Com apenas 40 anos de idade, Adriana Lisboa já figura entre os melhores escritores brasileiros contemporâneos. Carioca, Adriana estudou música e literatura, estreou na ficção em 1999 e publicou pela Rocco quatro romances, entre os quais, Sinfonia em branco e Rakushisha, o livro de contos Caligrafia e três livros para crianças. Pela Publifolha publicou a novela O coração às vezes para de bater. A escritora vai construindo sua obra sem pressa, com paciência e com a inestimável colaboração do tempo. Já recebeu, entre outros, os prêmios José Saramago e o Moinho Santista. Mora atualmente nos Estados Unidos, onde escreve e traduz ficção. Os livros da autora já foram publicados em sete países e o romance Azul-corvo, lançado há poucos dias no Brasil pela Rocco (220 páginas, www.rocco.com.br), é sua quinta narrativa longa. Mais uma vez, Adriana mostra que é dona de muita segurança narrativa e vai consolidando seu estilo sóbrio e elegante, que atrai milhares de leitores. É uma escrita ao mesmo tempo simples, legível e complexa, criativa. Adriana se equilibra bem entre forma e conteúdo, como poucos colegas de ofício. Na narrativa, Evangelina Vanja, a protagonista, após a morte da mãe, resolve voltar aos Estados Unidos, onde nasceu, para tentar localizar o pai. Em companhia do ex-marido da mãe, Fernando, e de um simpático garoto salvadorenho, Carlos, ela mergulha em recordações alheias para organizar sua própria história. Fernando é um ex-guerrilheiro do Araguaia e, no trajeto, Vanja vai tomando consciência do passado recente do Brasil através das lembranças do padrasto. Segundo o escritor e professor Luiz Ruffato, autor da apresentação, Azul-corvo é um romance sobre pertencimento e nele as personagens estão todas em trânsito, numa verdadeira diáspora de indivíduos, habitando lugares provisórios e movediços. Num determinado momento do romance, Evangelina pergunta-se: o espaço que uma pessoa ocupa no mundo sobrevive à própria pessoa? O livro termina onde a vida de Vanja efetivamente começa, quer dizer, quando ela, depois de muito pensar e andar, encontra seu espaço próprio no mundo. Pela escrita segura, pelos temas que envolvem nosso passado recente e a busca por identidade, pelos personagens, num mundo globalizado, a narrativa de Adriana Lisboa é um ótimo convite para ler. Adriana tem muito a dizer. E sabe como.
Não sei se em algum momento da História foi fácil ser político. Os brincalhões diziam e dizem que basta(va) ser meio preguiçoso, bem relacionado, mentiroso, rico, teatral, concordino e indeciso para se dar bem na política. Claro que sempre houve homens públicos honestos, dedicados à comunidade e que dignificaram e dignificam a política e a democracia. Viva eles e viva Norberto Bobbio! Mas, atualmente, com tanta mídia, pesquisa, a coisa não está mole para os nobres administradores e parlamentares. Se falam o que querem, se são sinceros, seja para dizer verdades ou mentiras, a coisa pode complicar para o lado de suas excelências. Se só dizem o que as pesquisas e os marqueteiros determinam, se só falam o que a galera quer ouvir, aí os coitados dos políticos são acusados de não ter opinião, de dizer só os clichês óbvios e de serem insípidos, inodoros e incolores como a água de antigamente. Se o cara fala difícil, profundo, é acusado de não ser entendido e de não alcançar a maioria das pessoas. Se o político passa utilizando expressões de botequim e é simples demais, acusam o sujeito de baixar o nível da comunicação, de não ter “contiúdo”. Se o cara não faz cirurgia plástica ou implante de cabelos, é porque não liga para a própria aparência e não respeita o eleitorado. Caso se plastifique e fique se becando e se cuidando muito, usa creminho e brinco, é porque é vaidoso, pavão e metrossexual ou coisa que o valha. Se o cara é equilibrado, gente boa, sangue bom, gente como a gente, até pode dar certo. Isso até começarem a reclamar que o cara não tem carisma, que é muito óbvio, que não tem luz própria e não seis mais o quê. Se o cara quer agradar todo mundo, não dá, não serve. Se prefere atender a uma parte das pessoas, é porque é sectário. Está dureza, como se vê. Esse lance de falar, ficar quieto e se relacionar com os chatos dos outros, na real, vamos combinar, está difícil para todos nós, mortais humanos. Mas a coisa está feia especialmente para políticos sem mandato. Em casa de político sem mandato só o vento bate na porta. Mas a vida continua e estamos aí para nosso eterno aperfeiçoamento individual e coletivo. Nós todos, claro, mas, principalmente, os integrantes da classe política, que deveriam ser mais perfeitos e ter mais classe, tipo assim, nós, seus fiéis e infiéis eleitores.
• Os ossos de Deus, do italiano Leonardo Gori, narra acontecimentos na Toscana em 1504. Florença e Pisa estão em guerra. Maquiavel contrata Leonardo da Vinci para uma complexa obra. Maquiavel descobre cadáveres de quatro mouros e um gorila com marcas da dissecação feita provavelmente por Da Vinci, que some com segredos. Planeta, 286 páginas, www.editoraplaneta.com.br.
• Os infiltrados, de Carlos Etchichury, Carlos Wagner, Humberto Trezzi e Nilson Mariano, apresenta relatos exclusivos daqueles que eram os olhos e os ouvidos da ditadura no Brasil (1964-1985): os infiltrados. O livro resultou da perseverança, competência e faro dos experientes jornalistas autores. AGE, 128 páginas, www.editoraage.com.br.
• Volta ao mundo em 80 mitos, da escritora e roteirista Rosana Rios, reúne os mais representativos mitos de diferentes regiões do mundo, como Noé, Torre de Babel, Kuarup e Minotauro, revelando sua importância na construção da identidade de cada povo. Artes e Ofícios, 224 páginas, www.arteseoficios.com.br.
• Psicologia unindo retalhos e pessoas traz textos da professora, odontóloga, psicóloga e artista plástica Myrna Cicely Couto Giron e de mais de vinte colaboradores sobre luto, solidão, adolescentes, mulher e violência, formação da família e feminino na mitologia grega e psicanálise, entre outros temas. Edição da autora, 320 páginas, myrna.cicely@terra.com.br.
Deixem-me existir como quem cala
Pedro Stiehl, em O livro das fraquezas humanas, Casa Verde, www.casaverde.art.br