A diretora Chloé Zhao, nascida em Pequim, com a filmografia construída no cinema do Ocidente e marcada por um filme, Nomadland, que teve prêmios e obteve repercussão, reaparece com este Hamnet, obra que tenta se aproximar de um dos construtores da cultura ocidental. E o faz de maneira a surpreender pelos equívocos e pela superficialidade, isso para não falar de exageros em muitas cenas, nas quais obriga a principal intérprete a uma superinterpretação que só aumenta os exageros presentes em quase todas as cenas. O filme, baseado num romance de Maggie O’Farrell e tendo roteiro da autora e da cineasta, se vale de espaços não iluminados na biografia de William Shakespeare para colocar na tela a versão de que o bardo teria escrito Hamlet com o intuito de superar a dor pela morte, aos onze anos, do filho Hamnet. A tese, que certamente faria estremecer de indignação Ernest Jones e outros exegetas da obra do dramaturgo, termina se transformando num relato que explora, sem nenhum pudor, sentimentos de qualquer ser humano vendo ser invertida a tendência que determina a permanência dos filhos após a partida definitiva dos pais. Tal tema já havia sido abordado por Nanni Moretti em O quarto do filho, filme realizado em 2001 com resultados superiores. O que Zhao propõe em seu filme é transformar uma obra-prima numa espécie de drama desligado do universo shakespeariano. Em vez de ver no original uma visão que faz do mundo um jardim repleto de ervas daninhas, para citar uma constatação do príncipe atormentado por desejos incestuosos e impulsos vingativos, a cineasta se fixa na dor causada por uma morte, de certa forma engendrada por um menino que se sacrifica para salvar a irmã. Tudo perfeito para isolar personagens de um mundo que faz de seus habitantes vítimas de opressões as mais diversas.
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