitigação. Os próprios autores ressalvam que o modelo não incorpora investimentos defensivos e que, por se basear em dados históricos, tende a subestimar os danos.
Os autores recomendam infraestrutura resiliente (drenagem, proteção contra cheias, redes de transporte e energia preparadas para o calor), ajustes nas culturas e nas jornadas de trabalho e seguros.
No Brasil, isso passa por reforçar a pesquisa agropecuária, ampliar a irrigação e o seguro rural, rever normas de trabalho em dias extremos e incorporar critérios climáticos à seleção de projetos de infraestrutura.
Uma perda de quase 4% do PIB per capita equivale a renunciar a alguns anos de crescimento da renda por habitante. É relevante demais para ficar à margem da agenda.
Quem vencer as eleições deveria tratar a adaptação climática como parte central da agenda de produtividade e de planejamento fiscal. O custo da inação é elevado.